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Cambridge EVO150: crónica de um sucesso anunciado

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Este é o tipo de produto que os distribuidores até agradecem que os ‘críticos’ ignorem, porque eles acabam sempre por descobrir, ou ‘inventar’, algo de menos positivo, quanto mais não seja para fazerem ‘prova de vida’, quando o simples ‘boca-a-boca’ entre os clientes é quanto basta para esgotar o stock.

Há sempre alguém que (não) resiste

1. Quem resiste a um produto que responde a todas as necessidades, não só dos iniciados na audiofilia moderna, adoradores de streaming de alta resolução; mas também da família, incluindo a esposa, que vai achar que tem o tamanho (e preço) certo e o design adequado; e os mais novos para quem um telemóvel e uma ligação Bluetooth ou Chromecast permite navegar no vasto oceano musical que a Spotify lhes proporciona?

Mais tarde, pode até juntar-lhe um leitor-CD EVO, com o mesmo design e tamanho, e um par de colunas de estante EVO Model S, embora o EVO150 não tenha problemas em alimentar colunas-de-chão mais exigentes.

O EVO150 está pronto para enfrentar a década da inovação digital e verde, que se anuncia.
Cambridge EVO 150 - painel traseiro

Cambridge EVO 150 - painel traseiro

2.  Quem resiste a um amplificador integrado de 2.499 euros, com 150W/8 e 270/4 em Classe D (Hypex Ncore), que gasta pouca energia e pode atacar dois pares de colunas em simultâneo, com entradas analógicas balanceadas XLR (1) e RCA (1) de linha e Phono MM e digitais para Ethernet, USB type 1 e 2 (assíncrona para ligar a um computador), coaxial, ótica e HDMI/ARC (para ligar à TV); saídas Pre Out, Sub Out e auscultadores (no painel frontal); e ainda Bluetooth aptX HD in/out? 

3.  Quem resiste a um amplificador integrado com um DAC/Streamer interno compatível com os formatos Airplay 2, Chromecast, Bluetooth, USB HiRes, Roon e MQA e os fornecedores de streaming Apple Music, Amazon Music, Spotify, Deezer, YouTube Music, além de Tidal e Qobuz em alta resolução?

4.  Quem resiste a um amplificador integrado com um DAC ESS Sabre 9018K2M capaz de converter até PCM 32 bit/384kHz, DSD256 via USB e, já vimos, full MQA até 352kHz via Roon?

5.  Quem resiste a um palminho de cara, com um mostrador panorâmico, do tipo IMAX, gerido via controlo remoto ou via app StreamMagic (gratuita) e painéis laterais negros ou cor de madeira, a fazer lembrar os icónicos Cambridge P40?

6.  Finalmente, quem resiste a um amplificador integrado que é apresentado como tendo ‘som Cambridge’, depois de ler o que eu escrevi sobre o Cambridge Edge A?

E aqui chegados entra o ‘chato’ do crítico para lembrar que tudo isto é verdade, mas que o caminho para lá chegar nem sempre é fácil. Mas não desanime, porque tem o apoio da OnOff (basta telefonar ao João, como eu admito que fiz).

Nota: além da Support View/OnOff, a Cambridge também é distribuída em Portugal pela Ultimate Audio

O alvo a abater: Naim Uniti Atom

Cambridge EVO 150 - design, funcionalidade, modernidade

Cambridge EVO 150 - design, funcionalidade, modernidade

A minha longa experiência com o Naim Uniti Atom, que uso diariamente como amp/streamer de secretária e de que o EVO75 é concorrente direto, ajudou-me a aceitar, com alguma relutância, o facto de o mostrador não ser um ecrã tátil, porque tem as dimensões de um smartphone, e apetece mesmo tocar-lhe e fazer scroll.

Nota:  Ao contrário do EVO150, o Atom, tal como o EVO75, não tem entrada Phono, nem USB Class 2 para ligar a um computador.

A Cambridge, tal como a Naim, optou por uma App gratuita, a StreamMagic, neste caso, que substitui o ecrã tátil, e cuja utilização implica algum estudo prévio.

Eu fui preguiçoso, e tive de recorrer à OnOff. Mesmo depois de instalar a Asio Driver recomendada, não conseguia reproduzir com a JRiver ficheiros acima de 96kHz, porque quando selecionava USB Audio como fonte, o EVO150 ia por defeito para USB type 1. É preciso ir aos settings e selecionar USB type 2. Obrigado pela dica, João.

A partir daqui o EVO150 cumpre com o prometido PCM até 32/384kHz e DSD256. Também reproduz DSD512 mas faz downsampling para DSD256. E apenas via Roon. Com USB type 2 o limite é mesmo DSD256. No Roon, surge identificado como Evo150 (f2).

Nota: Normalmente este tipo de amplificadores ‘resampla’ tudo para uma única frequência de trabalho, pelo que todos estes valores são académicos. É o que acontece com o Atom, que ‘resampla’ tudo para 192kHz e os sinais analógicos para 96kHz (abrir teste de JVH em inglês aqui).

Mas estou a adiantar-me.

A app StreamMagic

Cambridge EVO 150 -  App StreamMagic

Cambridge EVO 150 - App StreamMagic

Quando se liga o EVO150 pela primeira vez, o sistema instala o firmware durante cerca de 5 minutos, talvez mais, não cronometrei.

Só depois deve descarregar a App StreamMagic e proceder aos settings personalizados: qual o equipamento no qual vai ouvir música, Evo 150 (f2), neste caso; depois seleciona  ‘output’: Speaker A, B, A+B ou ‘Headphones’; as fontes: Tidal, USB Audio, Spotify, Roon; ou estações de rádio. Só depois é possível utilizar o anel exterior do botão de volume como seletor.

Cambridge EVO 150 - também pode ouvir internet radio com indicação de qualidade do sinal

Cambridge EVO 150 - também pode ouvir internet radio com indicação de qualidade do sinal

Entre outras coisas, pode regular o temporizador, que desliga o aparelho ao fim de algum tempo sem sinal (20 m por default); o brilho do ecrã etc.

A não ser que tenha o Roon para aceder pela rede aos servidores e à Tidal, não se esqueça de verificar nos settings a opção USB Audio Class 2 e de instalar um media player como o JRiver, Foobar, etc.

Agora, muita atenção: se assina a Tidal, não faça a ligação na App StreamMagic através de ‘Fontes’ (sources). Faça scroll e abra mais abaixo a App da Tidal, no campo Music Apps. E vou explicar porquê:

Is MQA better than Flac?

Cambridge EVO 150 - MQA 352.8kHz/24 bit

Cambridge EVO 150 - MQA 352.8kHz/24 bit

Se entrar na Tidal via ‘Sources’, os álbuns MQA são reproduzidos em Flac, com exceção das faixas codificadas a 352kHz, que ativam o led azul/MQA. Porquê? Não sei, não faz sentido.

Curiosamente, a resposta pode estar no site da própria Cambridge, ao referir-se ao MQA:

In fact they (MQA files) are only 0.43% bitperfect with a 40dB null (24 bit accuracy is 146dB) We can see that the master is clearly the same as the majority of the track is identical, but the MQA version has a significant amount of high frequency noise compared to the lossless FLAC.

É óbvio que a Cambridge prefere flac a mqa. Mas como o EVO150 lhe oferece ambas as versões, seja o leitor juiz em causa própria. Como testemunha auditiva, eu declaro que o MQA não é o único culpado dos crimes de lesa áudio que lhe apontam. E que um DAC com compatibilidade MQA é uma mais valia. E com o EVO150 também pode ouvir a versão em PCM, DSD, CD e LP para tirar teimas…

Eu só investiguei, porque gosto de um pouco de polémica para apimentar a escrita. De facto, se utilizar uma App generalista como a mConnectLite (também gratuita), o led azul/MQA acende e no mostrador surge a frequência do registo original, desde que tenha configurado o Browser para Tidal e Play To: Evo150(f2).

Cambridge EVO 150 - Em cima, ligação Tidal via 'Sources'; em baixo, ligação Tidal via Music Apps

Cambridge EVO 150 - Em cima, ligação Tidal via 'Sources'; em baixo, ligação Tidal via Music Apps

Mas se optar pela App Tidal no campo Music Apps da StreamMagic, tudo funciona na perfeição. E o álbum ‘Cambridge Audio: MQA Highlights’, que contém 45 faixas codificadas em MQA é reproduzido com o led azul aceso e incluindo informação sobre a resolução no original.

Só não se esqueça de configurar também a App da Tidal para ‘Master’ e selecionar o Evo150 (f2) no ícone ‘coluna de som’.

EVO vs. Edge

Posto isto, como soa o Cambridge Audio EVO 150? Como o Cambridge Edge? Nope. O Edge funciona em Classe AX (leia o teste aqui para saber o que é…) e o EVO tem um andar de potência em Classe D, baseado em módulos Hypex NCore, os mesmos utilizados, por exemplo, nos Marantz Ruby.

Nota: podem ler aqui um pdf em inglês sobre o modo de funcionamento dos NCore.

Os engenheiros da Cambridge ‘afinaram’ o som Ncore, que é muito neutro, dando-lhe um pouco do calor do Edge a partir do andar de prévio. E conseguiram controlar eficazmente o ruído próprio das fontes comutadas.

O Ncore bebeu chá em pequenino, apesar de ter nascido nos Países Baixos, e por isso tem sotaque britânico…

Isso é óbvio na audição com auscultadores, cujo circuito de amplificação ‘soa a Edge’. Mas podia ter um pouco mais de potência para alimentar auscultadores planarmagnéticos.

Ao princípio, o EVO desiludiu-me: soou seco e estéril, um pouco empertigado até. Mas deem-lhe umas boas horas de ‘queima’ e tudo começa a fazer sentido, sobretudo o ênfase dado às vozes, que soam explícitas, claras e inteiras: não se perde uma sílaba!

O EVO150 tem sotaque e fleuma britânica: imperturbável!

A vantagem dos NCore reside na imperturbabilidade face à dança da impedância das colunas com a frequência, algo que deixa a Classe D convencional ‘a bater mal’, como acontece com os adversários da seleção neozelandesa de râguebi perante a exibição de dança Maori de Guerra: Haka.

O som do EVO é muito linear. O EVO não tem aquele grave carnudo e texturado do Edge, o som é todo ele de uma peça só.

A haver algum ênfase será na gama média que é muito focada e nítida, isto apesar do ponto de focagem ser um pouco atrás da boca de palco. O EVO150 soa relaxado e relaxante, ninguém diria que estamos a ouvir um Classe D.

Na prática, estas características traduzem-se na reprodução fiel de todos os tipos de música sem discriminação de género, como impõe a lei e a Constituição da República.

Cambridge Audio: MQA highlights

Cambridge EVO 150 -  A Cambridge tem uma Playlist MQA exclusiva na Tidal. Isto apesar de não serem fãs do MQA - mas o cliente tem sempre razão...

Cambridge EVO 150 - A Cambridge tem uma Playlist MQA exclusiva na Tidal. Isto apesar de não serem fãs do MQA - mas o cliente tem sempre razão...

Para o provar nada melhor que a Playlist da própria Cambridge na Tidal: Cambridge Audio: MQA Highlights, composta por 45 faixas/ 4 horas de música diversificada, que abre com I’ll take you there, The Staple Singers, e fecha com Dark Oscillations, dos Loma, passando por Steve Reich, Massive Attack, K.D. Lang, Nick Cave, Stevie Wonder, Vangelis, Kate Bush e Esperanza Spalding, entre dezenas de outros, como Coltrane e Bowie.

Admito que nem todos são a minha praia. Eu sou mais Van Morrison (o último disco ‘Latest Record Project’ é um espanto e um encanto; e Shelby Lynne (o álbum ‘Just a Little Loving’, é doce como geleia de morango…).

Van Morrison continua em forma

‘Latest Record Project’ é um espanto e um encanto

‘Latest Record Project’ é um espanto e um encanto

O disco de Van Morrison tem 28 faixas, que vão dos blues ao blue-eyed soul e ao rythm-and-blues, do country e da folk ao jazz e ao rock celta.

O EVO150 permitiu-me apreciar os diferentes ritmos e harmonias e seguir as ‘lyrics’ sem perder vogais e consoantes, sobretudo estas que nunca se confundem aqui com as sibilantes silvantes tão típicas da Classe D.

A forma como o EVO150 separa as vozes dos coros e os instrumentos que acompanham Van Morrison é, em si mesma, um tratado sobre o significado de definição e destrinça tímbrica.

Shelby Lynne: feliz com lágrimas

‘Just a Little Loving’ de Shelby Lynne, é um álbum de homenagem a Dusty Springfield, que escapou à censura do MeToo

‘Just a Little Loving’ de Shelby Lynne, é um álbum de homenagem a Dusty Springfield, que escapou à censura do MeToo

Just a Little Loving’ de Shelby Lynne, é um álbum, com lágrimas nos olhos, de homenagem a Dusty Springfield, que escapou à censura do MeToo, pois contém faixas: ‘Breakfast In Bed’ You Don’t have to say You Love Me’ e ‘Pretend’ que seriam motivo para levar as ‘louçanetes’ do BE a queimá-la viva (metaforicamente, claro) no Terreiro do Paço, ou, no mínimo, uma queixa por violência doméstica, porque retratam a mulher submissa, que, por amor a um homem, aceita ser capacho e aceita ser maltratada:

Hurt me one more night

Just pretend you love me

Cada canção é cantada num registo introspetivo, como uma oração, cujo efeito catártico me lava a alma sempre que as oiço: absolutamente encantador, como se Shelby Lynne me cantasse ao ouvido, lavada em lágrimas, murmurando palavras de amor tão inteligíveis que assustam. Well done, EVO150!

E não estou a defender a submissão da mulher ao homem, estou a exaltar a qualidade artística e a emancipação de Shelby Lynne, que dá às canções de Dusty Springfield um toque pessoal, com um mínimo de orquestração: teclas, guitarras e bateria.

Eis como, por apenas 2.499 euros, pode comprar um amplificador integrado+amplificador de auscultadores, rádio digital, DAC de alta resolução e streamer. Basta juntar um par de colunas e/ou um leitor CD da série EVO.

Para um ‘Tudo-Em-Um’ sem pretensões highend, o EVO150 satisfaz as exigências do audiófilo moderno, e recomenda-se a sua audição na loja da OnOff.

Para mais informações: OnOff

 

EVO150 capa coltrane blue

Cambridge EVO 150 - painel traseiro

Cambridge EVO 150 - design, funcionalidade, modernidade

Cambridge EVO 150 - App StreamMagic

Cambridge EVO 150 - também pode ouvir internet radio com indicação de qualidade do sinal

Cambridge EVO 150 - MQA 352.8kHz/24 bit

Cambridge EVO 150 - Em cima, ligação Tidal via 'Sources'; em baixo, ligação Tidal via Music Apps

Cambridge EVO 150 - A Cambridge tem uma Playlist MQA exclusiva na Tidal. Isto apesar de não serem fãs do MQA - mas o cliente tem sempre razão...

‘Latest Record Project’ é um espanto e um encanto

‘Just a Little Loving’ de Shelby Lynne, é um álbum de homenagem a Dusty Springfield, que escapou à censura do MeToo


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