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Wadax Atlantis Reference DAC – a Atlântida afinal existe

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A Ultimate Audio faz 10 anos em 2020, e vai comemorar a efeméride durante todo o ano com eventos onde apresenta novos (e antigos) produtos que reflectem a sua filosofia de reprodução de som: fidelidade, dinâmica, realidade e musicalidade. A apresentação do Wadax Atlantis Reference DAC (nova representação) foi o ponto alto de um dia de festa.

A UAE reuniu amigos e clientes, e a imprensa, que somos nós, à volta de música e comes-e-bebes, para mais uma apresentação dinâmica de novos modelos de marcas por si distribuídas, na presença de representantes estrangeiros: Wim Weijers (Kii Audio) e Javier Guadalajara (Wadax).

Kii Three + BXT

As Kii Three não são propriamente uma novidade. Os leitores já sabem o que penso sobre estas excelentes monitoras activas c/ DAC integrado e controlo por DSP, que testei para o Hificlube.net em Junho de 2018, sob o título: Kii Three – a conta que Deus fez.

Entretanto, a Kii Audio criou as caixas de sub-graves BXT, que aumentou o número de unidades activas para 16(!), tendo sido demonstradas com enorme sucesso no Audioshow 2019 e Highend Show 2019, de Munique.

A Kii Audio veio assim pôr, se não um ponto final, pelo menos ordem, num dos principais dilemas com os quais os audiófilos se defrontam: o casamento das colunas de som com a sala, e os consequentes problemas acústicos provocados pelos reflexos secundários das paredes laterais e o reforço/cancelamento de graves por efeito da proximidade da parede de fundo e do chão.

O processamento digital (DSP) permite controlar a fase, o ganho e a dispersão de todos e cada um dos altifalantes, criando um corpus musical coerente e uma resposta polar do tipo cardióide, em forma de coração, mais ampla para a frente e de direccionalidade (e nível de sinal) reduzida para os lados e para trás, com características de point-source no módulo superior e line-source no módulo de graves, que projecta o som na direcção do ouvinte, controlando o efeito deletério dos modos da sala e as consequentes ressonâncias das paredes e chão que roubam claridade, ataque e detalhe.

Kii Three + BXT: dois módulos (16 unidades activas com amplificadores NCore) DSP e DAC incluído.

Kii Three + BXT: dois módulos (16 unidades activas com amplificadores NCore) DSP e DAC incluído.

Streamer da Kii na forja

O preço do conjunto é relativamente elevado, cerca de 14 mil euros pelas Kii Three mais outro tanto pelos módulos BXT, dependendo do acabamento e cor. Mas se pensarmos que já inclui DAC e amplificação, e só precisa de uma fonte digital de qualidade...

Que até pode ser um Streamer, como o que a Kii Audio vai apresentar no Highend 2020, segundo me confidenciou Wim. Desta forma, a Kii Audio passa a oferecer um sistema de som completo com apenas dois componentes.

Paul McCartney e as Kii Three

Sobre o efeito que as Kii têm sobre as pessoas que gostam e sabem de música, Wim confidenciou-me também que Paul McCartney comprou um par de Kii Three para o seu estúdio de gravação privado, ele que tem acesso aos melhores monitores activos de estúdio. Talvez, porque, tal como eu, nunca ouviu nada tão coerente no campo próximo…

Wadax Atlantis Reference DAC+Transport+Streamer

A electrónica de apoio às Vimberg Tonda: Wadax DAC/Transport/Streamer, Accuphase C3850/ 2 x A250 mono. De notar que as fontes de alimentação dos canais esquerdo e direito do Atlantis Reference DAC podem ser colocadas na prateleira de baixo, reduzindo a envergadura do 'bicho'...

A electrónica de apoio às Vimberg Tonda: Wadax DAC/Transport/Streamer, Accuphase C3850/ 2 x A250 mono. De notar que as fontes de alimentação dos canais esquerdo e direito do Atlantis Reference DAC podem ser colocadas na prateleira de baixo, reduzindo a envergadura do 'bicho'...

Sinceramente, nem sei por onde começar. Já ouvi tantos sistemas de som de tão variada génese e índole, alguns tão extraordinários na sua prestação, quase todos tão extraordinários no preço, que me considerava imune a ser surpreendido por algo de novo, sobretudo no domínio digital, onde já tudo foi inventado, tentado e experimentado, sem que as diferenças abissais de preço correspondam muitas vezes a diferenças audíveis de qualidade. No fundo, bits são bits, não é? Olhem que não…

De Espanha, nem bom vento…

Isso talvez fosse no tempo de D.Pedro I, já que quanto ao vento, ele continua a ser o que é. Mas o DAC da Wadax é ‘audaz’ e ‘cortês’, como um cavaleiro medieval na sua armadura de metal, montado no fogoso corcel da mais recente tecnologia.

Qual D. Quixote, Javier Guadalajara, o CEO da Wadax, é um idealista dos tempos modernos, que luta contra os moinhos de vento do jitter, que provocam variações no tempo e destroem a preciosa e frágil relação do envelope harmónico e das respectivas fundamentais que estão na base do delicado ecossistema que é a música. 

Haverá sempre quem diga que só pode ser loucura esta obsessão pela perfeição, este esforço tecnológico e financeiro excessivo, para combater o que afinal só existe na nossa imaginação, que bits são bits, e há um limite para a sensibilidade do ouvido humano ao jitter, para lá do qual não vale a pena lutar contra os moinhos da nossa mente.

Contudo, quando se ouve o Wadax Atlantis Reference DAC, percebemos que o esforço valeu a pena. Ouvem-se todos e cada um dos sons que compõem a música na sua integralidade harmónica e temporal, e ainda a estrutura, corpo, densidade tonal, substância, essência, dinâmica, ataque, poder e informação que a tornam tão sublime.

Mas eis que, de Espanha também pode vir bom casamento – o dos bits com a música: o Wadax Atlantis Reference é o melhor DAC que já ouvi. É também o mais caro, além de ser o maior e o mais pesado.

Highend 2019, Munique: apresentação mundial dos Wadax Atlantis Reference. DAC/Streamer e Transport

Highend 2019, Munique: apresentação mundial dos Wadax Atlantis Reference. DAC/Streamer e Transport

E é também o mais complexo: num triplo chassis de metal, com fonte de alimentação separada para cada canal, estão montadas 23 placas de circuito individuais, 10 transformadores e 5500 componentes. Topologia dual-mono e simétrica (balanceada) integral (dual-differential), com tecnologia exclusiva Wadax IC, que utiliza um algoritmo de correcção de erros por realimentação positiva (feed forward), que corrige erros de fase antes e não depois de acontecerem, segundo me explicou Javier Guadalajara: ‘Só o cristal do oscilador de alta precisão demora 3 meses para ser produzido. O jitter é inferior a 12fs. E não corrigimos só o jitter  relacionado com a conversão, corrigimos também o jitter mecanicamente induzido e o derivado das fontes de alimentação. O Atlantis é temporalmente perfeito!’

Wadax Atlantis Reference DAC c/ fontes de alimentação montadas lateralmente. Highend 2019, Munique.

Wadax Atlantis Reference DAC c/ fontes de alimentação montadas lateralmente. Highend 2019, Munique.

Eu não pretendo – nem posso - comprá-lo: custa 130 mil euros! A que se somam mais 100 mil pelos Transport e o Streamer. Limitei-me a ouvi-los e a constatar o óbvio: a Ultimate Audio comercializa outros DACs excelentes (e igualmente caros), como os MSB, os PlayBack Designs e os Gryphon, para citar apenas alguns, mas nenhum outro recupera a estrutura harmónica original da música como o Wadax Atlantis Reference.

Audição crítica de JVH

Auditório Principal da UAE, em Lisboa: o espectáculo vai começar

Auditório Principal da UAE, em Lisboa: o espectáculo vai começar

Quando ouvi as Vimberg Tonda (clicar para ler) escrevi:

O Luxman M-900u (€ 14 990) portou-se à altura, acolitado pelo clássico-moderno CL-1000 (ambos estilo retro, o prévio nem comando remoto tem…), mas aqui e ali fiquei com a ideia de que as Tonda D ainda podiam ter ido mais longe com dupla amplificação monofónica Gryphon.’

Accuphase A150 monophonic amplifier

Accuphase A150 monophonic amplifier

A Ultimate fez-me a vontade, em parte. E atacou as Vimberg Tonda com um par de monoblocos Accuphase A250, acolitados pelo prévio C3850. A fonte digital era exclusivamente Wadax, com o Atlantis Reference (bem) servido pelo transporte Universal (CD, SACD, Blu-Ray Audio) e pelo Streamer.

Accuphase preamplifier C-3850

Accuphase preamplifier C-3850

Tudo o que então elogiei nas Vimberg peca por defeito, o que só dá razão a quem defende que a fonte é o elemento mais importante num sistema de som.

A sala estava cheia, e cheia se manteve durante quase uma hora que durou a demonstração, sem que ninguém tivesse sequer tido a tentação de a abandonar, mantendo-se imóveis, sentados ou de pé, como foi o meu caso (mais tarde MC fez-me uma demonstração privada, estando eu sentado na sweet spot).

Nem o buffet arrancou os ouvintes da cadeira...

Nem o buffet arrancou os ouvintes da cadeira...

Nem o bem regado buffet aberto no Showroom, os arrancou ao sortilégio do som. Ao ponto de Miguel Carvalho ter comentado que isto nunca lhe tinha acontecido em 10 anos de demonstrações, como se as pessoas estivessem hipnotizadas pelo que ouviam e incapazes de se afastar.

Não é fácil descrever a excepcional qualidade do som, embora fosse fácil assacar a principal responsabilidade pela qualidade geral da performance à Wadax, tendo em conta a minha experiência anterior com as Vimberg Tonda com outras fontes e amplificação.

Independentemente do género musical, do clássico ao pop; do jazz ao funk e ao rock, há algo que distingue o Atlantis Reference: a total ausência de compressão dinâmica, tal como se experimenta ao vivo, e a sensação de coerência temporal e de fase, que está na base da solidez da estrutura harmónica. Basta ouvir um piano para perceber como cada nota tem um peso específico diferente do habitual. A relação temporal entre as notas fundamentais e os respectivos harmónicos é integralmente preservada. A partir daqui, tudo soa real, tangível, palpável, longe da natureza ectoplásmica que, em maior ou menor grau, aflige a reprodução de música de génese digital e que torna o som dos pianos duro e esquálido sem força anímica e poder.

Mais tarde Miguel Carvalho fez-me uma demonstração privada, estando eu então sentado na sweet spot.

Mais tarde Miguel Carvalho fez-me uma demonstração privada, estando eu então sentado na sweet spot.

Apenas algumas referências do muito que se ouviu:

Nas 'Bodas de Figaro', pela Concerto Köln, dirigida por René Jacobs, a Harmonia Mundi coloca a orquestra e os cantores diante dos nossos olhos, com uma transparência e focagem que nos permite deliciar com a técnica e virtuosismo da representação perfeita de cada papel na peça sem esforço auditivo. O Atlantis Reference deixa passar a graça e a frescura da obra sem ofuscar o humanismo do drama;

‘My Way’, por Chie Ayado. Foi uma novidade para mim. A japonesa Chie, aqui acompanhada pelo saxofonista Nobuo Hara, canta o clássico americano por excelência de Paul Anka, com sentimento e classe, enquanto o sax de Nobuo sublinha a traço grosso a sua voz rouca e sentida. Excelente projecção do som.

E nada melhor que ‘Just A Closer Walk With Thee’, pela orquestra de Wynton Marsalis, com Eric Clapton e Taj Mahal como convidados, actuando ao vivo no Lincoln Center, para apreciar a definição tímbrica, o ataque e a reprodução da ambiência do Atlantis.

Finalmente, ‘Inolvidable’, por Bebo & Cigala, em homenagem a Javier Guadalajara, presente na sala, porque ‘En la vida hay ‘momentos’ que nunca pueden olvidar-se’.

Uma audição inesquecível.

 

Para mais informações: Ultimate Audio Elite

UAE Fev20 Wadax Atlantis Reference DAC

Kii Three + BXT: dois módulos (16 unidades activas com amplificadores NCore) DSP e DAC incluído.

A electrónica de apoio às Vimberg Tonda: Wadax DAC/Transport/Streamer, Accuphase C3850/ 2 x A250 mono. De notar que as fontes de alimentação dos canais esquerdo e direito do Atlantis Reference DAC podem ser colocadas na prateleira de baixo, reduzindo a envergadura do 'bicho'...

Highend 2019, Munique: apresentação mundial dos Wadax Atlantis Reference. DAC/Streamer e Transport

Wadax Atlantis Reference DAC c/ fontes de alimentação montadas lateralmente. Highend 2019, Munique.

Auditório Principal da UAE, em Lisboa: o espectáculo vai começar

Accuphase A150 monophonic amplifier

Accuphase preamplifier C-3850

Nem o buffet arrancou os ouvintes da cadeira...

Mais tarde Miguel Carvalho fez-me uma demonstração privada, estando eu então sentado na sweet spot.