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WATT - Wilson Audio TuneTot - teste de JVH

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A TuneTot é a melhor coluna por centímetro cúbico da Wilson Audio. Soa melhor que a Duette e tem a musicalidade da Sabrina e a claridade da Alexia. It runs in the family…

Sabrina? Alexia? Então e o grave? pergunta o leitor. Pois. Isso, estou certo, virá depois, com a introdução do módulo ‘Puppy’, ainda nem sequer anunciado, mas porventura já equacionado por Daryl Wilson, que quer seguir as pisadas do pai: a WATT (e não é por acaso que o acrónimo é o mesmo) também começou a solo até a Puppy nascer, criando um par que se tornou no mais vendido e de maior longevidade da marca com oito versões.

O saudoso Dave Wilson com Sheryl Wilson , apresentando o filho Daryl à sociedade audiófila, em Nova Iorque, em 2002, quando do lançamento das WATT/Puppies 7, numa foto histórica, obtida no Stereophile Show, no Hotel Hilton

O saudoso Dave Wilson com Sheryl Wilson , apresentando o filho Daryl à sociedade audiófila, em Nova Iorque, em 2002, quando do lançamento das WATT/Puppies 7, numa foto histórica, obtida no Stereophile Show, no Hotel Hilton

Sete, se considerarmos que não houve a Watt/Puppy 4, porque 4 é número de azar na China (soa como morte em mandarim), um mercado importante, tal como o 13 dá azar no ocidente, especialmente em Las Vegas, onde os hotéis já não têm 13º andar – e alguns como o MGM passaram também a não ter o 4º andar. Enfim…

‘Fedelha’ atrevida

Peter McGrath mostrando os primeiros exemplares de pré-produção das TuneTot, no Highend 2018, em Munique

Peter McGrath mostrando os primeiros exemplares de pré-produção das TuneTot, no Highend 2018, em Munique

Paradoxalmente, a apresentação mundial da TuneTot realizou-se no Highend 2018 de Munique, na Alemanha, onde ‘tot’ significa ‘morto’, ‘defunto’, um nome nada auspicioso, convenhamos, num mercado também importante. Mas deixemo-nos de superstições parvas, pois ‘tot’ em inglês significa ‘criança pequena’, ‘fedelho/a’, sem a conotação pejorativa que lhe atribuímos hoje.

…a TuneTot é uma ‘fedelha’ atrevida – rica e mimada – que vem pôr em causa o conceito de ‘desktop loudspeaker’…

E é isso mesmo: a TuneTot é uma ‘fedelha’ atrevida – rica e mimada – que vem pôr em causa o conceito de ‘desktop loudspeaker’, em todas as suas vertentes: da excepcional qualidade do som, mesmo em circunstâncias ‘ambientais’ adversas, tendo apenas o tampo de uma secretária como suporte e a parede de fundo a poucos centímetros de distância; ao preço chocante de 12 mil euros, que sobe para 15 mil com a base, e ainda faltam a grelha e os anéis decorativos, que custam por baixo mais mil e quinhentos euros

Nota: os acessórios não estavam incluídos no par que foi enviado para teste, apenas a caixa que contém os ‘spikes’, as ferramentas, o pano macio e as esponjas para tapar a saída do reflex – muito importantes, como veremos.

A caixa de 'ferramentas' da TuneTot. Em baixo as 'plugs' de esponja para introduzir na 'slot' do sistema reflex para sintonizar o grave.

A caixa de 'ferramentas' da TuneTot. Em baixo as 'plugs' de esponja para introduzir na 'slot' do sistema reflex para sintonizar o grave.

A construção é soberba: a caixa é trapezoidal, e as largas arestas boleadas dão-lhe um formato poliédrico, sem paredes paralelas para eliminar ressonâncias internas e baffle inclinado para obter o alinhamento temporal, com acabamento de pintura metalizada de automóvel: Quartz, Teak, Ivory, Carbon e Crimson. A cor do nosso par é um misto de cinza e prata, ou Quartz, segundo consta na embalagem; e notavelmente robusta: são construídas de material compósito sintético anti-vibração, muito resistente, denominado X e S-Material, tal como a colunas topo-de-gama da marca, e pesam 13 quilos cada.

As grelhas, concebidas para agradar às donas de casa, que detestam ver os altifalantes expostos, podem ser encomendadas em seis cores: dois tons de cinza (Salte e Parchment Grey), preto (Black), branco (Blanco), azul (Le Mans Blue) e castanho (Mocha).

As TuneTot (frente e traseira), em exposição estática, no Highend 2018, com as cinco cores disponíveis e os anéis decorativos.

As TuneTot (frente e traseira), em exposição estática, no Highend 2018, com as cinco cores disponíveis e os anéis decorativos.

Em vez da grelha, pode decorá-las a gosto com anéis de alumínio para esconder os parafusos de montagem do altifalante médio/grave em Cinza, Branco, Vermelho e Preto, provavelmente inspirados no famoso Vintage Gucci Bezel Watch, ou a TuneTot não fosse, ela própria, uma ‘boutique loudspeaker’ (ver foto em baixo).

Vintage Gucci Bezel Watch, com anéis decorativos.

Vintage Gucci Bezel Watch, com anéis decorativos.

No painel frontal (baffle), está montado um Convergent Synergy Tweeter de 25mm, com cúpula de tecido tratado, que substituiu com vantagem os Focal em metal de cúpula invertida e mais abrasivos; e um médio-grave de 145mm, ambos da Scan-Speak, e também utilizados na Sabrina (e na Alexx).

Não é por acaso que as TuneTot me lembram o som das Sabrina, apesar de serem muito mais pequenas e apenas de 2-vias. Sobre as Sabrina, escrevi:


Em termos relativos (de tamanho e preço) considero a Sabrina a melhor coluna de sempre criada pela escudaria Wilson. O som tem o equilíbrio tonal certo e o grave o peso ideal para o seu porte.’

Daryl Wilson did it again! Agora com a vantagem de um som de ‘near-field monitor’, ou seja, mais informativo, mais focado e com notável volumetria de palco a curta distância de audição, fruto da modificação da dispersão polar do tweeter, já a contar com essa proximidade.

No painel traseiro, além do indispensável par de bornes (as Wilson Audio não aceitam bi-cablagem, porque Dave Wilson sempre achou que degrada a integração geral), a ‘slot’ horizontal do sistema reflex, que também pode servir de pega; ou ser tapada para melhor sintonização do grave, como vimos. A placa em alumínio esconde as resistências de afinação do filtro divisor. Não (ou)vi qualquer razão para modificar a afinação de fábrica.

TuneTot: mais um produto de excelência da fábrica da Wilson Audio, no Utah USA

TuneTot: mais um produto de excelência da fábrica da Wilson Audio, no Utah USA

Mesmo assim, como é possível justificar um preço tão absurdamente elevado de um par de colunas de 2-vias, com as dimensões de: 377x219x259mm?!

Em vez de tentar responder, sujeitando-me à incompreensão, quando não mesmo ao desprezo do leitor, temo que nenhum argumento isolado possa dar uma justificação cabal, a não ser o da chancela Wilson Audio, o melhor é passar a descrever o cuidado posto na construção, a tecnologia utilizada e, finalmente, o desempenho, deixando ao leitor a tarefa de encontrar – ou não - a sua própria justificação naquilo que (d)escrevo. Porque cada um sabe de si.

…o perfume de áudio pode apresentar-se na forma de um frasco grande de água-de-colónia, ou num frasquinho de essência…

Permitam-me ajudar com uma analogia aromática.

O perfume de áudio pode apresentar-se na forma de um frasco grande de água-de-colónia, agradável mas volátil, cujo efeito desaparece rápido, ou num frasquinho de essência, de que uma simples gota é suficiente para perfumar prolongadamente o ambiente de aroma musical: o grave é seco, revigorante e fresco, sem notas de madeira; os médios conferem corpo à fragância sonora, com acentos de frutos vermelhos e especiarias; e no agudo destacam-se aromas florais com breves notas marinhas e ozónicas.

Mas falemos de coisas sérias.

Wilson Audio Tune Tot

TuneTot, montadas sobre suportes, num dos auditórios da Imacústica-Lisboa

TuneTot, montadas sobre suportes, num dos auditórios da Imacústica-Lisboa

A TuneTot respeita o ambiente, não no sentido ecológico do termo, porque só em parte é biodegradável, mas porque foi especialmente desenhada para se adaptar ao ‘ambiente’ doméstico, sendo este o modelo mais recente do que a Wilson designa genericamente por ‘Special Application products’, tal como a WATT original, que foi criada para aplicações de estúdio em ambulatório, a mal-amada CUB e, mais recentemente, a Duette, que não se importa de ‘ser encostada à parede’, logo poupa-nos espaço vital.

A TuneTot vai no mesmo sentido da Duette, pois não precisa de muito espaço atrás, à frente ou à volta para soar bem, e tem a vantagem de poder ser colocada em superfícies menos estáveis, como secretárias de trabalho, à guisa de colunas de luxo para PC, mantendo a integridade sonora mesmo no campo próximo.

O manual é muito detalhado sobre a melhor forma de as colocar, incluindo jogar com a altura dos spikes para as inclinar ou recostar, tendo a nossa ‘visão’ do tampo superior como referência do alinhamento temporal.

As TuneTot podem ser colocadas sobre suportes e afastadas entre si, como as colunas convencionais, tal como as ouvi no auditório da Imacústica, onde se portaram muito bem, soando ‘bigger-than-they-look’; mas fazem, de facto, a grande diferença como monitoras de proximidade - a aplicação para que foram afinal criadas - tanto na distância mínima possível entre elas como em relação ao ouvinte: 1 metro é quanto basta para obter uma imagem estereofónica verosímil, com excelente ilusão de profundidade, e um nível de detalhe impressionante, sem nunca exagerar no efeito de ‘sharpness’ e os concomitantes ‘halos’ sempre desagradáveis.

No meu caso, foi ‘atar e pôr ao fumeiro’, embora eu saiba que estas expressões idiomáticas deixam o tradutor da Google louco, talvez porque a altura da minha mesa de trabalho parece ter sido prevista para as TuneTot – e que bem que elas ficam – e tocam – ao lado do ecrã do computador…

Dos tons aos timbres, dos agudos aos graves, do conteúdo harmónico às dinâmicas, da claridade específica à transparência geral, da inteligibilidade das vozes (uau!, percebe-se tudo o que dizem e cantam…) ao recorte fino de todos os elementos sonoros, tudo soa como um corpo coeso e orgânico.

Painel traseiro da TuneTot, pormenor dos bornes e 'slot' reflex, que é também muito prática como pega de transporte.

Painel traseiro da TuneTot, pormenor dos bornes e 'slot' reflex, que é também muito prática como pega de transporte.

Até o grave soou bem logo à primeira: limpo, rápido, articulado e integrado, mesmo sem ter sido necessário utilizar as ISOBase, ou de colocar os ‘tapa-pórtico’ (plugs). Que já aconselho colocar quando se pretende puxar por elas: o grave fica mais ‘seco’ mas ganha em extensão e linearidade, ao transformar-se a TuneTot num sistema semi-fechado.

Nota: Em rodapé vou contar-vos uma história engraçada. Na Póvoa do Varzim, no âmbito do Festival de Música, já lá vão muitos anos, fui convidado pela Imacústica para apresentar um par de Wilson Audio Watt/Puppies, creio que alimentadas por monoblocos da Krell.

A sala era enorme, não tinha tratamento e a frequência de ressonância incidia na frequência de saída do pórtico reflex das colunas, tornando o grave pesado e pesaroso. Resolvi, então, fazer às Watt/Puppies o que a Wilson propõe agora que se faça às TuneTot: tapei as saídas dos pórticos com uns ‘chouriços’ de espuma, e domestiquei assim o grave com enorme sucesso e agrado geral.

Mas o Canizes gostava de carregar no pedal, e quando tocámos a famosa faixa da ‘Garage Door’ do disco teste nr.1 da Hi Fi News, puxou-se tanto pelo volume para impressionar a vasta plateia que  os ‘chouriços’ saíram disparados como balas de canhão…

O Devialet 220 Expert Pro tratou as TuneTot com luva branca, ou seja, de forma essencialmente neutra (e poderosa)

O Devialet 220 Expert Pro tratou as TuneTot com luva branca, ou seja, de forma essencialmente neutra (e poderosa)

Isso nunca aconteceu com as TuneTot, embora as tenha obrigado a ‘dar o litro’ (lá vai o tradutor da Google ‘ficar às aranhas’), alimentadas por um Devialet 220 Expert Pro, depois de ter utilizado um pequeno Naim Uniti Atom para provar que as TuneTot são fáceis de alimentar, apesar de, como todas as grandes monitoras, gostarem mais de uma mão forte para as apoiar.

…as TuneTot tocam melhor – e de uma forma mais neutra e requintada – do que as WATT originais alguma vez tocaram…

O aprendiz de feiticeiro superou o mestre. Claro que lhes falta o grave profundo (o problema será resolvido com a nova versão das Puppy, aposto) mas o que tem para oferecer é de boa qualidade e bem entrosado. São tão coesas que parecem controladas por DSP, como as modernas monitoras activas (a vantagem das 2-vias num corpo pequeno).

…se fechar os olhos, vai ficar surpreendido com a envergadura da imagem e do consequente palco sonoro…

Outro aspecto notável é o facto de ‘desaparecerem’, mesmo estando nós quase em cima delas e, last but not least, a forma como reproduzem a ambiência, algo que nunca pensei que uma coluna ‘desktop’ alguma vez me pudesse dar.

…a TuneTot é uma verdadeira Wilson em miniatura, e só não é ‘de bolso’ porque são precisos ‘bolsos fundos’ para a comprar…

Será que tudo isto, que é muito, justifica pagar 12/15 mil euros por um par de TuneTot? Continuo sem resposta*. Terá de ser o leitor a procurá-la, indo ouvi-las à Imacústica, em Lisboa ou no Porto.

Se tem ‘bolsos fundos’ e anda à procura de umas colunas ‘de secretária’ highend , a TuneTot vai surpreendê-lo tanto – ou mais – como me surpreendeu a mim, que pensava que já nada me podia surpreender…

*Nota final: se a minha ‘profecia’ do lançamento no Highend 2019/2020 de uma versão moderna das WATuneTot/Puppies se concretizar, a um preço, digamos, de 25 mil euros para os módulos de graves, isso significa que quem comprar agora as TuneTot pode fazer o ‘update’ e ficar com um par de Wilson de banda larga por 40 mil euros, justificando-se assim a posteriori o preço elevado de entrada, com a vantagem de continuar a utilizar as TuneTot como ‘desk loudspeaker’ ou coluna de sala, bastando para isso montá-las em cima das Puppies. A ‘slot’ que funciona como pega não está lá por acaso…

E termino com um apelo (em inglês) ao Daryl Wilson:

Hey, Daryl, we are all eagerly anticipating the launching at the Highend in Munich of the TuneTot/Puppies!

DL 46 4

O saudoso Dave Wilson com Sheryl Wilson , apresentando o filho Daryl à sociedade audiófila, em Nova Iorque, em 2002, quando do lançamento das WATT/Puppies 7, numa foto histórica, obtida no Stereophile Show, no Hotel Hilton

Peter McGrath mostrando os primeiros exemplares de pré-produção das TuneTot, no Highend 2018, em Munique

A caixa de 'ferramentas' da TuneTot. Em baixo as 'plugs' de esponja para introduzir na 'slot' do sistema reflex para sintonizar o grave.

As TuneTot (frente e traseira), em exposição estática, no Highend 2018, com as cinco cores disponíveis e os anéis decorativos.

Vintage Gucci Bezel Watch, com anéis decorativos.

TuneTot: mais um produto de excelência da fábrica da Wilson Audio, no Utah USA

TuneTot, montadas sobre suportes, num dos auditórios da Imacústica-Lisboa

Painel traseiro da TuneTot, pormenor dos bornes e 'slot' reflex, que é também muito prática como pega de transporte.

O Devialet 220 Expert Pro tratou as TuneTot com luva branca, ou seja, de forma essencialmente neutra (e poderosa)