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HiFi Rose RA180 – o importante é a rosa

Rose RA-180 - capa.jpg

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JVH passou algum tempo com o amplificador integrado HiFi Rose RA-180 e estabeleceu uma nova relação espiritual com a música em conflito com a sua sensibilidade estética.

L’important c’est la rose é uma famosa canção de Gilbert Bécaud, também cantada por Amália Rodrigues. A rosa é um dos símbolos da fraternidade Rosa-Cruz de que Bécaud era fiel seguidor:

Dis à ton tour maintenant
Que la vie n'a d'importance
Que par une fleur qui danse
Sur le temps…

Para a fraternidade Rosa-Cruz, uma seita religiosa medieval com raízes no Antigo Egipto, o importante é a rosa (alma), não a cruz (o corpo), porque é efémera e passageira, como são todos os aspetos materiais (e técnicos) da vida.

Sean Kim, da Hifi Rose, até podia ser um devoto ou simpatizante, porque o RA-180 tem uma alma musical perene num corpo de design efémero.

Os Rosa-Cruz buscam a redenção do homem (do objeto, neste caso) pela união perfeita dos seus aspetos inferiores de natureza temporal com a sua alta natureza eterna.

Portanto, não se deixe nem seduzir, nem desiludir pelo design do RA-180 – o importante é a rosa – o som. E eu estou rendido a esta doçura, quente e envolvente (ninguém diria que é de Classe D), mas também rápida e dinâmica – explosiva, mesmo.

‘Fator-surpresa’

O ‘fator-surpresa’ deste amplificador é assombroso, com transientes rápidos, que parecem surgir do vazio, quando menos esperamos. Sobretudo na música clássica, pois não está só patente nos transitórios de percussão e na ‘batida’ da música moderna: os coros soam inusitadamente dinâmicos, humanos nos tons e nos timbres, e não apenas na sua composição.

Estou agora mesmo a ouvir o Messias, na versão de Gardiner, com vozes de mulher no coro, no lugar de crianças, e nunca ouvi os versos do libreto cantados com tanto entusiasmo e estamina, com as sílabas tónicas tão bem marcadas:

He shall reign for ever and ever

King of Kings, and Lord of Lords

 

E quanto ao Amén final, no fim quem disse amén fui eu! Até me benzi…

Mecanismo nu de controlo de volume do Rose RA-180

Mecanismo nu de controlo de volume do Rose RA-180

Choque frontal

O som é tão agradável que choca de frente com a realidade visual das rodas dentadas expostas; e os 17 botões (!) de nove formatos diferentes para cada função, que o RA-180 exibe no painel de comandos. E isto sem falar nos 16 bornes de ligação de colunas atrás! Mas já lá vamos.

Puro gozo

Só o puro gozo de ver (e ouvir também, sobretudo quando se utiliza o controlo remoto ou a App) o mecanismo de controlo de volume a funcionar vale uma visita à Ajasom. Deu-me logo vontade de ir ouvir ‘Time’, dos Pink Floyd:

Ticking away the

moments that make up

a dull day…

O botão rotativo faz girar uma roda dentada maior que, por sua vez, engata em duas menores (canal direito e esquerdo), enquanto faz mover horizontalmente uma agulha vermelha numa janela retangular retro iluminada. Só falta ver sair o vapor…

Nota: a App funciona apenas como controlo remoto eletrónico. Não gere funções de streaming, que não existem.

À esquerda, uma instalação artística no melhor estilo Steampunk. À dir. o Rose RA-180

À esquerda, uma instalação artística no melhor estilo Steampunk. À dir. o Rose RA-180

De Steampunk a Mad Max

A relação com o movimento artístico Steampunk dos anos 80/90 salta aos olhos. Esta é uma evidência que vai ser inevitavelmente referida em toda a imprensa que se debruçar sobre o RA-180.

Mas há aqui também qualquer coisa de ‘Mad Max’, no anacronismo e excentricidade retro futurista do design, que é uma clara provocação visual e artística.

O RA-180 oferece-nos uma viagem ao interior da máquina, à semelhança dos mecanismos nus da relojoaria suiça de alta precisão, uma espécie de Welcome to the Machine, dos Pink Floyd:

Welcome my son
Welcome to the machine
Where have you been?
It's alright we know where you've been

A óbvia piscadela de olho à Nagra também não é inocente: tanto na forma de vuímetros redondos de luz quente, como no formato dos comutadores de seleção de fontes e de saídas para grupo de colunas A e B.

Pode-se gostar ou não, mas ninguém fica indiferente a esta abordagem radical à revelia de tudo o que a HiFi Rose tem apresentado até hoje; e de tudo o que conheço, no universo dos amplificadores integrados.

Em entrevista à Hifi News, Sean Tim descreveu o painel frontal como um diagrama esquemático, que se desenvolve da esquerda (controlo de entradas) para a direita (controlo de saídas) no contexto de um design retro e luminoso.

A construção em alumínio sólido tem uma qualidade de acabamentos que suscita em nós o desejo de tocar – e agora refiro-me ao desejo tátil e não auditivo – pois é macio como uma pétala de rosa. Sinta-o com os dedos.

Tal como Simone, em ‘Paixão’, um hino ao erotismo:

‘Vou ficar até o fim do dia,

Decorando tua geografia’.

 

Prémio EISA?

O RA-180 foi recentemente apresentado no HighEnd 2022. O Hificlube ia ter o orgulho de ser o primeiro a testá-lo. E só não foi assim, porque a Hi-Fi News se adiantou.

Esta ‘pressa’ inusitada da Hi-Fi News só pode significar que o RA-180 vai ser galardoado pela EISA em agosto, talvez com um prémio de Inovação Tecnológica e Design.

Amplificador analógico de Classe D

Achei muito curioso o facto de a Hifi Rose ter escolhido amplificação de Classe D (PWM) para o seu primeiro amplificador integralmente analógico. Não há aqui DAC ou andar de streaming envolvidos.

Mas há um sofisticado andar de Phono com múltiplas soluções de igualização; controlos de tonalidade centrados nos 100Hz e nos 10kHz, equilíbrio entre canais e a possibilidade de utilizar um filtro de passa-altas no modo de bi-amplificação, como se fosse um filtro divisor eletrónico!

RA-180 - o painel traseiro tem 16 bones de ligação de colunas!

RA-180 - o painel traseiro tem 16 bones de ligação de colunas!

Quatro amplificadores independentes

A inovação no RA-180 não é só ao nível do design. O sistema de amplificação é composto por quatro módulos de amplificação de Classe D baseados em transístores GaN (nítrido de gálio), cuja velocidade de comutação é muito superior ao dos correspondentes em silício, o que melhora a linearidade.

A Hifi Rose chama-lhe Class A/D, mas não deve ser confundida com a tecnologia da Devialet.

Notas:

- a distorção harmónica é infinitesimalmente baixa; mas o ruído não, porque, sendo de Classe D, é suscetível a interferências rádio (RF) e eletromagnéticas (EMI)

- a filtragem de saída faz-se por meio de bobinas que podem afetar a resposta em função da impedância das colunas associadas.

- ao contrário de outros amplificadores de Classe D, o RA-180 funciona a quente (morno)

Mas não se preocupe: só vai ouvir música- quente e boa.

Leia bem o manual para perceber como ligar o RA-180 em modo stereo a um par de colunas A ou B (mas não os dois pares aos mesmo tempo); em ponte (2x400W), em modo de bi-amplificação (4x200W) simples ou em modo de bi-amplificação com filtro divisor e igualização (apenas das altas frequências dos 600 aos 6kHz).

Já percebeu agora para que servem os 16 bornes do RA-180? Não é para utilizar em aplicações AV, é porque tem muitas configurações possíveis para ligar as colunas.

...a ‘legibilidade’ tímbrica e tonal dos instrumentos: dos metais aos sopros; das madeiras às percussões, foi patente em todos os discos que ouvi...

Crossover interno

Agora pergunta o leitor atento. Mas afinal qual o é interesse de um dos módulos de cada canal poder fornecer ao tweeter de uma coluna de 2-vias, por exemplo, apenas frequências acima de uma determinada gama, se depois o sinal vai ter de passar pelo filtro de passa-altas da coluna?

Segundo a HiFi Rose, o amplificador tem ainda melhor desempenho se a banda for limitada. E o mesmo se pode dizer do tweeter que deixa de receber frequências que não reproduz, mas afetam a sua performance também.

Logo só tem de selecionar uma frequência de corte igual (normalmente 2,5kHz) ou, de preferência, inferior ao do filtro de passa-altas da coluna, porque é preciso ter em conta também a pendente do filtro.

E tem ainda a vantagem de poder regular o volume de forma independente. Por exemplo, se tiver um super tweeter externo, basta ajustar para a frequência mais alta (6kHz) e regular depois o volume da saída a gosto.

Rose RA-180 não deixa ninguém indiferente

Rose RA-180 não deixa ninguém indiferente

A lógica do caos

À vista, o painel frontal parece ser caótico e mal-arrumado.

De facto, é composto por quatro botões independentes (todos diferentes no formato): seletor de fontes, controlo de volume, bypass ao andar de prévio, seletor de saída A, B ou Off;

seis basculantes iguais (toggle switches);

e quatro sub-painéis para funções específicas com um conjunto de botões distinto: controlo de tonalidade, equilíbrio entre canais, H/F Crossover e Phono (igualização RIIA).

A igualização Phono parece também muito complicada, mas basta seguir a tabela RIIA ou a adequada a cada editora: Decca, Teldec, Columbia, etc.

Como sabem, eu não tenho gira-discos (perdi a paciência já há muitos anos, embora admita que soa melhor em certas circunstâncias), e utilizei como fontes o meu leitor-CD Oppo e streaming via Roon a partir de um DAC Chord Mojo 2 (com cabo jack/2xRCA) para assim poder experimentar o bypass ao andar de prévio.

O RA-180 atacou e fez o que quis de um par de Sf Concertino originais, na configuração normal e bi-amplificada com ‘crossover’ ativo.

Sinceramente, não ouvi vantagem nesta última opção. Admito que o agudo soa mais puro e que o palco sonoro parece expandir-se, mas perde-se algum entrosamento natural. Talvez lá chegasse com um pouco mais de tempo na afinação.

RA-180 - da esq. para a dir.: seletor de fontes estilo Nagra; controlo de tonalidades, H/F Crossover; equilíbrio entre canais; igualização phono

RA-180 - da esq. para a dir.: seletor de fontes estilo Nagra; controlo de tonalidades, H/F Crossover; equilíbrio entre canais; igualização phono

Confesso que optei por vezes pela via mais fácil ao utilizar os controlos de tonalidade com bons resultados, puxando um pouco o grave e ‘limando’ as arestas do agudo de alguns discos, como os dos Supertramp, que foram gravados para soar bem no FM americano, talvez com exceção de Famous Last Words. Tudo depende das suas colunas, do género musical e do seu gosto pessoal.

Poço de força

O RA-180 é um poço de força. O som não tem a mesma transparência dos Mola Mola, que utilizam módulos NCore – mas é mais homogéneo e coeso. E o ataque e velocidade de resposta estão ao mesmo nível, ou superior.

E consegue ser doce (as cordas soam deliciosas) sem perder a claridade das vozes, tanto masculinas como femininas e infantis (os coros soam divinos).

A ‘legibilidade’ tímbrica e tonal dos instrumentos: dos metais aos sopros; das madeiras às percussões, foi patente em todos os discos que ouvi.

E aguentou os excessos dos instrumentos eletrónicos e dos tambores sem um queixume. Claro que todas as colunas têm uma velocidade de cruzeiro ideal. Se subir demasiado o volume, o som pode ‘deslaçar’ um pouco com colunas de pequeno porte. Experimente com as suas colunas.

O RA-180 pode ouvir-se durante horas. Sobretudo pianos, cujas qualidades tímbricas e dinâmicas não cessam de me maravilhar.

Quem vê caras…

Quem vê caras, não vê corações e o RA-180 tem a alma da rosa que dá perfume à música e felicidade às suas audições.

Vá ouvi-lo à Ajasom e compare-o com outras tecnologias de amplificação: das válvulas ao estado-sólido de Classe A, A/B e D, na mesma gama de preço. Vai ficar tão surpreendido como eu com esta primeira proposta de amplificação da HiFi Rose, que lhe vai custar 6 999 euros e enfrenta forte concorrência mesmo dentro do catálogo da Ajasom.

Rose RA 180 capa

Mecanismo nu de controlo de volume do Rose RA-180

À esquerda, uma instalação artística no melhor estilo Steampunk. À dir. o Rose RA-180

RA-180 - o painel traseiro tem 16 bones de ligação de colunas!

Rose RA-180 não deixa ninguém indiferente

RA-180 - da esq. para a dir.: seletor de fontes estilo Nagra; controlo de tonalidades, H/F Crossover; equilíbrio entre canais; igualização phono


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