2004

Som Absoluto - Parte Iii



Na minha óptica, quando alguém se refere a um sistema como sendo realista o que está a dizer é que - nos aspectos que mais valoriza - a forma como a música é reproduzida vai ao encontro dos seus anseios.


Eu valorizo o 'ar', a textura, a nuance como o corpo e decaímento das notas são tratados (e não apenas dar ênfase ao ataque para parecer mais rápido e detalhado ... mas essa também é outra 'estória'), a tangibilidade física do espaço e intérpretes com sendo aspectos essenciais da reprodução musical. Daí achar o Ongaku uma peça extraordinária; Outra pessoa pode achar, com igual justiça, que o realismo dinâmico é um aspecto essencial da reprodução da música e ficar fascinado com o headroom de um Krell (4). 'Quem está certo?' para mim não é essa a questão. Ambos estão certos e ambos estão errados. Ninguém valoriza de igual modo todos os aspectos nos quais se pode dissecar o desempenho de um componente. Porque nem o nosso gosto musical é o mesmo, nem aquilo que nos faz sentir mais próximos da música (e nem sempre é isso que os audiófilos procuram) é mesmo. Daí duas pessoas podem destacar o *realismo* de sistemas que soam dramaticamente diferentes - pela simples razão de que fazem bem coisas diferentes. Tal como pessoas diferentes de modos distintos.


Eu, pessoalmente, prefiro não utilizar o termo realista. Acho-o vago e perigoso.


Eu não quereria (a não ser muito excepcionalmente) ter a BSO a tocar na minha casa. Há a música ao vivo e há a música em casa. Uma não substitui a outra. Vejo os equipamentos de áudio como instrumentos ao serviço da construção de uma realidade. Porque é de uma realidade construída que se trata. As grandes criações, como a de um Kondo (entre outros), entendo-as como arte. Tal como a pintura de Miguel Ângelo ou de Pollock, a arquitectura de Bruneleschi ou de Mies van der Rohe, ou a fotografia de Ansel Adams ou da Cindy Sherman, a música de Bach ou de Coltrane, uma criação do Kondo consubstancia a visão do seu criador. São uma visão com a qual nos podemos ou não identificar. A criação de um Kondo, de um Shindo, de um Simon Yorke tem um 'Pathos'. É pessoal, idiossincrática e é assumida como tal. Resulta da passagem para um aparelho da concepção que os seus criadores têm do que há de essencial na música e de como esta deve ser transmitida. Da sua sensibilidade, da sua forma de estar, da sua experiência de vida.


Quer isto dizer que devemos capitular perante o subjectivismo absoluto? Que qualquer espécie de apreciação subjectiva é inútil porque reflecte apenas uma opinião pessoal? De modo nenhum. Uma apreciação bem escrita e aprofundada é muitíssimo útil ... mesmo que eu procure o oposto do reviewer. É necessário, para tal, que o reviewer seja claro em relação aos seus 'bias' e que saiba verbalizar o que ouve. O que o componente faz de melhor e o que faz menos bem. Cabe a quem lê perceber qual o grau de adesão dessas características ao que procura.


O texto contém mais provocações do que “certezas”. Não aspira a estar “certo”. Apenas a catalisar a discussão. Mais do que para “ensinar”, escrevi-o na esperança de aprender com todos quantos tenham uma opinião para partilhar sobre este assunto.


Agradeço ao meu amigo João Ranito as discussões fecundas no domínio do Áudio vs. Fotografia e que dariam, por si só, material para um novo texto.



João Jarego


Clube do Audio


Notas:


4 - Tenho que fazer à Krell a justiça de reconhecer que, nos dias de hoje, oferece bem mais que um headroom virtualmente ilimitado.