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PrimaLuna EVO300 Hybrid by Floyd: the bright side of the moon

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Reza a lenda que o amplificador ideal é o que conseguir casar a fluidez das válvulas com o poder dos transístores. Com o EVO300 Hybrid Integrated Amplifier, a Prima Luna cumpriu a profecia: It sounds more like a piena luna (full moon) than a prima luna...

Sigo atentamente a carreira de Herman van den Dungen, da Durob Audio, desde que em 2003 me mostrou e demonstrou, pela primeira vez, os amplificadores a válvulas Prima Luna, em Las Vegas.

A partir daí, nunca mais falhei uma demonstração, quase sempre com colunas Sonus faber, numa sala às escuras, apenas iluminada pela incandescência das válvulas e luzes natalícias espalhadas pelo chão, a tocar música rock – e não clássica, com seria de esperar de tais componentes.

Ao longo dos anos, vivi feliz com vários amplificadores a válvulas da PrimaLuna. E escrevi amiúde sobre eles, sempre com o entusiasmo que a sua relação qualidade preço suscitava.

Ao princípio era o DN

Ainda no DN, um artigo intitulado ‘O sol quando nasce…’ sobre o amplificador Prologue One foi o único alguma vez publicado na imprensa diária nacional simultaneamente em língua inglesa ‘When the sun rises…’.

Nota: podem abrir ambas as versões em pdf clicando sobre os respetivos títulos ou no final deste artigo, no fundo da página.

From China with love

PrimaLUna EVO300 H_o design inconfundível dos PrimaLuna, mas agora com andar de potência a MOSFET.

PrimaLUna EVO300 H_o design inconfundível dos PrimaLuna, mas agora com andar de potência a MOSFET.

Embora concebidos nos Países Baixos, os PrimaLuna são construídos na China, e isso torna-os acessíveis pelos padrões audiófilos, num mercado onde amplificadores de características semelhantes e construção menos robusta podem custar dezenas de milhares de euros.

Recentemente, testei para o Hificlube o EVO400, tendo-lhe sido atribuído o prémio de ‘Amplificador a válvulas do ano 2020’.

A linha EVOlution é composta por 12 modelos, entre prévios, integrados e amplificadores, todos a válvulas, ou com recurso a válvulas como o DAC.

Válvulas + MOSFET

O integrado EVO300 Hybrid é o primeiro (e único, por enquanto) modelo híbrido da marca, no qual se optou por utilizar válvulas no andar de prévio e MOSFET no andar de potência.

Perde-se a luminosidade quente das válvulas de potência que iluminam a sala de calor de lareira acesa, aqui substituída por leds de cor vermelha, que deixam escapar o fogo interior pelas grelhas de proteção.

…a suave incandescência das seis válvulas do prévio dá para matar saudades da tecnologia de vácuo integral…

E porque não cor de âmbar ou laranja, como as válvulas? Parece que os leds vermelhos são os que menos interferem com os circuitos.

Eu acho que é um pormenor kitsch e dispensável.

No escuro, a suave incandescência das seis válvulas do prévio é suficiente para matar saudades da tecnologia de vácuo integral.

Pure PrimaLuna with a little help from Floyd Design

Os circuitos a válvulas (baseados no prévio do integrado a válvulas EVO300) são da autoria de Marcel Croese (ex Goldmund), que optou por duplos tríodos 12AU7 (da Psvane) no lugar das habituais 12AX7, em número de seis: duas para o primeiro andar de ganho e quatro (em vez das habituais duas) no andar de saída para garantir uma impedância mais baixa e consentânea com o circuito de estado sólido;

PrimaLUna EVO300 H_Fotos interior (cortesia PrimaLuna): do lado esq a secção de prévio; do lado dir. o andar de potência. Ambos dual-mono.

PrimaLUna EVO300 H_Fotos interior (cortesia PrimaLuna): do lado esq a secção de prévio; do lado dir. o andar de potência. Ambos dual-mono.

Nos circuitos (duplo-mono) de estado sólido, da autoria de Jan de Groot, engenheiro-chefe da Floyd Designs, ambos holandeses de gema, tal como Herman, utilizam-se JFET (da Linear Systems) montados em cascata numa topologia Darlington, com dois MOSFET (da Exicon) complementares para garantir imunidade às variações de impedância das colunas.

Deste modo, obtém-se uma potência declarada de 100W/8 e 160W/4 que, na prática, se revelou muito conservadora: a potência ‘subjetiva’ percebida é muito superior, apesar de o transformador do andar de potência ser de apenas 500VA, que graças ao circuito AC Offset Killer é totalmente silencioso – no hum.

De referir que a secção de prévio, com duplo circuito simétrico, tem as suas próprias fontes de alimentação, incluindo transformadores, daí o peso substancial de 29 quilos do conjunto.

As poucas (apenas as indispensáveis) placas de circuito, com trilhas de cobre banhadas a ouro, têm o dobro da espessura habitual (2,4mm), de resto todas as ligações são efetuadas ponto-a-ponto com soldadura manual.

Todos os componentes são da melhor qualidade: resistências Takman (2%); condensadores Nichicon e eletrolíticos de filme de alumínio fabricados por encomenda; cabos de cobre suíços (DuRoch) de elevada pureza com dielétrico especial, potenciómetro ALPS Blue.

Isto para justificar em parte o preço elevado, pelos padrões PrimaLuna, de 7.150,00 euros, como se a qualidade de som não fosse já suficiente.

PrimaLUna EVO300 H_painel traseiro: observem no andar de Phono opcional (e adicional), montado por baixo do chassis. (foto cortesia PrimaLuna)

PrimaLUna EVO300 H_painel traseiro: observem no andar de Phono opcional (e adicional), montado por baixo do chassis. (foto cortesia PrimaLuna)

O EVO300 H tem um andar de Phono opcional. De resto, são 5 as entradas de linha (designadas por Aux 1 a 5 + HT). O circuito deteta imediatamente se apenas uma estiver ligada e o respetivo led verde acende no seletor.

Nota: na entrada Home Theater, o nível do som não é controlado pelo potenciómetro, portanto cuidado.

Saídas para Tape Out e Subwoofer Out (mono ou stereo) e LS/HP (auscultadores), com comutador montado no lado direito da caixa (On/Off do lado esquerdo).

PrimaLUna EVO300 H_do lado direito pode encontrar o comutador para a saída de auscultadores. O andar de potência não desliga com a simples inserção do jack dos auscultadores.

PrimaLUna EVO300 H_do lado direito pode encontrar o comutador para a saída de auscultadores. O andar de potência não desliga com a simples inserção do jack dos auscultadores.

O amplificador de auscultadores tem um som mais quente (válvulas?) e potência bastante para alimentar planares isodinâmicos, como os Hifiman e Meze (estou a preparar um comparativo Empyrean/Elite).

Um sistema de temporização para aquecimento prévio das válvulas e de análise automática do circuito mantém o EVO300 mudo (led vermelho) durante cerca de 1 minuto até ser ativado (led verde). E pode começar a festa.

A festa vai começar

PrimaLUna EVO300 H_do lado esquerdo encontra o comutador On/Off

PrimaLUna EVO300 H_do lado esquerdo encontra o comutador On/Off

E que festa vai ser.

Não precisei de muito tempo para classificar na minha mente o PrimaLuna EVO300 Hybrid Integrated como o Melhor PrimaLuna de sempre. Vou mais longe: é um forte candidato a Melhor Integrado Híbrido do Ano 2021.

…PrimaLuna EVO300 Hybrid Integrated é o melhor PrimaLuna de sempre…

E ainda: um dos melhores integrados que ouvi este ano. E não esquecer que ouvi, entre outros, o DarTZeel CTH8550 e o Constellation Integrated 1.0.

Considerando que custa uma fração do preço, é só fazer as contas…

Do mesmo modo que se perdeu a luz da incandescência das válvulas de potência, o som não tem a mesma luminosidade geral dos modelos de vácuo: o som é mais escuro.

Mas é uma negritude de silêncio, onde as imagens surgem limpas, tangíveis e recortadas pela sua própria luz interior e a sensação ‘tátil’ nos permite perceber os volumes, os contornos e os mais pequenos detalhes acústicos.

Miscigenação perfeita

A Floyd Designs conseguiu o milagre de manter toda a magia da gama média carnuda e palpável das válvulas, suportada por um grave sólido, autoritário e controlado; talvez só o agudo não tenha a mesma fluidez.

…a magia da gama média carnuda e palpável das válvulas, suportada por um grave sólido…

Em contrapartida, o agudo tem uma substância que escapa até às válvulas, como se fosse parte integrante dos médios e não um mero acessório acústico.

A dinâmica é extraordinária e, por mais de uma vez, dei comigo a correr para o botão de volume, porque o som sobe sem avisar, respondendo às exigências do sinal.

A imagem é holográfica, no sentido de que quanto mais olhamos (ouvimos) mais mergulhamos na sua complexidade e nos apercebemos das suas múltiplas componentes.

Uma questão fonética

Dou um exemplo de mistura complexa de estúdio: em It’s Raining Again, dos Supertramp, nem sempre é possível perceber a canção infantil tradicional que o coro de crianças canta no final:

O EVO300H permite-nos ‘ver’, ouvir e entender o que eles cantam sem perder uma sílaba.

It's raining, it's pouring
The old man is snoring
He went to bed and bumped his head
And he couldn't get up in the
Morning

Messiah, Händel

Oiçam agora o Messias, de Handel, na versão de Gardiner, com coro feminino, seguindo o libreto:

  • The voice of him that crieth in the wilderness; prepare ye the way of the Lord; make straight in the desert a highway for our God. Isaías 40: 1-3
  • And the glory of the Lord shall be revealed, and all flesh shall see it together: for the mouth of the Lord hath spoken it. Isaías 40:5
  • But who may abide the day of His coming, and who shall stand when He appeareth? For He is like a refiner's fire. Malaquias 3:2

 

   

Estes versos do libreto são transcrições da Bíblia ( tradução inglesa, versão King James) e as palavras sublinhadas mantêm a grafia antiga, como: crieth (cries), hath (has) e appeareth (appears).

O fonema th em fim de palavra não soa como o s da ortografia atual, e é de difícil pronunciação para um estrangeiro (pronuncia-se deixando escapar o ar com a língua entre os dentes). Mas não para os cantores e o coro que, sendo ingleses, o pronunciam na perfeição, claro.

Mas nem todos os amplificadores nos dão a medida dessa perfeição, sobretudo no meio de uma massa orquestral e um coro a cantar a plenos pulmões. Alguns confundem o th e o s

O EVO300 H funciona assim como um ‘aparelho fonador’ perfeito.

Escola de línguas

O mesmo se passa com a fonação das vogais com trema (Umlaut) na língua alemã cantada: sobretudo, ö e ü cuja pronúncia correta (com os lábios apertados em bico) distingue imediatamente um falante (cantante) nativo e um estrangeiro, sobretudo os latinos.

Oiça-se o tenor alemão Jonas Kaufmann, Ato I, Cena 3, da Valquíria, de Wagner, com a Berlin State Opera Orchestra, que abre assim:

  • Ein Schwert verhiess mir der Vater / Ich fänd es in höchster Not
  • Pai prometeu-me uma espada/ Quando eu mais precisava dela

Reparem como ele pronuncia o o em höchster, ouvindo com diferentes equipamentos. Agora vá ouvir com o EVO300H.

Ou JoJo, por Jacques Brel, para aprender como se pronuncia o ‘r’ enrolado valão (aliás, todas as consoantes, vogais e ditongos, todas as sílabas são sublinhadas a negro por Brel com um ligeiríssimo sotaque belga) em:

  • Que Saint-Cast doit dormir tout au fond du brouillard / Six pieds sous terre, Jojo tu chantes encore  / Six pieds sous terre, tu n’ ést pas mort

Tal como Jojo, Brel está morto. E, contudo: six pieds sous terre, il chante encore, il n’est pas mort.

Brel afinal estava vivo, como Elvis, ali mesmo à minha frente: a projeção e presença das vozes é um dos muitos sortilégios do EVO300H.

…a presença das vozes é um dos muitos sortilégios do EVO300H…

Estado da crítica áudio

PrimaLUna EVO300 H_o interior do EVO 300H ilumina-se de vermelho para compensar a falta da luminosidade das válvulas do andar de potência, aqui substituídas por MOSFET.

PrimaLUna EVO300 H_o interior do EVO 300H ilumina-se de vermelho para compensar a falta da luminosidade das válvulas do andar de potência, aqui substituídas por MOSFET.

Esta minha abordagem fonética do som de um amplificador é nova, e única, admito que demasiado entrópica, mas prova que a análise da performance não se esgota nas medidas obtidas por um computador, que sabe tudo sobre sinais elétricos mas não sabe nada sobre música para uso humano.

Nota: ler o editorial ‘Estado da crítica áudio.’

Um amplificador que nos permite distinguir entre articulações de fonemas, permite-nos também distinguir timbres, tons, cores, harmonias, tempos e ritmos.

Que tudo isto nos seja apresentado como um todo orgânico e lógico soa a milagre, especialmente quando se utilizam duas tecnologias diferentes de amplificação.

O EVO300 H não é uma PrimaLuna é antes uma PienaLuna.

It sounds more like a piena luna (full moon) than a prima luna.

 

Vá ouvi-lo na Imacustica, com um par de colunas da sua eleição, se possível com os excertos musicais aqui apresentados. Na pior das hipóteses, passa algum tempo de qualidade e, no final, pode sempre contrariar a minha opinião.

Em baixo: vídeo histórico onde nos primeiros 10s se pode ver Herman Van Dungen, em animada conversa com Ricardo Franassovici, Manuel Dias e Conceição Ferreira (Veneza, Julho 2010).

PrimaLuna EVO300H Moon Capa

PrimaLUna EVO300 H_o design inconfundível dos PrimaLuna, mas agora com andar de potência a MOSFET.

PrimaLUna EVO300 H_Fotos interior (cortesia PrimaLuna): do lado esq a secção de prévio; do lado dir. o andar de potência. Ambos dual-mono.

PrimaLUna EVO300 H_painel traseiro: observem no andar de Phono opcional (e adicional), montado por baixo do chassis. (foto cortesia PrimaLuna)

PrimaLUna EVO300 H_do lado direito pode encontrar o comutador para a saída de auscultadores. O andar de potência não desliga com a simples inserção do jack dos auscultadores.

PrimaLUna EVO300 H_do lado esquerdo encontra o comutador On/Off

PrimaLUna EVO300 H_o interior do EVO 300H ilumina-se de vermelho para compensar a falta da luminosidade das válvulas do andar de potência, aqui substituídas por MOSFET.

Prima Luna Prologue One / DN 2004

O sol quando nasce... (versão portuguesa e inglesa)


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