Editorial

Adeus, Wamm!

Wilson Audio Wamm na Imacustica.jpg

Assisti no auditório da Imacustica-LX a quatro concertos das Wamm, acompanhadas por electrónica dCS e Dan D’Agostino: dois concertos públicos e dois privados.

O primeiro foi no âmbito da apresentação à imprensa, incluindo a generalista, que finalmente saiu da sua zona de conforto tecnológico, mais de uma década depois de eu ter cessado a minha colaboração de 16 anos com o DN, na divulgação do áudio highend (abrir em baixo pdf de artigo publicado no DN em 2005).

O caso também não era para menos, pois não é todos os dias que assistimos à apresentação/demonstração de um sistema de som de custo superior a 1 milhão de euros.

E The million dollar system’ é um título que vende bem e atrai ‘clicks’ e ‘likes’ nas redes sociais, que são actualmente a única tábua de salvação da ‘imprensa-papel’, em recessão acelerada em todo o mundo.

Este interesse teve também o condão de libertar o áudio highend das actuais ‘grilhetas’ da imprensa especializada, ou seja: o Hificlube e a revista Audio, mais um ou outro blog e grupo de Facebook, a que se juntou ainda Alan Sircom, da revista HIFI+, que já é visita habitual da casa.

Quando se desvanecer a espuma mediática, nós cá estaremos para escrever sobre os ‘jogos’ dos escalões inferiores e as actividades ‘amadoras’. Porque a imprensa generalista é como a imprensa desportiva: vende mais com o Ronaldo na capa.

O que nos leva à ‘Million Dollar Question’: as Wamm valem o que pedem por elas?

O valor de uma coisa não é o preço que se pede, é o que alguém está disposto a pagar. Ora, se mais de metade dos 70 pares previstos para produção já está vendido ou encomendado, eis a resposta.

As razões que levam alguém a investir uma soma tão elevada num sistema de som doméstico vão do calculismo do investimento (as edições limitadas tendem a valorizar-se com o tempo) ao desejo de posse e à vaidade de ter (aquilo que os outros não têm). Acontece muito no mercado da arte.

Há os que compram porque gostam e podem. Poucos. Os que podem e sabem apreciar o que ouvem. Menos. Os que não sabem nem podem. A vasta maioria. E os que gostam, sabem apreciar e não podem (nos quais me incluo humildemente).

O que só torna mais válido o aforismo de que ‘é mais fácil tornar um rico audiófilo que tornar um audiófilo rico’.

Mas quem melhor do que um audiófilo (pobre) para apreciar algo que nunca poderá comprar, situação ideal pois torna a questão do preço irrelevante, e liberta-o assim do ónus dos custos associados, que não tem de suportar?

Na primeira audição, sentei-me o tempo todo na sweet spot, o ponto de focagem e de encantamento, que me levou a escrever isto: Wamm, uma experiência emocional’. Nota: basta clicar sobre o título para abrir.

Na segunda, sentei-me anonimamente num canto, lá atrás, esquecido do mundo, esquecido de mim, como canta Marisa. E não fiquei menos emocionado por isso.

Seguiu-se uma visita privada com os meus próprios discos. Senti que faltava qualquer coisa. O proverbial je ne sai quoi. Seriam as master tapes de Peter McGrath? Seria a ausência da envolvente humana, como quando assistimos a um concerto sem público? Ou será que, de tão humanas, as Wamm também ‘têm dias’, como todos nós?...

Voltei lá uma semana depois, com um único disco na mão: Messiah, de Händel, com os English Baroque Soloists e o Monteverdi Choir, dirigidos por John Elliot Gardiner. Manuel Dias avisou-me logo: ‘elas hoje estão simplesmente fantásticas!’, como que reforçando a minha ideia de que as Wamm são um ser sensível e não um andróide electromecânico saído do filme ‘O Quinto Elemento’.

Ao meu lado, estava um dos mais reputados wilsonistas nacionais, com quem já partilhei múltiplas e variadas audições, incluindo uma inesquecível, a das Wilson Audio Alexandria, que ficou registada para memória futura num artigo publicado no DNA e intitulado: ‘O Paraíso existe’. Nota: para ler clique sobre o título ou abra o pdf no final do artigo).

Também ele ia na sua quarta visita e levou consigo apenas um disco: ‘A Sinfonia do Novo Mundo’, de Antonín Dvorák, pela Orquestra Sinfónica de Chicago, dirigida por outro deus da batuta: Georg Solti.

Chegou o Messias, Aleluia!

Já tenho este Messias, dirigido por John Eliot Gardiner, há mais de 30 anos. Assim como tenho o de Christopher Hogwood e o de Trevor Pinnock. O registo é dos primórdios da gravação digital (Philips DDD, Londres 1982) que, segundo os analogistas, sofria à época de digitalite aguda. Com as Wamm, o CD soou-me como uma das master tapes de Peter McGrath.

Nota: Uma referência é aqui devida ao equipamento associado: dCS Vivaldi One, Dan D’Agostino Momentum HD/Relentless monoblocos e cablagem Transparent Opus II, porque as Wamm não tocam sozinhas....

Ouvi este disco centenas de vezes, incluindo com as Apogee Duette II, alimentadas por monoblocos da Krell, que é talvez a minha melhor memória da sua audição. Mas nunca tinha tido esta sensação tão real de ter a orquestra e o coro na sala à minha frente.

A imagem é tão estável que eu mudei da sweet spot para a cadeira ao lado e o palco sonoro manteve-se inalterado, apenas a perspectiva mudou, tal como num concerto ao vivo. Ao contrário do que acontece demasiado frequentemente no hifi, o ‘palco não fugiu’ para o canal mais próximo. Continuou lá no mesmo sítio. Eu é que me desloquei.

Ao fim de um tempo, nós sabemos exactamente onde está cada um dos membros do coro e da orquestra (ou onde o engenheiro de som os colocou, já lá vamos), conhecemos-lhes a voz e a ‘fisionomia’, só falta tratá-los pelo nome…

Os músicos e cantores apresentam-se num palco amplo que não está limitado pelo espaço entre as colunas, que desaparecem para nos mostrar o que está além, aquém e para lá delas, sem hiatos ou descontinuidades.

A gravação foi feita na Igreja de S. João Evangelista, em Londres, com o coro e a orquestra colocados em dois semi-círculos, frente-a-frente, e o maestro no meio. Múltiplos microfones foram colocados acima de cada um dos naipes. Mas a sensação que temos é a de um registo ao vivo, num palco real, amplo, se bem que pouco profundo, com apenas um par de microfones cruzados.

De facto, o que as Wamm revelam aqui não é a realidade mas a arte e técnica dos engenheiros da Philips, que recriaram o espaço musical na mesa de mistura, muito provavelmente também eles dirigidos pelo próprio John Eliot Gardiner, utilizando a vasta paleta de tons, timbres e dinâmicas para pintar uma tela panorâmica sem erros de perspectiva a partir de blocos de naipes e texturas.

No coro misto, Gardiner optou por mulheres no lugar das crianças (há uma única criança soprano: Saul Quirke), porque a tonalidade mais quente da voz das mulheres-soprano produz um melhor equilíbrio tonal com as cordas dos instrumentos da época. Das vozes às cordas, tudo soa tão natural que comove. E assusta. Gardiner iria gostar de ouvir a sua obra com as Wamm.

O coro Monteverdi é soberbo, tanto técnica como musicalmente, e Gardiner dá-lhes mais liberdade interpretativa que Hogwood, sobretudo a Margaret Marshall, que ornamenta algumas frases com um vibrato tão ligeiro, que só as Wamm me permitiram detectar em: ‘I know my Redeemer liveth’, assim como a diferença subtil na articulação do fonema ‘th’, substituído no Inglês moderno por ‘s’. Porque, mesmo quando se canta Deus, o diabo está nos detalhes…

Ou o ritmo contagiante e a energia da Aria ‘Rejoice greatly’em compasso 12/8, com a orquestra e o coro a demonstrar uma exuberância dinâmica e rítmica validada pelas Wamm sem qualquer hesitação.

Hallelujah, the Wamm liveth! E dá vida a tudo o que toca…

A aclamação final ‘King of Kings, and Lord of Lords’ do coral Hallelujah, que anuncia o triunfo e ressurreição de Cristo, é repetida por todo o coro e energizada por exclamações de Hallelujah, nas quais é possível detectar a diferença de timbre entre Margaret Marshall e Saul Quirke (boy soprano) integrados no coro e pairando sobre a massa orquestral. Deslumbrante.

E que melhor forma de fechar esta audição que a Sinfonia do Novo Mundo, de Dvorák, o novo mundo onde as Wamm nasceram e se desenvolveram, com todos os recursos do ritmo, da harmonia, do contraponto e das cores da orquestra moderna, segundo o próprio; e que as Wamm reproduziram de forma assombrosa: do toque distante da trompa aos vigorosos sobressaltos da percussão, das cordas e dos sopros; do tema cíclico presente em todos os andamentos, ao finale com as súbitas mudanças de atmosfera: do clarinete pensativo à densidade orquestral poderosa e rica.

Vou ter saudades das Wamm, que 'tão cedo da minha vida se partiram…'

                  JVH

P.S. A ideia era testar as Wamm, mas fui eu que acabei testado…

Wilson Audio Wamm na Imacustica

Wilson Audio Alexandria, O Paraíso Existe.

Artigo publicado no DN em 07/10/2005