2004

Halcro+stradivari+valhalla




Halcro+Stradivari, Sala Genéve, Hotel Marriott, Lisboa


A Esotérico, ao associar-se à Absolut Sound and Vision, para apresentar os Halcro no Hotel Marriot, com chá e bolinhos, acabou involuntariamente por proporcionar aos audiófilos alfacinhas (e arredores) um espécie de «tira-teimas»: os Halcro já tinham estado na Transom com as BW 802 Nautilus, e as Stradivari exibiram a sua classe recentemente no Hotel Méridien, apoiadas no braço musculado dos Krell (série X).
As habituais críticas e elogios choveram, e foi interessante ver até que ponto coincidiam nos aspectos positivos e negativos. Na Transom, houve quem achasse os Halcro algo frios e anémicos; no Méridien, as Stradivari foram criticadas pelo excesso de graves. Em ambos os casos, a culpa foi do mordomo, ou seja, da sala...


A minha opinião sobre os Krell 400cx, Halcro dm10/58, Sonus Faber Stradivari e Nordost Valhalla está publicada, pelo que, ao contrário de alguns «políticos», não posso dar o dito por não dito. Nem pretendo fazê-lo. Aliás, vou mais longe: mantenho tudo o que escrevi (e que pode ser lido aqui no Hificlube), mas reservo-me o direito de alterar a minha opinião. Os leitores podem fazer o exercício lúdico de me confrontar com as minhas aparentes contradições, porque eu saberei sustentá-las com argumentos. Por vezes, são apenas «nuances», que dependem mais do contexto que do texto. Ora, em pouco tempo, ouvi as Stradivari em três contextos diferentes, com resultados também diferentes. Mas o essencial manteve-se sem alteração. E eu, meus amigoszzz, em tudo o que é essencial não pactuo.


Os Valhalla de coluna são os melhores cabos que já tive oportunidade de integrar no meu sistema: resolução, dinâmica, velocidade, neutralidade, subtileza e poder, está lá tudo! Cinco minutos depois de os trocar por qualquer outro cabo, de qualquer preço, origem e tecnologia, estou a ouvir colorações que antes me soavam como musicais e agora me soam como harmonicamente desfasadas. Parto, pois, do princípio, que, a haver algum crime de lesa música no Marriott, não foram eles os culpados.


O Krell KPS28c não é o meu leitor-CD preferido, confesso. É algo «anafado» nos registos médios e graves e não prima pela focagem: tem uma imagem maior-do-que-o-real. O «corpo» tem vantagens óbvias em certos sistemas, mas as belas italianas são um «mulherão» de coluna e já têm «corpo» que chegue, benza-as Deus! Esta duplicação «corporal» pode ter tido alguma influência na crítica justa que mais se fez ouvir no Méridien e que foi atribuída por unanimidade à sala. Mas também não é por aqui que o gato vai às filhós. Utilizei um KPS28c no meu sistema durante meses com agrado, e aprendi a tirar dele o melhor partido. Os indícios não são suficientes para lhe aplicar mais do que a medida de coacção de termo de identidade e residência. Mesmo que certas testemunhas mais imaginativas o acusem com provas no decorrer do processo, vai safar-se com uma pena leve. Halcro dm10/58 e Krell Kps28c, les beaux esprits...


Na inexplicável (e inaceitável) ausência de um gira-discos, o belo KPS25c teria sido uma aposta mais correcta, admito, tanto em termos acústicos (é mais definido, focado e seco) como de classe pura e adequada às forças em presença. A imagem também conta...


No Marriott, o «peso» dos graves das Stradivari foi substituído, hélas, por aquilo que os americanos designam por «ill-defined bass». A causa (desculpa?) pode ter sido o revestimento de madeira (o malfadado pladur com caixa oca?) das paredes. O meu cérebro consegue compensar melhor o inefável peso do som que a insustentável ausência de definição. Talvez por isso me tenha emocionado mais no Méridien que no Marriott. O coração não se comove quando a razão está demasiado ocupada. Também é verdade que a insistência em faixas de discos com muita reverberação, mal registadas num CD-R, associada ao que se pode, desde já, considerar como uma característica intrínseca das Stradivari - a tendência para «ampliar» o palco e com ele o seu «conteúdo» - pode ter tido alguma influência no meu diagnóstico. Numa segunda fase, com peças de música barroca e um andamento da «Fantástica» reproduzido a um nível de pressão sonora abaixo do desejável, por imposição «dermatológica» (refiro-me ao Congresso ao lado, não à pele de galinha), as Stradivari e os Halcro provaram que alguns podem estar enganados durante algum tempo mas não podemos estar todos enganados durante o tempo todo: este é um sistema superlativo de reprodução de música gravada.


As Stradivari não primam pelo «foco estéreo», já o afirmei repetidamente. Tal como sucede com as colunas electrostáticas (e elas soam como electrostáticas musculadas...), são «direccionais»: basta desviarmo-nos um pouco do centro acústico, e a imagem acompanha-nos num movimento solidário. Contudo, têm uma capacidade única de «soltar» a música: os sons ricos de tonalidades naturais envolvem-nos como bolas de sabão coloridas que aumentam de tamanho até nos engolirem num casulo protector e transparente. Ficamos assim isolados do mundo e, ao mesmo tempo, atentos a tudo o que se passa no palco: os metais dilaceram o ar que os envolve e são projectados na nossa direcção intactos no timbre e na tonalidade; as cordas são partidárias da unicidade, a união dentro da individualidade; as vozes não são entidades abstractas, fazem parte de seres concretos; às percussões faltaram tanto a tensão e definição que eu experimentei em Itália como o poder abusivo e tirânico exibido no Méridien. Paciência.
Audiófilos em transe no Marriot

Não posso dizer que os Halcro me desiludiram porque já tive o prazer de os ter em casa e aprendi a respeitá-los com o tempo. Sei do que são capazes. Aqui e ali ouvi uma inesperada modulação (não me arrisco a qualificar o que ouvi de distorção, num amplificador que alegadamente a não tem) na voz de outro modo belíssima de um(a) soprano com laivos de mezzosoprano que não reconheci, como se o amplificador estivesse em esforço (?). Será que as paredes da sala sugavam o som e a potência debitada era superior à percebida?


De uma maneira geral, os Halcro provaram por que motivo são tão elogiados em todo o mundo: têm uma personalidade única que decorre da correcção tímbrica, coerência tonal, estabilidade eléctrica e, repito, ausência de distorção. Admito que, no Marriot, soaram um pouco frios, melhor, cerebrais, por oposição à emotividade proporcionada pelos Krell no Méridien, para utilizar uma expressão de outro grande audiófilo, João Jarego aka Vermeer, o «cérebro» do Clube do Audio. Para mim só não têm o poder que outros lhes atribuem: na presença da dor, sofrem como Cristo e todos nós, humanos. Pai nosso, dai-nos a música nossa de todos os dias. De preferência com um sistema como este. Amén.


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