2003

Rui «gladiador» Calado: Luzes, Acção!...



Rui «Gladiador» Calado já foi um audiófilo puro e duro: vendia, sonhava e vivia com Krells, Mark Levinsons, Cellos e afins. A vida ensinou-o que a única utopia que funciona é a que cria condições para se aceitar a realidade e ser feliz mesmo assim. E a realidade actual são os sistemas AV que tentam manter viva a utopia do som estéreo perfeito e são compatíveis com a imagem e o som surround dos DVD.
Gosto de visitar o Rui e passar a tarde a lembrar velhos tempos de glória e loucura audiófila, encontros em Las Vegas e audições de levar um homem às lágrimas, enquanto o observo a trabalhar.


Saio de lá sempre mais humilde e com os pés bem assentes na terra. O Rui aconselha, demonstra, sugere, mas nunca impõe:


«Cada um só ouve o que quer e leva o que pode comprar. Já me deixei de pruridos audiófilos. Tenho consciência que a maior parte dos amplificadores AV apenas «cumpre» os mínimos quando é chamado a reproduzir o som dos CD. Mas a versatilidade e a «universalidade» acabam sempre por levar a melhor. Vêm muitos casais à minha loja. Converso com eles como se fosse um «conselheiro matrimonial»: cada vez mais a compra de uma «aparelhagem de som» é um decisão a dois, por razões económicas e estéticas. Sou um leitor fiel de «Sons», mas há uma grande diferença entre o que se gosta de ler e o que se pode comprar. Do mesmo modo que se pode andar a pé e feliz com uma revista de automóveis desportivos debaixo do braço...


Depois de saber quais são as disponibilidades financeiras e os interesses do casal (quantas vezes antagónicos), lanço pistas na busca de equilíbrios latentes - que os há sempre ou não teriam casado. Atingido um consenso razoável passo à fase seguinte. O espaço de demonstração tem de ser pequeno e aconchegante para não confundir e intimidar. E é preciso tempo. E paciência. O ponto alto é a exibição de um filme ou um concerto com projecção em ecrã de grandes dimensões e som «surround». Já deixei muita gente com as lágrimas nos olhos depois de ver/ouvir Robbie Williams cantar «My Way», ao vivo no Albert Hall (admito que eu próprio me emocionei). E o novo DVD é ainda melhor. Elas inclinam-se mais para a imagem, até por causa dos miúdos, eles continuam na busca do Graal sónico. Pelo meio há sempre soluções de compromisso.


Segue-se a fase de montagem e afinação na casa do comprador. É aqui que as lojas da especialidade fazem toda a diferença. Quando vejo uma pessoa sair de uma «grande superfície» com o caixote de um televisor ou um sistema AV, pergunto-me: será que este tipo sabe no que se vai meter? Até nós, por vezes, encontramos situações difíceis de resolver. E nem sequer é mais barato. Apenas as pessoas são tímidas e não querem admitir a sua ignorância, pelo que preferem um vendedor que não faça muitas perguntas, talvez porque também não tenha muitas respostas para dar. Aliás, prefiro os humildes aos convencidos, mas trato ambos com o mesmo respeito.


Já montei sistemas de milhares de contos em casas de clientes, mas esforço-me por obter resultados semelhantes com investimentos menores. Abaixo de 250 contos há, contudo, demasiados compromissos. Mas também se arranjam algumas soluções dignas - com retomas, por exemplo. É tudo uma questão de estudo, de experimentação, de busca de sinergias e de explorar produtos que por vezes surgem no mercado com relações qualidade/preço a raiar o inacreditável. Dou como exemplo o projector In Focus X1 que, por 1.770 euros se bate com modelos de 5.000 euros.


Tenho um fraco pelos amplificadores AV da Denon: o AVR 3803 (1.546 euros) é uma bomba equipada com toda a mais recente tecnologia de conversão digital. E até nem soa nada mal em estéreo. Com um kit de colunas Bower e Wilkins Series 603 (2.038 euros), KEF Series Q (1.805 euros) ou Monitor Audio Silver (1.900 euros), incluindo par frontal, par traseiro e central, dá resultados fantásticos. Mas se o cliente prefere o Marantz SR5300 (848 euros) ou o Onkyo TX SR600 (697 euros) com um kit Monitor Audio Bronze (1.024 euros) é esse que leva e pode ter a certeza que será montado como se não houvesse nada melhor no mundo. Esse ou qualquer outro. O galardoado Yamaha RXV 630 (580 euros), por exemplo, não é grande coisa em estéreo mas com Dolby Digital e DTS e um kit modular da Athena, por exemplo, ultrapassa todas as expectativas. E, no fundo, é isso que as pessoas procuram hoje: bom e barato que a vida não está fácil. Os preços são negociáveis, dentro de limites razoáveis, claro. Nunca incluo o «subwoofer», porque essa é uma questão «ponderosa». As mulheres detestam-nos, os homens adoram-nos, seria até interessante estudar esta questão da «potência» do som. Os cabos espalhados pela sala também as deixam à beira de um estado de nervos. Mas eu tenho a arte de os esconder...


Saiu agora um novo «subwoofer» Bower e Wilkins ASW 675 (1.000 euros), com um amplificador integrado de 500W e um altifalante frontal tipo Sunfire, que é uma bomba em tamanho pequeno. Ainda mais pequeno e mais barato talvez o RELQuake (630 euros).


Já os «estereófilos» puros e duros costumam ficar satisfeitos com as propostas de Musical Fidelity ou da Vincent, cujo integrado é surpreendente de poder e subtileza».
Assim falou o Gladiador.


Seguiu-se a demonstração: amplificação Denon, colunas Bower e Wilkins, projector NEC. No final, experimentou-se ainda um In Focus X1 acabado de sair da caixa, que perdeu por uma unha negra no contraste e resolução intrínseca e ganhou em alguns aspectos como a limpeza dos planos de fundo. Na nitidez dos «close-ups» que escolha o diabo. Podiam-se contar as gotas de suor e os pêlos da barba: Robbie Williams estava ali vivo e «ao vivo».


O primeiro DVD do Robbinho, «Live at Albert Hall», terá dois anos e a imagem (os brancos por vezes «queimam») e o som (cheio e encorpado) já estão algo datados (proeminência dos canais central/traseiros). A emoção, essa, continua intacta. O novo DVD, «The Robbie Williams Show», gravado ao vivo nos estúdios Pinewood com câmaras de alta definição, tem uma qualidade de imagem deveras notável: é um autêntico deslumbramento para a vista apesar de transferido para DVD. A matriz HD deve ser de cortar a respiração. Desta feita, o som é solto, amplo, aberto (algum brilho excessivo dos metais) com ênfase no par frontal. Em ambos os casos, o conjunto imagem/som proporciona-nos deveras a sensação de «estar lá», junto com os privilegiados que lá estiveram de facto (houve até um que se gabou de ter pago 20.000 libras por um bilhete na candonga!).


Talvez o Rui tenha razão: o AV é o que está a dar. Talvez. Mas o Dolby Digital não tem, nem nunca terá, a resolução do SACD multicanal - nem este a vantagem da imagem. Dentro de cinco anos (?), o Blu-ray vai resolver esta complexa equação com imagem/som de alta definição. Depois falamos.