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Reviews Testes

T+A Solitaire P-SE – sozinho num quarto cheio de música

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Os auscultadores Solitaire P-SE são a negação do seu próprio nome. Oiça música com eles, e nunca mais se vai sentir sozinho.

Os P-SE são a versão ‘barata’, por assim dizer, pois custam 3100 euros (!) do modelo topo-de-gama P (5200 euros!!). São fabricados pela empresa T+A (Theory and Application), em Hereford, na Alemanha, e isso reflete-se nos custos.

Para poder justificar este preço, os ‘P’ teriam de ser um dos melhores auscultadores planar magnéticos (magnetostáticos, segundo a T+A) do mercado, e há quem diga que são, mas eu nunca os ouvi.

Para ‘cortar’ 2 mil euros no preço, sem baixar a qualidade, a T+A utiliza vários tipos de plástico em vez de alumínio; a unidade ativa TPM2500 é do mesmo tamanho (80 x 110 mm) mas tem uma estrutura de ímanes simples, ao contrário da TPM3000 do modelo P, que é dupla. O diafragma ultra leve e fino e o padrão dos condutores são iguais.

…o SE devia chamar-se antes P Light...

Por isso, a versão SE pesa apenas 440 gramas, ou seja, é 90 gramas mais leve que a P. Digamos que o SE devia chamar-se antes P Light.

Além do menor peso, que os torna mais confortáveis de usar por longos períodos de tempo, ter ímanes montados só de um lado tem vantagens físicas e elétricas: impedância mais baixa (45 ohms), mantendo a mesma sensibilidade (100dB).

O maior fluxo de ar (som) é agora controlado por um sistema de ‘persianas’ (Draught Control system). Sendo um modelo ‘aberto’, não só parte do som (menos os graves) se escapa para o exterior, como é possível ouvir o ruído ambiente. É o preço a pagar pela excecional transparência e imagem holográfica.

…é o preço a pagar pela transparência e imagem holográfica…

Os ímanes de neodímio de elevada performance do sistema TPM 2500 são montados de forma a terem exatamente a mesma forma e tamanho do diafragma para garantir a ativação uniforme em toda a superfície. Os anéis de segurança mantêm o diafragma sempre na posição correta o que resulta numa linearidade perfeita, segundo a T+A.

Conforto e transparência

A transparência dos Solitaire é também visual, pois é possível observar através da rede perfurada exterior, a bainha dos jacks TRS, o sistema de controlo de fluxo de ar e a membrana milagrosa que produz o som com os seis anéis ao centro.

Os Solitaire P-SE são do tipo circumaural, pelo menos para quem tem orelhas pequenas como eu, sendo as cápsulas ovais (de facto, até são elípticas) montadas num mecanismo rotativo a 110º e com hastes de estabilização vertical a 45º suportadas por uma cabeceira bem estofada e forrada a pele sintética (e também a veludo na área de contacto com a cabeça), com uma lâmina de aço interior de aperto e outra duas de ajuste extensível.

Uma rede de tecido vermelho, bem visível no interior da cápsula, contrasta fortemente com o negro das almofadas forradas de pele sintética, com aplicação de veludo na área de contacto, muito agradável ao toque.

A mola é suave e não aperta a cabeça num torno para manter os auriculares no sítio; a espuma com memória da cabeceira parece ‘lembrar-se’ de si de cada vez que os coloca; o tecido de veludo não aquece as orelhas e as 440 gramas do conjunto podem considerar-se ‘peso pluma’ pelos padrões planar magnéticos e outras variantes exóticas de mais de 600 gramas.

Mete o cabo, tira o cabo

O Solitaire P-SE vinha com dois pares de cabos de 3 metros com revestimento de borracha sintética maleável e fácil de desenrolar, com terminação de XLR 4-pinos (balanceada) e com Jack de 6,35 mm. Pode encomendar a opção 4,4 mm Pentacon balanceada.

Os condutores são de cobre puro desoxigenado e banhado a prata, e não precisa de comprar outros. Até porque as fichas de 3,5 mm TRS têm um formato especial e são montadas nos auscultadores em profundidade. Não são fáceis de inserir - e ainda menos de remover, porque é preciso puxar pelo próprio cabo, o que não é muito conveniente.

Os Solitaire P SE são apresentados numa caixa de cartão cinzenta, com o logótipo T+A, com um molde interior aveludado para acomodar os auscultadores e duas repartições laterais para os cabos.

Na apresentação, na construção e na escolha dos materiais os Solitaire P SE não estão ao mesmo nível dos melhores exemplos, dentro da sua categoria de preço, como os Meze Empyrean. Então, e o som?

 

Som electrostático

Para quem ainda não sabe, os auscultadores planar magnéticos ou magnetostáticos (também conhecidos por isodinâmicos) não utilizam altifalantes dinâmicos ou outros de qualquer tipo.

O som é produzido por uma membrana ultrafina semelhante a um enorme tímpano, com um padrão de condutores justaposto, que vibra num campo magnético, quando modulado pelo sinal musical.

A vantagem sobre os auscultadores eletrostáticos é que – teoricamente - não precisam de um amplificador especial e podem ser ligados a qualquer amplificador convencional, incluindo um telefone celular.

… a primeira impressão de audição é a de que são auscultadores eletrostáticos…

Na prática, soam muito melhor quando alimentados por amplificadores com elevada capacidade de corrente, como é o caso do excelente Boulder 812, que utilizei em exclusivo para os ouvir. Isto apesar de uma sensibilidade declarada de 100dB SPL, que me pareceu otimista.

Neutralidade inaudita

A primeira impressão de audição é a de que são auscultadores eletrostáticos: o som é evanescente e puro e tem a delicadeza de pormenor da filigrana dos Stax eletrostáticos. A transparência, a resolução e velocidade de resposta a transientes são também de cortar a respiração.

Os auscultadores planar magnéticos oferecem de uma maneira geral mais corpo nos registos médio-graves à custa de alguma coloração ou "espessura", na busca de um som mais encorpado e orgânico.

Não é o caso dos P-SE, cuja grande gama média é de uma neutralidade inaudita. E, talvez por isso, vai haver quem ache que soam algo ‘fininhos’ por comparação com a concorrência de outros planar magnéticos.

O grave está lá e tem boa extensão (os Hifiman vão mais abaixo), mas favorece a articulação e definição (assombrosas ambas, diga-se!) em detrimento da intensidade e do impacto macro dinâmico; por outro lado, é tão rápido que todos os outros me soam agora algo arrastados. O timing dos P-SE é impecável.

…o grave é tão rápido que todos os outros me soam agora algo arrastados…

 

Nível de referência absoluta

A limpidez dos P-SE associada à claridade do palco sonoro é de nível de referência absoluta, se bem que por vezes com algum excesso de luminosidade geral, admito.

Se bem me lembro, os Meze Empyrean, por exemplo, são mais escuros, e também por isso, mais "opacos", na gama média baixa, logo menos transparentes, por comparação de memória auditiva, que não é fiável.

A excecional quantidade de informação contida nos registos médios-altos dos P-SE, tem um índice de detalhe associado tão rico que cada audição é um deslumbramento, ainda que esta “riqueza de detalhe” possa estar associada ao ênfase proporcionado por picos de banda muito estreita aos 8 e 10kHz, que pode optar por corrigir, ou não - a escolha é sua. Contudo, a distorção é tão baixa que nunca soam demasiado brilhantes, apenas vivos.

Além disso, uma ajuda de 3dB nos graves, 1 a 2dB nos 250Hz e 1,5/2kHz (zona de presença) são a minha proposta no caminho para a perfeição acústica (ver gráfico). A sua receita pode ser outra, claro.

Confirme no gráfico acima a igualização paramétrica da Roon que utilizei com os Solitaire P-SE para puro prazer pessoal, uma vez terminado o teste. O leitor pode utilizar esta igualização como ponto de partida, ou pura e simplesmente ignorá-la. Ao natural, os P-SE já soam fantásticos.

A resposta em frequência é muito semelhante à dos meus Hifiman HE1000 que parecem agora sofrer de uma névoa muito ténue nos registos médios de que só me apercebi depois de ouvir os Solitaire P-SE.

O som dos P-SE é um gosto adquirido e podem ser ouvidos com prazer mesmo sem qualquer igualização.

Contudo, a audição com auscultadores é talvez a forma mais personalizada de ouvir música, pelo que cada pessoa é um caso de estudo. Não há dois ouvidos iguais. O que há é uma cultura de audição, que é transmissível de geração em geração, e suscita uma reação comum aos estímulos auditivos. Americanos, europeus e japoneses dão mais importância a estímulos diferentes. E entre os povos europeus, os do sul dão mais importância à tonalidade e os nórdicos ao timbre. Depois, ainda há o que dão primazia às medições e os que se baseiam apenas na audição. Não deixe que todas estas variantes lhe roubem o prazer de ouvir música com os 'seus' ouvidos.

O prazer da audição solitária

Um teste subjetivo, ainda que com algumas medições básicas, é apenas uma opinião pessoal, o relato de uma experiência individual e solitária, com todos os sentimentos e emoções que a audição de música envolve, e que não é alheia a outras manifestações culturais, como o gosto pela leitura, a pintura ou a fotografia – cada homem é um ser complexo fruto da sua cultura e educação.

Felizmente, a experiência não é pessoal ao ponto de ser intransmissível, e esta análise pode servir de guia para a audição que o leitor deve obrigatoriamente fazer antes de qualquer decisão de compra. Não se esqueça que vai comprar um equipamento eletrónico, mas que o vai utilizar como um equipamento cultural.

No meu caso, os T+A Solitaire P-SE acompanharam-me na leitura de Wordsworth vagueando na natureza:

I wandered lonely as a cloud
That floats on high o’er vales and hills,
When all at once I saw a crowd,
A host, of golden daffodils;
Beside the lake, beneath the trees,
Fluttering and dancing in the breeze …

                           William Wordsworth

Também o som dos P-SE tem a leveza de uma nuvem, que o leva pelos montes e vales da dinâmica; que lhe permite observar cada flor no meio da multidão de flores acústicas dos seus discos preferidos; e ouvir até o esvoaçar da brisa que dança na copa da árvore dos sons, na serenidade da margem do lago do silêncio. 

Woman Child

Ouvir música com os Solitaire não é – não tem de ser – uma experiência solitária. Porque eles abrem-lhe as portas do mundo da música. E não o isolam do mundo que o rodeia.

Assim, como Xavier de Maistre, em Voyage autour de ma chambre, vai poder viajar acompanhado pelos melhores artistas sem sair do quarto.

…ouvir música com os Solitaire não é uma experiência solitária…

Oiça, por exemplo, na integra o álbum Woman Child, de Cécile McLorin Salvant (disponível na Tidal) e vai perceber logo o significado de tudo o que acabei de escrever. É como se estivesse num tête-à-tête com ela, tal a sensação de presença.

Os T+A Solitaire P-SE são os auscultadores mais rápidos e transparentes que já ouvi. O grave dos Hifiman 1000 tem mais extensão. mas noto agora uma ligeira névoa generalizada antes impercetível: o som dos Meze Empyrean é mais orgânico, à custa de uma coloração (opção de afinação?) nos registos médio-graves, se a memória auditiva não me engana.

Será que os Solitaire P cumprem todos os critérios, embora a um preço mais elevado? Eu estou disponível e desejoso de os ouvir.

Os T+A Solitaire P-SE, acolitados pelo amplificador Boulder 812 (ligação balanceada), proporcionaram-me uma experiência auditiva maravilhosa que recomendo aos leitores.

Vá ouvi-los na Ultimate Audio Elite.

T A Solitaire P SE capa copy


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