2004

Dilema: Theta Generation Viii - Parte I



A crítica de áudio tornou-se numa gigantesca «paráfrase»: o tempo é tão curto e a ânsia de ser o primeiro é tanta que o crítico se limita frequentemente a transcrever do manual as características e forma de funcionamento, fazendo suas as palavras alheias. Depois é só juntar uma opinião mais ou menos pessoal fundamentada na alegada experiência do crítico. O amadorismo grassa nesta área como erva daninha - eu próprio não passo de um amador, confesso, ainda que, parafraseando MEC, no sentido estrito daquele que «ama o que faz».


O leitor não deve, portanto, acreditar em tudo o que lê nos jornais, nas revistas e, muito menos, na Internet, onde o «erro» se propaga à velocidade da luz: muitas das «opiniões» nos fóruns não são tão ingénuas assim - as marcas também têm departamentos informáticos e estão atentas ao que se passa na net...


Antes de ser «crítico», sou, sobretudo, leitor. E pergunto-me amiúde o que me leva ainda a ler sobre equipamentos que não pretendo comprar. Logo agora, que conheço pessoalmente a maior parte dos críticos mundiais e, salvo raras excepções, não lhes reconheço qualquer competência especial para me dizerem o que é bom ou o que não presta.


Leio apenas pelo prazer da leitura, como gosto de ler sobre carros e máquinas fotográficas que nunca terei, restaurantes que não pretendo frequentar e outros temas que não me dizem directamente respeito. Gosto de ler bons críticos de áudio, como gosto de ler a Clara Ferreira Alves, o Mega Ferreira e o Sousa Tavares, mesmo quando não concordo com eles e já lhes (re)conheço os preconceitos e os tiques (e truques) jornalísticos e literários. Raras vezes me lembro do que li. «Leio por ler» aquilo que eles, suponho, «escreveram por escrever». O meu prazer de leitura é, pois, momentâneo e depende da forma mais que do conteúdo: do tema pouco retenho na memória, interesso-me, isso sim, pela boa qualidade da escrita. E por isso a ela volto semanalmente, como num ritual pagão. Para me divertir mais que informar. Vasco Pulido Valente é um caso à parte: usa concentrado de cultura na ponta da caneta - é incisivo, cru e frontal, e sabe dosear verdade e cinismo com maquiavélico requinte. Não diverte, provoca. Gostava de ter esta capacidade (e coragem ) para dizer o que penso com palavras curtas e certeiras.


Sem querer colocar-me a par de tão ilustres cronistas, é isso que eu tenho tentado ao longo dos anos. Já fui um crítico de áudio na acepção corriqueira da palavra. Criei na Imasom e na Audio a «crítica chapa 4»: descrição (óbvia, basta olhar para o aparelho) técnica (copiada do manual), medidas (as primeiras em Portugal obtidas na câmara anecóica do IST e com equipamento Audio Precision), audição (subjectiva, logo pessoal e não necessariamente transmissível), que ainda hoje se usa, salvo as medidas que, por serem demasiado polémicas (quando contradizem a audição...), são ignoradas. Actualmente sou, quando muito, um «cronista do som», como já alguém me classificou. É o fenómeno cultural e a filosofia - mais do que a técnica - subjacente aos equipamentos áudio e vídeo nesta busca incessante - e nem sempre linear - pelo estado da arte que me interessa sobretudo.


A avaliar pelo correio electrónico, tenho tido algum sucesso: os leitores, entre pedidos de esclarecimento, sugestões e «cunhas» para eventuais descontos, lá declaram que se divertem a ler «Sons» e o seu émulo digital «Hificlube», mesmo quando não percebem nada de hifi. É isso que eu quero, que se divirtam, porque a crítica de áudio nacional e internacional está a tornar-se numa enorme seca. Da «chapa 4» passou-se à «chacha 4». E porquê? Porque já sabemos antecipadamente que o culpado é o mordomo (sinergia sala-cabos-suportes, «tempo-de-queima», etc.); os equipamentos em si são todos óptimos...


Um leitor congratulava-se recentemente pelo facto de eu alternar entre o vídeo popular e o áudio elitista sempre no mesmo tom desmistificador, que serve tanto aos que «gostam de hifi» como aos que «lêem por ler»...


Este email salvou-me o dia. Porque tinha um problema para resolver: como publicar um teste curto, incisivo e cínico q.b, numa versão benigna de VPV, isto é, cru e certeiro, mas sem ofender mais do que o necessário a sensibilidade do importador nem insultar a inteligência dos leitores?...



Continua