2003

América Proibida



As Odyssey, basicamente umas Prodigy em escala reduzida, são a última etapa desse grandioso trabalho que consistiu em casar pela primeira vez um painel electrostático (médios e agudos) com um altifalante dinâmico (graves) sem que o ouvinte descortinasse de imediato onde se situava a fronteira acústica entre os dois.
Durante anos tentei sem sucesso a cópula perfeita entre um painel electrostático Schackman e um altifalante de graves Kef, e os meus ouvidos estão particularmente bem sintonizados para este tipo de descontinuidades. Talvez por isso, nunca fui um fanático das ML. Apanhava-as sempre em falta na passagem do testemunho: aquela terra de ninguém onde uma membrana, fina e leve como o ar, é obrigada a abrir mão do direito inalienável da música a respirar livremente, face ao poder ditatorial de uma altifalante convencional, que se esforça sem êxito por esconder a opacidade do seu carácter. Até na música impera a diplomacia da força.


Ainda recentemente, em casa de um audiófilo ortodoxo de grande sensibilidade estética e auditiva, um par de Quad 63, mesmo em condições precárias de colocação, mostraram à saciedade como a «hibridez» de umas ML Ascent é um compromisso inaceitável para quem sabe ouvir os sons que dão forma à música.
Mas eis que a odisseia da ML na busca do velo de ouro do som termina onde as Odyssey começam. As águas puras, transparentes e claras do rio de registos agudos e médios desaguam agora no oceano profundo dos graves sem que a rica fauna de sons se ressinta das inevitáveis diferenças de temperatura e acabe por morrer na praia da sala de audição por falta de ar. É agora necessário subir muito alto, como na fotografia aérea, para que a zona de transição seja detectada na foz do piano, no delta das vozes e no estuário dos violoncelos e guitarras, confundindo-se com um vago efeito de caixa. Que, aliás, é possível eliminar quase por completo, ao forrar (a ML vai ter de me pagar direitos por esta) com uma fina camada de espuma (esponja de cor negra com perfil de bicos resulta bem) a intersecção dos dois elementos acústicos, isto é, a parede da caixa de graves imediatamente atrás da secção inferior do painel electrostático, onde se forma uma espécie de «garganta funda» iluminada pelo azul discreto do logotipo da ML, e se esconde também a luz-piloto da sobrecarga (se não os quer perder de vista, basta recortar os respectivos orifícios na espuma).


Esta cópula perfeita (com preservativo de espuma para não engravidar os registos médio-graves) deve-se em especial à utilização da técnica designada por ForceForward (nada de segundos sentidos...) que consiste na montagem de um segundo altifalante na traseira da caixa de graves. Não para emular o efeito dipolo (emite som para a frente e para trás) do painel electrostático, mas para cancelar o reforço na zona dos 50Hz (que torna o som «boomy», tonitruante), e anular o cancelamento nos 100Hz (que retira impacto às percussões), típico da maior parte das salas de audição. Tornando o som mais ágil e articulado, obtém-se uma muito maior consonância entre dois tipos de transdução tão diferentes entre si ao ponto de serem incompatíveis.


Na prática, isto significa que a colocação das Odyssey na sala deixaria de ser problemática, não fora o facto de os painéis precisarem de espaço atrás de si (não tanto para os lados onde se observa um nulo acústico) para melhor recriarem a ilusão de espaço e profundidade do palco sonoro. A posição de cada uma das colunas relativa ao ouvinte, em termos de distância, de inclinação e de direcção continua, contudo, a ser crítica para se obter o desejado efeito holográfico - é como mergulhar mentalmente num holograma que à vista desarmada parece não fazer sentido.


Dizer que a performance das Martin Logan Odyssey não cessa de me surpreender pela positiva é dizer pouco; não dizer que toda a família as prefere às portentosas Wilson Watt/Puppies System 6 - provavelmente as melhores colunas de som do mundo dentro da sua classe - seria mentir, por muito absurdo que isso se apresente ao meu entendimento das coisas do som; esconder que alguns amigos seleccionados consideram o som das Odyssey pouco menos que mágico, seria faltar à verdade.


Por certo que a beleza e elegância do design e a estranha transparência do elemento activo (membrana de Mylar), na sua moldura metálica de delicados favos, que permite ver através da música e mergulhar no espaço virtual, onde evoluem vozes e instrumentos tornados reais pela perfeição na reprodução de tons e timbres, não é alheia a este «encantamento» colectivo. Mas, quando dou comigo a ouvir diferenças entre cabos que antes me pareciam iguais, entre diferentes microfones utilizados num mesmo «take», entre instrumentos de timbres aparentemente indistintos; quando o prazer de ouvir música é independente do nível de pressão sonora, pergunto-me se o rigor da fase - só possível quando todos os sons (acima dos 250Hz, neste caso) têm origem num mesmo plano - não é o factor mais importante para um mecanismo de audição humano incapaz de detectar diferenças de amplitude inferiores a 1dB (uma diferença de potência de 26%) mas capaz de detectar variações no domínio da frequência de 0,06% e no domínio do tempo de 0,5 milisegundos! Não é pela intensidade (amplitude) do choro mas pela diferença de timbre (frequência) que uma mãe detecta e localiza o filho entre várias crianças. Talvez seja por isso que a minha esposa gosta tanto delas.


Sendo pai, não terei essa capacidade inata, mas consigo distinguir umas Martin Logan Odyssey entre as dezenas de outras colunas de som que ouvi até hoje. E apetece-me pegar-lhes ao colo e beijá-las - ficar com elas para sempre.


Distribuidor: Imacústica