2004

Reimyo Cdp-777: O Juízo Final (parte 2)



Reimyo CDP-777 (fotografado no Audioshow04, na sala da CdA)


A voz de Brel


Uma das muitas faixas que utilizo amiúde como referência acústica é «Jojo» de Jacques Brel. É uma peça aparentemente simples: guitarra registada em cima no canal esquerdo, voz fortemente centrada e uma sobreposição posterior de guitarra «atmosférica» em fundo.


A interpretação de Brel, contudo, é de extrema complexidade vocal: das inflexões e técnica de respiração; da dicção perfeita, com todas as sílabas sublinhadas e encadeadas num crescendo de emoção; até às palavras àsperas que lhe brotam da alma em catadupa, depois de previamente humedecidas em saliva para suavizar os érres que rolam na língua como seixos em leito de rio precipitando-se para a cascata de sentimentos que nos inunda a alma.


Já ouvi «Jojo» reproduzido de muitas formas: da puramente mecânica à profundamente humana. O disco é o mesmo, o intérprete também, a música não. Numa outra canção, há um aviso de Brel: «La vie ne fait pas de cadeaux». É de facto angustiante que para extrair até à última gota de «humanidade» presente em «Jojo» se tenha que pagar tanto dinheiro pelo Reimyo CDP-777. C'est la vie!...


O piano de Valentina


Ao fim de muitos anos de experiências, concluí que, se um componente reproduz bem a voz humana e o piano, normalmente reproduz bem tudo o resto. O Reimyo é transcendente em ambos os casos e deita por terra a ideia feita de que o som digital é desprovido de musicalidade intrínseca porque alegadamente reduz a música a uma sequência de números. Também a chave do euromilhões é uma sequência de números e pode dar bem estar a uma pessoa. O que é preciso é acertar! O algoritmo de conversão K2 da JVC serve-se de técnicas sofisticadas de «oversampling» e «upsampling» que parecem acertar sempre em cheio na música.


O piano é um instrumento percutivo. E é assim que soa com a maior parte dos leitores-CD: martelado. Tenho um disco de Valentina Lisitsa, uma virtuosa russa, que interpreta Liszt num Bösendorfer Grand - o registo de Peter McGrath é fabuloso. Valentina não será a melhor intérprete mundial de Liszt, admito, mas é por certo a mais espectacular: foi treinada desde tenra idade para vencer concursos. O poderoso instrumento vibra e faz-nos vibrar com a força das suas interpretações. Já ouvi este disco centenas de vezes. O som do impacte inicial é composto pela vibração quase imperceptível da madeira do martelo amortecida pelo feltro, o transitório da frequência fundamental da corda percutida, a que se segue a míriade de harmónicos da vibração, prolongada ou abortada pelo pedal, e a ressonância da caixa. Para não falar nos sons de palco: movimento do corpo, respiração, desfolhar de pautas, ranger de cadeiras. Tal como refere Peter Moncrieff na IAR em relação ao som do VTL Siegfried, com o Reimyo CDP-777 o som do piano resulta claramente da interacção destes três materiais distintos: a madeira e o feltro dos martelos, o metal das cordas e a madeira da caixa. Mas há mais: o timbre do piano altera-se em empatia com o estado de espírito da pianista e deixa transparecer a força exercida sobre as teclas, que pode ir da carícia ao golpe violento e decidido. É isto que distingue um piano verdadeiro dos sintetizadores que os tentam imitar: a empatia emocional e física entre músico e instrumento resultante da resposta ao contacto. Com o Reimyo a dor, a angústia, a raiva, o despero, a paixão, a alegria estão indelevelmente marcadas em todas as notas. E não era isso que distinguia a divina Callas?


CDP-777 vs DAC64


Finalmente encontrei um leitor-CD integrado que se superioriza ao meu conversor Chord DAC64. Concedo que em muitos aspectos se assemelham: nomeadamente na «substância» da imagem estereofónica que é habitada por seres de carne e osso que deslocam o correspondente volume de ar à sua volta como um casulo transparente; e não apenas por vagas projecções ectoplásmicas, que se sobrepõem no tempo e no espaço numa fusão artificial, impedindo assim o ouvinte de seguir os percursos individuais de cada músico.

Só que o Reimyo tem mais definição e as «cores» são mais naturais. Mesmo os melhores leitores-CD têm uma «temperatura» de som fria. Como se a temperatura das cores do som pudesse ser medida também em graus Kelvin e manipulada no Photoshop como sucede na fotografia digital. Mais elevada e as cores tornam-se frias e azuladas, mais baixa e ganham os tons quentes do sangue. O DAC64 é um pouco mais «quente» e isso esbate ligeiramente os contornos. O Reimyo tem a temperatura ideal, algo que é aparente em toda a gama do espectro audível e tudo ganha em definição.


O grave é o melhor que já ouvi a partir de um CD: é poderoso sem ser enfático, definido e articulado sem se tornar demasiado tenso; desce ao inferno da última oitava com a pose serena do herói mítico em busca do fogo sagrado. A resolução é de tal ordem que as nuances que definem o timbre dos diferentes instrumentos permitem identificar a sua génese acústica ou electrónica com uma claridade que não cessa de me deslumbrar. Seguir a linha do baixo com o Reimyo já não é apenas uma metáfora piedosa do crítico à míngua de palavras grandiloquentes e eufemismos vazios de sentido, é um dado adquirido e repetidamente comprovado, logo objectivo.


A focagem de vozes e instrumentos é perfeita e parece ser independente do número de efectivos em palco. Mais extraordinário ainda é o facto de esta capacidade não ter sido obtida à custa de uma iluminação excessiva do palco sonoro. O Reimyo pode até soar «escuro», admito. Mas, quando os olhos se habituam à escuridão, os intervenientes ganham forma e tornam-se tangíveis, parecendo emanar deles partículas subtis de luz interior que os individualizam sem que se verifiquem choques físicos (o palco é amplo e profundo e há espaço para todos) ou de personalidade (a variedade tímbrica chega a ser exaltante), algo que só se experimenta com os melhores gira-discos analógicos.



Ora, isto é tanto verdade para os que estão na boca do palco como para os que estão colocados discretamente lá atrás. Com o Reimyo os músicos com «papéis» secundários não são abafados pelo solistas: mesmo os sons mais insignificantes são audíveis. Há quem lhe chame riqueza de detalhe, que paradoxalmente se obtém com um pouco de compressão dinâmica (a compressão «encurta» a diferença entre os sons de nível mais baixo e mais elevado, realçando os primeiros). Eu aqui prefiro a expressão «solidariedade acústica», porque a dinâmica não revela limitações óbvias e todos os sons sem excepção são importantes para o resultado final.



Será que apesar ou sobretudo pelo que fica dito se justifica alguém pagar 14 000 euros por um leitor-CD? Respondo com outra pergunta: será que as horas de um Rolex têm mais minutos que as de um Swatch?...