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Wharfedale Linton – mergulho no passado

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Na auspiciosa passagem do 85º Aniversário, a Wharfedale lançou a linha Heritage, comemorativa do icónico modelo Linton dos anos sessenta: um som moderno numa embalagem vintage, a um preço acessível de 999 euros.

As Wharfedale Linton trouxeram-me à memória momentos felizes da juventude, quando o audiófilo que já havia em mim mal sabia que esta obsessão iria dar em profissão. Regressar ao passado é uma forma de viver no presente o que o futuro nos reserva.

A Wharfedale nasceu há 85 anos, no vale amplo e fértil do rio Wharfe, na zona de Cambridge (em fundo na foto de capa). As Linton são de 1965, portanto eu era ainda um miúdo, quando aproveitava os furos no horário escolar para me escapar até à Valentim de Carvalho, onde as podia ouvir acolitadas por amplificadores Quad, infiltrando-me numa audição, porque nunca as punham a tocar só para mim.

(I Can’t Get No) Satisfaction

Lembro-me de ouvir (I Can’t Get No) Satisfaction, dos Rolling Stones, como nunca tinha ouvido. Uma gravação que ainda hoje me soa ‘fininha’, mas que o largo painel frontal das Linton ‘encorpava’, conferindo volume e amplitude à gama média onde afinal se concentrava 90% do conteúdo musical: as vozes, a bateria, as guitarras tinham uma presença fantástica. Ou eu achava que sim in illo tempore. Tudo é relativo na vida…

Quando chegava a casa, ouvia o single num daqueles gira-discos tudo-em-um, no qual a tampa era também o altifalante, e tinha de colocar uma moeda em cima do braço para a agulha não saltar: não obtinha lá grande ‘satisfaction’ com o sistema, mas era o que havia…

…tal como as Wharfedale Linton, eu e Mick Jagger ainda cá andamos…

Ou, então, íamos em grupo a um café ali perto que tinha uma jukebox. Havia sempre três ou quatro que tinham uma moeda de escudo para ouvir o ‘Satisfaction’ repetidamente, dando com o dono em doido. Hoje, os miúdos têm toda a música ao alcance do polegar, e continuam ‘insatisfeitos’. Mas tal como as Wharfedale Linton, eu e Mick Jagger ainda cá andamos…

As Linton no Highend 2019, Munique

Apresentação mundial das Wharfedale Heritage Linton 85, no HighEnd 2019, em Munique, com amplificação Quad.

Apresentação mundial das Wharfedale Heritage Linton 85, no HighEnd 2019, em Munique, com amplificação Quad.

Mais de meio-século depois, dou de caras com as Linton, no Highend Show 2019, em Munique.

Senti um choque emocional: elas estavam ali, instaladas num cenário doméstico, novas e bonitas como quando as conheci, como se o tempo estivesse suspenso; e eu já idoso pelos padrões oficiais, pois até tenho desconto nos transportes.

Não queria acreditar no que estava a ver/ouvir. Até a amplificação continuava a ser Quad. Só o estilo anos-60 as denunciava como sendo ‘do século passado’: do tempo dos Beatles, das flores nos cabelos longos e calças è boca-de-sino. 

Mudam-se os tempos, não as vontades

Numa observação mais atenta, reparei nos suportes abertos (compram-se à parte por 300 euros), dimensionados para servir também de estante para os LP, um revivalismo que lhes assenta bem, agora que o LP está de novo na moda. Mudam-se os tempos, não se mudam as vontades.

Naquele tempo, se bem me lembro, colocavam-se as colunas no chão, encostadas à parede, e aquilo fazia bum-bum que se fartava, algo que à falta de melhor termo se designava por ‘um g’anda baixo!’

…a Wharfedale construiu um ‘clone’ das Linton com um som moderno e tempero vintage…

Mas as Linton só aparentemente são as mesmas colunas de então. Para comemorar o 85º Aniversário a Wharfedale construiu um ‘clone’ das Linton com um som moderno e apenas um tempero vintage.

A caixa é um misto de madeira prensada de alta e média densidade e continua a ter a forma de paralelepípedo retângulo com as dimensões de 56 x 33 x 30 cm, tal como todas colunas do tempo da outra senhora. A JBL também está a aproveitar esta onda de revivalismo.

‘Baffle’ largo, gama média ‘larga’

Ora sabe-se que, quanto mais largo é o baffle, mais tarde começa a redução do ângulo de dispersão e o cancelamento das frequências baixas reproduzidas pelo altifalante de médios, logo temos uma gama média-baixa menos focada talvez, mas muito mais natural.

Assim, não é por acaso que as Linton são tão eficientes (89dB /1W) e fáceis de alimentar. Naquele tempo, os amplificadores eram a válvulas ou de pouca potência…

O baffle sendo largo permite também albergar altifalantes de razoáveis dimensões, escondidos pela grelha que, sendo amovível, não é para remover. Na Linton original, de 1965, nem sequer era possível remover a grelha.

…as Linton não só parecem melhor, soam também melhor com grelha…

Se bem me lembro, o tecido em Tygan era mais grosseiro e com cor de rato. O atual é mais macio ao tato e tem até um padrão mais bonito de cor preta com brilho acetinado. Mas não é só por isso: as Linton não só parecem melhor, soam também melhor com grelha. Pronto.

Aliás, antigamente ninguém retirava as grelhas, porque os painéis eram toscos, o que já não é hoje o caso: os atuais acabamentos com painel em negro mate com recortes perfeitos e caixa folheada de madeira são de muito boa qualidade – vantagens da mão de obra chinesa.

Nota: a Wharfedale faz agora parte do Grupo IAG, de Taiwan, a que pertencem também: Audiolab, Luxman, Mission e Quad, e têm sabido respeitar a história das marcas, evoluindo sem alterar a personalidade de cada uma delas. Ler em Artigos Relacionados, os testes de JVH às Quad eletrostáticas.

As novas Linton Heritage 85th Anniversary partilham o mesmo ADN das velhas Linton 3 e XP3: o altifalante de graves tem o mesmo diâmetro (20 cm), por exemplo, mas os cones são agora de kevlar, um material moderno.

E enquanto a Linton original (houve várias versões entre 1965 e 1970 com 2 e 3-vias e até reflex) era ligeiramente mais pequena e de caixa fechada e tinha um altifalante único para os médio-altos (!), com câmara selada própria e um controlo rotativo no painel traseiro para regular os agudos, a Linton 85 tem um tweeter de 25mm com cúpula de seda e um altifalante dedicado de médios, de 13,5 cm, também com cone de kevlar, e duplo escape reflex no painel traseiro.

…o duplo pórtico reflex traseiro não gosta de ‘ser encostado à parede’…

Quando em repouso, pode colocá-las num canto para desimpedirem o caminho (a esposa agradece), mas deve afastá-las para a audição (bastam 30 cm da parede): o duplo pórtico reflex traseiro não gosta de ‘ser encostado à parede’, ao contrário do que sugerem as fotografias lifestyle da marca (e a minha também), pois brinda-nos com o que hoje deixou de ser considerado um g’anda baixo e passou a ser apenas boomy.

Afastadas ligeiramente das paredes, proporcionam um baixo ritmado, bem ao gosto dos ‘rockeiros’ – e de pé leve, sem ênfase de proximidade.

As Linton são simétricas, e por isso devem ser colocadas com os tweeters do lado de dentro do palco, ligeiramente apontadas para o ponto-de-escuta. Se prefere uma imagem mais ampla e expansiva, experimente com os tweeters colocados para fora. Se resulta com as Magneplanar, por que não com as Linton?...

Audição de saudade da juventude

Foto lifestyle típica em ambiente doméstico, com as Linton integradas na decoração. Para ouvir, convém afastá-las da parede pelo menos 30 cm...

Foto lifestyle típica em ambiente doméstico, com as Linton integradas na decoração. Para ouvir, convém afastá-las da parede pelo menos 30 cm...

Ouvi-as ligadas à vez a um Naim Uniti Atom de 50W e a um Audio Note P1 SE Signature, de 10W single-ended, tendo como fontes a Tidal e um leitor-Universal Oppo BDP 95EU. O Audio Note é até um melhor casamento, porque a gama média é limpa mas leve (clear as a bell ) e as válvulas dão-lhe um agradável toque de calor.

E não resisti a iniciar as hostilidades com ‘Satisfaction’, dos Rolling Stones, what else?, numa versão promocional em SACD, que me foi oferecida em 2002 por Rui Vicente, da Sony (onde andas Rui, amigo?).

Nota: sobre esta edição em SACD, remasterizada por Bob Ludwig, escrevi um artigo no DN em 2002, sob o título: ‘Rolling Stones em SACD II’, que podem ler na integra em formato pdf, no final em baixo.

Nota: sobre esta edição em SACD, remasterizada por Bob Ludwig, escrevi um artigo no DN em 2002, sob o título: ‘Rolling Stones em SACD II’, que podem ler na integra em formato pdf, no final em baixo.

As Linton não são as mesmas: o som é mais moderno; o SACD não é o LP (segundo Bob Ludwig é até melhor!...); e eu também já não sou o mesmo, tenho mais 50 anos.

Mas os Rolling Stones soaram iguais a eles próprios através das Linton 85th Anniversary. Senti-me transportado para o passado, a bater o pé no presente e com muita ‘satisfaction’…

…senti-me transportado para o passado com um pé no presente…

Olhem, acabei por ouvir o disco todo. Porque as Linton dão à música aquele tempero especial, que nos faz lembrar a comida da avó, mesmo que os ingredientes já não tenham o mesmo sabor de outrora, isto a acreditar na memória, que é tanto mais falível quanto mais as emoções estiverem envolvidas.

As gravações de rock na altura eram secas e agressivas, fininhas na gama média, mas as Linton tornavam tudo mais tragável, como a colher de açúcar que a avó nos dava depois de beber óleo-de-fígado-de-bacalhau, que era a vitamina D de então.

…as Linton são a vitamina D que dá à música do passado o calor do sol…

É isso, as Linton são a vitamina D que dá à música do passado o calor do sol. E não só a música dos Rolling Stones. Dos Beatles, do Bob Dylan, dos Pink Floyd. Mas também da Dua Lipa. E de Coltrane e Sonny Rollins. De Beethoven e Mozart.

Por 999€ pode comprar um par de bilhetes de ida ao passado e de volta ao presente, tudo sem sair de casa. Em tempo de pandemia, que mais se pode desejar?...

Nota: a Wharfedale é distribuida na península Ibérica pela Sarte Audio, mas pode ouvir e comprar as Wharfedale Linton Heritage 85th Anniversary Edition online na Imacustica e na OnOff, ou na loja, logo que acabe o maldito confinamento.

Linton at Wharfedale

Apresentação mundial das Wharfedale Heritage Linton 85, no HighEnd 2019, em Munique, com amplificação Quad.

Foto lifestyle típica em ambiente doméstico, com as Linton integradas na decoração. Para ouvir, convém afastá-las da parede pelo menos 30 cm...

Nota: sobre esta edição em SACD, remasterizada por Bob Ludwig, escrevi um artigo no DN em 2002, sob o título: ‘Rolling Stones em SACD II’, que podem ler na integra em formato pdf, no final em baixo.

Rolling Stones em SACD, por JVH - DN 2002


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