2007

Hifishow 2007 - Parte 4 - Sons Brilhantes: Absolut E Polifer



Os tweeters que gostam de dar nas vistas estão na moda no reino da Dinamarca. Veja-se o delicioso brilhozinho nos olhos das Elipsa. Não é defeito, é feitio. No espaço do Hifishow 2007, o oposto residia na sala da G&P Audio: as Olissipo, cujo tweeter pecava por defeito. Também é dinamarquês, da ScanSpeak, mas Luís Pires cortou-lhe o pio com resistências. Significa isto que estamos perante colunas com defeito? Não, de todo.


A grandeza da humanidade reside na diversidade, a da alta fidelidade também. Ninguém é perfeito, mas se, à partida, tiver bom carácter, tem também muitas hipóteses de se tornar num ser humano decente e aceite pela generalidade das pessoas, mesmo que, por vezes, se torne irritante ou chato. Alguns irão mesmo ter o merecido sucesso na vida. Basta que saibam adaptar-se às circunstâncias com classe, mesmo que estas sejam adversas.


AUDIOVECTOR/MCINTOSH
Sala da Absolut, onde brilharam as Audiovector MI3, com electrónica McIntosh


Tal como a sala da ARTAudio/B&W/Nuforce, a da Absolut tinha as dimensões ideais, e estava igualmente bem gerida, pelos amigos Carlos: Delgado e Abreu, felizes por passarem da condição de revendedores à de distribuidores (haverá algum revendedor em Portugal que não sonhe ser distribuidor?...), e logo com uma marca de colunas de respeito: Audiovector.


A electrónica tinha os olhos azuis da McIntosh, uma paixão antiga deste vosso escriba, pelo que o concerto prometia. No Sábado, passei lá de raspão só para fazer as fotos da praxe. A demonstração devia estar no clímax final, porque se ouvia Exotic Dances, da Reference Recordings, a níveis bíblicos. De pé e de lado, demasiado apressado e desatento, achei o som um pouco brilhante, talvez devido ao nível excessivo de pressão sonora exigido pelo timoneiro.


No Domingo, já foi possível sentar-me na sweet spot e ouvir com atenção Diana Krall, who else?, cantar, como só ela sabe, Popsickle Toes: muito humor, bom swing, boa dicção, com a sibilância da diva sob controlo do que me parecia ser um ribbon-tweeter - cuidado, as aparência iludem! -, e a voz foi muito bem tratada pelo cone de médios, com a limpeza típica dos altifalantes dinamarqueses. Como é que esta mulher casou - e parece que é feliz - com o javardão do Elvis Costello?...


Os “Quadros”, de Mussorgsky, pintaram uma imagem estéreo de grande qualidade, com boa localização no espaço - e no tempo: bom sentido rítmico. Muito bem também o fundo de palco: espaçoso e iluminado.


Nas minhas notas, pode ler-se: leveza de carácter, cores vivas, agudo algo vivace, mas o desenho dos médios tem definição e gostei ainda do traço fino do grave superior e do bom acoplamento acústico do grave com a sala.
Audiovector MI3, elegância e classe nórdicas


Achei graça ao pormenor de design do fole (Superstand) que serve de base às colunas, dando a sensação que estão inclinadas para a frente: ilusão de óptica? É que bastaria incliná-las para trás para compensar o ligeiro uptilttonal. Ou talvez seja pelo facto de o tweeter Avantgarde AMT, baseado na tecnologia Air Motion Transformer, de Oscar Heil, esse mesmo, o criador das Heil, distribuídas em Portugal pela Pestanaudio, ter uma resposta que se estende até aos 50kHz!


A Audiovector MI3 Avantgarde é uma coluna que ficou na short list da minha memória auditiva. A rever com urgência.


DYNAUDIO/BURMESTER
Sala da Burmester/Dynaudo. O integrado 032 está no plano inferior à esquerda


A história repetiu-se. Passei lá no Sábado, a música estava aos gritos, fiz umas fotos, conversei com o meu amigo Vítor Torres e saí, na ânsia de ir cumprimentar todos os expositores primeiro para depois lhes poder “bater” com simpatia e amizade.


No Domingo, voltei acompanhado pela minha esposa. Foi a pensar nos ouvidos dela que o SACD foi criado: consegue ouvir uma agulha a cair num palheiro! Há mais de 20 anos que me tem acompanhado por esse mundo do áudio fora, e já ouviu os melhores equipamentos de som do mundo, motivo por que tem grande admiração pela Burmester.


Na Polifer, ouvia-se música andaluz: vozes, guitarras, palmas, num concerto ao vivo. O som estava altíssimo e os sons agudos, embora limpos e sem qualquer tipo de distorção, nem seria de esperar outra coisa da electrónica Burmester, que é, sem dúvida, do melhor que se fabrica na Europa e no mundo, soavam-me realmente como agulhas afiadas. Estas até eu as ouvia a cair num palheiro...


Já ouvi as Dynaudio Contour C2 em muitas ocasiões e recomendo-as sem hesitação, embora prefira as colunas Burmester. Ainda pensei que o problema era do CD, mas reparei que o que estava a tocar era afinal um LP, e logo num belíssimo Transrotor ZET 3.


As cordas das guitarras faziam sangrar os dedos dos músicos, de tão afiadas; as palmas ritmadas das ciganas soavam como estalinhos de Carnaval; e, no final, a ovação do público - o do disco - estrelejou no ar como foguete em adro de Igreja.


Saí triste, porque, ao contrário do que alguns apregoam por aí, eu gosto de gostar das coisas, e de deixar as pessoas felizes pelo reconhecimento do seu esforço e trabalho. Ninguém gosta de ser criticado - eu também não. Mas tenho um dever ético e de consciência para com os meus leitores. E havia ali algo de acusticamente muito errado.


Ainda por cima, estava presente um grande amigo e audiófilo emérito, João Velez, colaborador da Polifer. Quando me despedi, disse-lhe:


Desculpa lá, João, mas este não é o som Burmester que eu conheço e aprendi a admirar (e a cobiçar) nas minhas visitas anuais ao Highend Show, de Frankfurt/Munique.


Es tut mir sehr leid...


No dia seguinte, o João Velez telefonou-me:


JVH tinhas razão, pá! Alguém sabotou o nosso set-up original e puxou os agudos em 10dB!...


Até aqui tudo bem, erro ou sabotagem, o integrado 032 tem, de facto, Tone Control für Höhen und Bässe, e nos shows há muita gente a mexer onde não deve. Quando é que mexeram? No Sábado, no Domingo, 5 minutos antes de eu entrar? Mistério...


A Burmester e a Dynaudio não precisam de desculpas, pois a qualidade dos seus produtos é inegável. As coisas nem sempre correm bem, e eu também cometo erros, e por isso mesmo não apostava a minha vida num teste cego. O que me espanta é que ninguém tenha dado por isso. E mais espantado fiquei quando ouvi pessoas a comentar à saída que “aquilo sim, é qu'é um g'anda som, está lá tudo no sítio, porra!...”.


Ele há, de facto, gostos para tudo, porra!; e gostos, diz o povo, não se discutem...