2005

O Paraíso Existe: Wilson Audio Alexandria E Krell Evolution




Eduardo é um empresário de sucesso com gostos muito simples - só gosta do melhor, sobretudo se tiver um motor potente: aviões, carros, amplificadores e colunas de som. Recentemente, comprou os Krell Evolution (126 000 euros), a opera magna do fabuloso legado técnico de Dan D'Agostino. O novo conjunto prévio/amps da Krell foi apresentado na CES2005, e terão sido vendidos até agora apenas dois exemplares em Portugal. O mesmo se pode dizer das colunas Wilson Audio Alexandria (145 000 euros), consideradas por alguma crítica internacional como as melhores do mundo, ponto final, parágrafo. Ou seja, sob o mesmo tecto, numa casa portuguesa com certeza, coabitam dois dos mais conceituados produtos highend do mercado mundial. Ampla e luminosa, com a fachada decorada de tijolo vermelho e alcandorando-se no ponto mais alto de uma quinta onde frutificam 400 nogueiras, a casa foi desenhada de raiz por um arquitecto cujo projecto foi sujeito a mote: teria de ter obrigatoriamente uma sala de audição dedicada com as dimensões da golden ratio.


Diz o povo que dá Deus nozes a quem não tem dentes. Eduardo tem “dentes” mas não tem nozes, pois vende toda a produção antes mesmo de as árvores darem fruto. Além disso, tem “mãozinhas” para o volante: é piloto de competição nos tempos livres. E tem prazer em convidar os amigos para partilhar experiências acústicas e gastronómicas: o leitão de leite regado a tinto e champanhe, de pele estaladiça, com o qual a simpática esposa nos agraciou, estava al dente.


Afinal o paraíso audiófilo existe: fica no centro de Portugal. Mas foi preciso descer primeiro ao inferno para chegar ao Céu.



A DANAÇÃO DE FAUSTO

A sala de audição de Eduardo foi concebida de origem para albergar um par de colunas mais pequenas mas não menos ambiciosas: as Krell LAT1, que tinham (quase) tudo o que ele precisava para ser feliz. Faltava-lhes, contudo, “escala”. Ora esta é a principal virtude das Alexandria. Com discos minimalistas, a imagem acústica dos solistas pode por vezes soar-nos “maior-do-que-a-vida”. Contudo, quando a orquestra sinfónica de Chicago entra em palco, sob a batuta de Georg Solti, para interpretar “La Damnation de Faust”, de Hector Berlioz (Decca 414 680-2), o vultoso investimento começa a fazer sentido. As Alexandria aceitaram de bom grado o repto de reproduzir a versão musical desta tragédia romântica baseada na obra suprema de Goethe, apoiando-se no poder virtualmente inesgotável dos Krell Evolution.


Fausto, que para seduzir Marguerite tinha assinado com o próprio sangue um pacto com Mefistófeles, vendendo-lhe a alma em troca da juventude eterna, desce aos infernos enganado por este, numa cavalgada alucinante, entre terramotos e trovoadas, na vã convicção de que a vai salvar da condenação à morte, e acaba ele próprio por ser lançado ao grande lago das chamas eternas pelos demónios: Has! Has! Satan / Has! Has! Belphégor / Has! Has! Méphisto / Diff! Diff! Astaroth...; enquanto, à revelia do diabo que se distraiu, Marguerite (Gretchen, no original de Goethe) sobe ao Céu na companhia dos Anjos: Laus! Laus! Laus! Hossana! Hossana.
Esta é uma obra com forte carga emotiva, e a versão de Georg Solti é, de longe, aquela que mais bem expressa o terror e violência visceral do período romântico (a de Colin Davis/Philips é uma interpretação mais lírica que romântica). Acresce que a versão de Solti/Decca tem uma espectacularidade acústica única bem ao gosto audiófilo.


A Orquestra Sinfónica de Chicago apresentou-se em grande forma, em especial os naipes de metais, que rasgaram com garras poderosas a espessa trama sonora tecida pelos terríficos timbales, as vozes demoníacas, os sopros sibilinos e as cordas ensandecidas. Muitos sistemas de som domésticos com pergaminhos teriam de vender a alma ao diabo para conseguirem reproduzir este tour-de-force musical com níveis de pressão sonora idênticos. Atenção: a audição das Alexandria pode suscitar em alguns espíritos a tentação de fazer um pacto com o diabo só para as poder possuir. E se do pacto constar também a experiência total, o conhecimento absoluto, o amor infinito e a juventude eterna, tanto melhor...


Perante o drama pungente de um homem que se sacrifica (ainda que por engano, diga-se em abono da verdade) para salvar a jovem virgem inocente que corrompeu e traiu, quem teria depois o sangue frio necessário para criticar os graves, os médios e os agudos, ou para discutir se a imagem estereofónica estava assim ou assado? Nem era esse o meu papel, enquanto convidado; aliás, não ousei sequer balbuciar qualquer comentário alusivo às tendências imperialistas das Alexandria, que alegadamente exigem a ocupação de um território mais vasto para que os seus baixos instintos se possam manifestar de forma mais profunda, articulada e definida no palco sonoro.

Et pour cause, Eduardo já decidiu chamar de novo o arquitecto...
Assim, preferi guardar de Conrado o prudente silêncio, não “o silêncio do sono, da renúncia, mas do tempo da respiração, da reflexão”, para citar o filósofo francês Francis Wolff. A verdade é que tinha as palmas das mãos suadas e a garganta seca de emoção, depois daquela experiência acústica sublime, como se também eu tivesse mergulhado, por solidariedade com Fausto, no grande lago das chamas do inferno: Ô terreurs! Nada que não se resolvesse logo ali com uma taça de champanhe fresquinho.


À tua saúde Eduardo!...