2004

Reimyo Cdp-777: Bomba Digital (parte 1)



Reimyo-CDP777


Da união de esforços da Combak Corporation, do «guru» Kazuo Kiuchi, que se especializou no controlo de ressonâncias; Kyodo Denshi, fabricante de instrumentos mecânicos de elevada precisão; e JVC, que inventou o processo K2 de conversão e masterização utilizado no registo dos XRCD, resultou este autêntico tanque de guerra: sólido, pesado e ...de carregar por cima. A tampa manual do Reimyo, em acrílico castanho-fumado é o único toque de leveza em todo o conjunto. Embora eu ache que devia ser opaca para evitar interferências da luz externa.



CD e nada mais que CD


O Reimyo CDP-777 é um leitor-CD tout court: reproduz apenas CD. Nem SACD nem DVD. Nada, portanto, que possa justificar o preço de 14 000 euros que pedem por ele, numa época em que com apenas 100 euros se pode comprar um modelo montado na China, que reproduz tudo incluindo DVD.




A vingança de Kazuo Kiuchi



No circuito internacional do highend, Kazuo Kiuchi nunca foi muito respeitado como guru. Há até quem o veja mais como «vendedor-de-banha-da-cobra», que propõe soluções miraculosas de controlo de ressonâncias, com base em estranhos objectos que mais parecem comprimidos dourados; e que, uma vez abertos, revelam ter lá dentro um pequenissimo diapasão que lembra um símbolo esotérico. Aliás, todos os «produtos» da Harmonix têm lá dentro uma espécie de cruz, que não será gamada, mas que nos fazem sentir «gamados» pelo preço que Kiuchi pede por eles. A Harmonix também comercializa os Enacom: «filtros» que se colocam nos bornes das colunas ou nas entradas dos leitores-CD para «domesticar» o som. Nada disto tem uma explicação científica plausível, tal como as «mézinhas» de Peter Belt nunca tiveram. A verdade é que, por qualquer motivo que eu desconheço - e ele não explica -, funcionam. Desde que coloquei os Enacom nos bornes de todas as colunas que oiço regularmente - os testes são feitos ao natural, sem Enacom - nunca mais os tirei: a melhoria ao nível do agudo é notável. E os «comprimidos» eliminam colorações, se não as «objectivas» pelo menos as «subjectivas». As ressonâncias e colorações do CDP-777, se as havia, foram controladas. Por Kiuchi? Até podiam ter sido pelo diabo, for all I care.

Ora o Reimyo CDP-777 é a vingança de Kazuo Kiuchi sobre todos aqueles que o gozaram, quando não mesmo caluniaram. Qualquer que tenha sido a sua quota parte no resultado final ela é positiva, porque não encontrei nada de manifestamente negativo no som do Reimyo CDP-777. Nem eu, nem ninguém, a avaliar pela crítica underground internacional: 6moons; enjoythemusic; ultraaudio; e a normalmente reservada Hi-Fi Plus.


Nome de código: K2


O processador K2 criado pela JVC não é mais que uma variação das técnicas de «oversampling» concebidas pela Philips para resolver o pecado original da opção pelos 16-bit quando o «chip» TDA 1540 q«só» tinha 14-bit. O K2 opera com uma resolução interna de 24-bit e faz o «oversampling» do sinal original para 176.4kHz. A que se segue o «4X upsampling» ao nível dos filtros digitais para 705.6kHz, o limite dos DACs utilizados (96kHzx8): Burr-Brown PCM-1704 (são multibit e não do tipo delta-sigma vulgarmente designados por bitstream mais sensíveis ao jitter).


Os leitores interessados podem ler aqui e aqui artigos interessantes sobre técnicas de «oversampling» e «upsampling» e as suas vantagens, nomeadamente a possibilidade de se utilizarem filtros analógicos de pendente suave em lugar dos tradicionais «brickwall» que provocam rotações de fase acusticamente inaceitáveis.


Nunca fui grande adepto do «oversampling»/«upsampling» por si. Quando testei os dCS - e mais recentemente o Teac DV-50, cujo R-Dot é um «clone» do K2 - comentei que subir vertiginosamente a frequência de amostragem acima dos (700 kHz!) nunca me soou como a panaceia universal para a «digitalite» (ver Teac DV-50: Esoterismo Digital). Até porque a sensibilidade ao «jitter» aumenta exponencialmente. E, de qualquer modo, não é alegadamente possível ir buscar ao disco mais informação do que foi registada no original. Contudo, tal como está implementado pela JVC, o «oversampling» resulta mesmo: não temos só mais informação, temos melhor informação. Assim, ao contrário do Teac, ao qual atribuí 16 em 20 na reprodução de CD, o Reimyo atinge o topo da escala com 20/20 (ver O Juízo Final).



Reimyo CDP-777 e Chord DAC64: divórcio litigioso


Objectivamente o desempenho electromecânico do sistema de transporte/leitura do Reimyo CDP-777 não é nada que se pareça com o resultado sonoro, que é deveras excepcional. O Reimyo não conseguiu ultrapassar o «drop-out» de 1mm simples ou sequencial do disco teste da Pièrre-Verany. Em termos práticos, isso tem pouco valor, uma vez que a norma do Red Book apenas exige um mínimo de 0,4mm. Contudo, também não consegui utilizar o Reimyo como transporte do Chord DAC64, porque este se recusava a fazer o «lock» (saída BNC), o que é normalmente sinal de «jitter» mecanicamente induzido a montante. Mudar de cabo digital do Siltech (o meu preferido) para o Nordost Valhalla ou outro não alterou esta situação.Nota: a minha versão do DAC64 é da 1ª geração e tem uma janela muito apertada.


Distribuidor: Ajasom, 21 474 87 09 . ajasom@mail.telepac.pt



Continua (ver Reimyo CDP-777: O Juízo Final em Artigos Relacionados)