Reviews Testes

Constellation Integrated 1.0: arte moderna, som clássico

Ferrum OOR 30V.jpg

O amplificador integrado Series 1.0 da Constellation Audio foi lançado no mercado em 2018, portanto não é propriamente uma novidade. Mas é uma estreia para mim.

Numa das minhas visitas à Imacustica LX, os meus olhos pousaram nele, e logo senti aquele desejo de voltar a ouvir o som Constellation, agora a partir de um modelo ‘acessível’, se é que se pode considerar acessível um amplificador de 'entrada de linha' por 20 mil euros.

Mesmo assim é o modelo mais barato da Constellation Audio.

Se aplicarmos aqui a Lei da Relatividade, não a de Einstein, mas a do mercado, mesmo assim poupa 10 mil euros em relação ao conjunto Preamp/Stereo 1.0, que eu testei para a revista Hi-Fi News July 2015.

O Integrated 1.0 utiliza basicamente a mesma secção de preamplificação do Preamp 1.0 e ‘metade’ dos módulos de amplificação do Stereo 1.0, o que lhe dá uma potência declarada de 100W/8Ohm e 200/4Ohm.

Design discreto

Constellation Audio Integrated 1.0 - beleza discreta de insustentável leveza.

Constellation Audio Integrated 1.0 - beleza discreta de insustentável leveza.

O design da autoria de Alex Rasmussen é de uma beleza discreta e sem pontos negros no rosto de alumínio acetinado.

Ao centro, um painel simétrico protuberante exibe um mostrador touch screen e dois botões rotativos: Balance e Volume. That’s it!

Os restantes botões estão escondidos debaixo do mostrador. A funções principais estão acessíveis via controlo remoto, também ele de uma elegância discreta.

Até a saída para auscultadores foi relegada para as traseiras junto com as entradas  (2x) RCA e (2x) XLR, saída (1x) XLR e os bornes de excelente qualidade mas que não aceitam bananas e cabos nus, apenas forquilhas.

Os ventiladores de chapa perfurada, tipo colmeia, que escondem os dissipadores no interior, conferem leveza e beleza ao conjunto. O Integrated 1.0 funciona em Classe A/B e não aquece muito, fica apenas morno. Mas convém dar-lhe meia-hora de avanço antes de qualquer julgamento prévio

O botão de volume regula um potenciómetro de 180 pequenos passos de 0,5dB, que atua sobre as resistências por via ótica, logo é muito suave mas também pode dar uma sensação de lentidão na resposta, quando se pretende carregar bruscamente no acelerador.

Lá dentro, construção dual-mono balanceada, que podia estar mais bem arrumada, com um único transformador toroidal.

Nota: O Integrated 1.0 é sensível à polaridade da corrente de setor. Faça experiências. Com a polaridade errada, não parece soar tão bem e o transformador às vezes dá-lhe para ‘ronronar’ baixinho no silêncio da noite. Neste caso, vire a ficha na tomada.

O PSG do áudio mundial

Constellation Audio Integrated 1.0: o lifestyle chegou ao highend.

Constellation Audio Integrated 1.0: o lifestyle chegou ao highend.

A Constellation Audio é o resultado do esforço de dois investidores australianos, Murali Murugasu e David Payes, que resolveram fazer no mundo do áudio o que os investidores árabes fazem no mundo do futebol (o PSG, por exemplo): reunir na mesma equipa alguns dos melhores futebolistas da atualidade a qualquer preço.

Foram buscar Peter Madnick (da Audio Alchemy), Bascombe King (PS Audio), John Curl (montei um amplificador a Mosfet projetado por Curl nos anos oitenta) e John Bongiorno.

Cerca de um ano e meio depois nasceu o duo Altair/Hercules por um preço só ao alcance de Messi e Ronaldo (acho que ele tem um sistema AV da Pioneer): dá Deus nozes…

A gama Inspiration treinou na cantera da Constellation mas joga na liga B. Mesmo assim paga-se bem…

Case Study

O que torna a Constellation um ‘case-study’ é o facto de os módulos de amplificação serem os mesmos em todas as gamas: Inspiration, Revelation, Performance e Reference, variando apenas o número de módulos montados em configuração patenteada Balanced Bridge (e a capacidade da fonte de alimentação, claro), em função da potência desejada.

Os módulos utilizam exclusivamente MOSFET do tipo N, excluindo a habitual complementaridade N/P, para garantir uma melhor transição entre ciclos sem ter de recorrer à Classe A mas funcionando como um quasi-single ended.

House sound

Logo, quando compra um Constellation, que pode custar dezenas ou mesmo centenas de milhares de euros, o consumidor tem a garantia de que compra o ‘som Constellation’.

Assim, se já ouviu o conjunto Altair II /Hercules II, cujo preço dá para comprar um T2 na baixa de Lisboa, e gostou, o Integrated 1.0 não o vai desiludir, porque mantém as principais características daquilo que designei por ‘house sound’, no teste do Inspiration Preamp/Stereo 1.0, de que eu passo a transcrever um excerto do original para incentivar à leitura integral aqui:

Crítica internacional

Constellation Integrated 1.0 é o modelo mais feminino da família Constellation: elegante, delicada, sensível (e sensual).

Constellation Integrated 1.0 é o modelo mais feminino da família Constellation: elegante, delicada, sensível (e sensual).

‘Constellation has a ‘house’ sound, a character reminiscent of a fine single ended triode amplifier but without the hindrance of harmonic distortion and other colorations, not least lousy control of the associated loudspeakers and failure to reach realistic sound pressure levels.

All Constellation Audio amplifiers allow you to enjoy a degree of transparency which has until now, with a few honourable exceptions, eluded solid-state technology.

And yet, paradoxically, the sound is on the dark side of neutral. Not ‘dark’ in the sense of absence of light or lack of clarity, more like dark chocolate. It’s a sound you can almost taste.

With a clear recording you can hear all the way into the back of the stage without any impediment or obstruction.

With a clear recording you can hear all the way into the back of the stage without any impediment or obstruction. This see-through magic also applies with small scale recordings that otherwise might sound claustrophobic.’ JVH in HiFi News July 2015.

À transparência e amplitude da imagem estereofónica, junta-se o ritmo, que é contagiante, e ao qual me referi nestes termos, numa ‘second opinion’, que me foi solicitada amavelmente por Martin Colloms, no seu teste ao conjunto Preamp/Monos Inspiration 1.0, publicada na revista HiFi Critic Oct/Dec 2015, e que podem ler também na integra aqui.

À transparência e amplitude da imagem estereofónica, junta-se o ritmo, que é contagiante…

Permitam-me transcrever um excerto da minha ‘segunda opinião’:

‘The Inspiration Series Pre/Power 1.0 also trades in some of the Virgo II/Centaur II combination soundstage amplitude and resolution for a more articulate and authoritative bass, but I was amazed to find out they both share the same perfect instrument time and space relationships, the uncanny presence of voices, that may sound suave or dynamic, happy or poignant and filled with pathos and emotion.

…It incorporates the endearing greatness of harmonic soul, with magnificently transparent atmosphere and splendid ambient acoustics…

This amplification incorporates the endearing greatness of harmonic soul, with magnificently transparent atmosphere and splendid ambient acoustics.

The clear audibility of ambience clues free the brain to concentrate on the music, all with a taste of vacuum tube technology musicality but here allied to the power and dynamics of solid state, in an exhilarating and rare combination of acoustic elements that conforms to my strict conception of highend.

…for me it is undeniable ‘it has got that swing’. Not just the dynamic swing it has in spades, but that ‘something else that makes a tune complete’.

As Louis Armstrong used to sing:

What good is melody, what good is music

Just give that rhythm everything you got

Yes, it don’t mean a thing, if it ain’t got that swing

Significa isto que quem ouve um Constellation já ouviu todos? Não necessariamente: a escala dinâmica é diferente. Mas anda lá perto na tonalidade e na reprodução dos timbres. É uma questão de quantidade mais do que de qualidade.

Eterno feminino

Constellation Audio Integrated 1.0: o requinte dos frisos em baixo relevo com o desenho do logotipo

Constellation Audio Integrated 1.0: o requinte dos frisos em baixo relevo com o desenho do logotipo

O Integrated 1.0 é o modelo mais feminino da família Constellation. Não no sentido de sexo fraco, bem pelo contrário, porque também sabe ‘bater’, 'gritar' e 'puxar os cabelos' quando é preciso. Antes pela forma elegante, delicada, sensível (e sensual) com que aborda os múltiplos elementos que compõem a música. Tudo o que escrevi sobre os modelos pre/power se aplica aqui também.

…notável destrinça tímbrica, presença sem excessiva imposição das vozes, impecável recorte dos instrumentos na tela sem grão do palco sonoro...

Refiro-me à notável destrinça tímbrica, à presença sem excessiva imposição das vozes, ao impecável recorte dos instrumentos na tela sem grão do palco sonoro.

E, sobretudo, à sua capacidade para atrair o ouvinte e de o prender num abraço de musicalidade, em ambiente de envolvente transparência.

E, depois, o ritmo, o swing que dá sentido à vida, e sem o qual nada na música tem significado, segundo Louis Armstrong.

Coisas de homens

O hifi é um hobby muito masculino. As mulheres gostam de ouvir música mas não perdem tempo com pormenores técnicos. Entram e saem da sala, podem comentar mas raramente ficam.

Pois por mais de uma vez o Integrated 1.0 levou a minha esposa a ‘ficar’, gabando a naturalidade da voz de António Zambujo, no Pica do Sete, do álbum Rua da Emenda; a inacreditável quantidade de micro informação contida nas bolhas de saliva, que rebentam no microfone, tocado pelos lábios de Diana Krall, no registo close-up de Sway, do álbum Turn Up The Quiet, por exemplo; ou o incrível realismo e presença do saxofone de Lester Young, tocando Ad lib Blues (em mono!), com Oscar Petersen ao piano.

Isto com umas modestas Sonus faber Concertino, a quem o Integrated 1.0 deu nova alma. Mas foi quando o liguei a um par de Magico A1 que a festa começou: mais informação, mais grave, mais swing, mais vida…

Discos pedidos

Constellation Audio Integrated 1.0: mostrador touchscreen com botões escondidos por baixo.

Constellation Audio Integrated 1.0: mostrador touchscreen com botões escondidos por baixo.

A família estava reunida: netos incluídos, que exigiram uma sessão de ‘discos pedidos’ via Tidal.

E o Integrated 1.0 tocou assim música que nunca me passaria pela cabeça escolher, fosse eu aos comandos da nave: rap lusoafricano, brasileiradas, pop portuguesa brejeira.

Tudo a dançar, num autêntico arraial, não muito diferente dos abrilhantados até às tantas pelo gosto popularucho dos meus vizinhos brasileiros, apenas com melhor som.

É esta capacidade para ‘mexer’ com as pessoas, incluindo crianças, e de as ‘pôr a mexer’ que distingue o Constellation Integrated 1.0: dá vida à vida.

Pessoas, sobretudo as crianças, que não têm consciência do valor dos equipamentos e, portanto, não estão a ser influenciadas por nada, a não ser pelo prazer que a música lhes dá.

Este ‘mexer com as pessoas’ passou a ser mais emocional que físico, quando eu regressei solitário aos clássicos, ao jazz e ao cancioneiro americano.

Não tanto quando me atrevi a navegar ‘a weird musical list’ que, entusiasmado pela sessão de discos pedidos, o meu filho Pedro me enviou para provar que o abraço musical do Integrated 1.0 é amplo e inclusivo e o highend não é só para velhos:

  1. Deadmau5, Strobe
  2. Hiatus Kaiyote, Nakamarra
  3. Lemon Jelly, The Curse of Ka’Zar
  4. George Ezra, Budapest
  5. Kendrick Lamar, Alright
  6. The Cinematic Orchestra, All That You Give
  7. Lion Babe, Rockets
  8. Lane 8, Little Voices
  9. Song 32, Noname
  10. Fort Romeau, Some of Us Want for nothing

Um sistema que toca tudo isto (Hiatus Kaiyote, George Ezra e Song 32 até são listenable) está preparado para o que der e vier.

E ainda duas concessões do Pedro mais ao gosto do pai:

  1. Lou Reed, Berlin
  2. Jean-Guihen Queiras, Bach, Suite for Celo no.4 in E flat major

Prepare a sua própria lista e vá ouvir o Constellation Integrated 1.0, com um par de colunas à escolha, na Imacustica Lisboa ou Porto. E já que lá está, peça para ouvir o Hercules ou o Centaur também. Não paga nada por isso…

 

Produto: Amplificador integrado

Constellation Audio Integrated 1.0

Preço: 19.900 euros

Distribuidor: IMACUSTICA

Ferrum OOR 30V

Constellation Audio Integrated 1.0 - beleza discreta de insustentável leveza.

Constellation Audio Integrated 1.0: o lifestyle chegou ao highend.

Constellation Integrated 1.0 é o modelo mais feminino da família Constellation: elegante, delicada, sensível (e sensual).

Constellation Audio Integrated 1.0: o requinte dos frisos em baixo relevo com o desenho do logotipo

Constellation Audio Integrated 1.0: mostrador touchscreen com botões escondidos por baixo.


AbsoluteSounds950x438
Publicidade