2002

Gente Feliz Com Lágrimas: Audioshow 2002 Parte I



Seria fácil arrumar o Audioshow com uma simples penada: dejá vu/entendu.
De facto, salvo raríssimas e louváveis excepções, não vi/ouvi lá nada que já não tivesse sido divulgado aos leitores de DNA/Sons em reportagens anteriores: Las Vegas, Frankfurt/Nova Iorque, Londres (insira Reportagem no campo pesquisa para aceder). Mas o Audioshow tem características próprias: um público entusiasta e maioritariamente jovem, composto por muitos casais (lá fora elas deixam-nos à porta, como quem deixa o filho na creche, e vão ao cabeleireiro ou às compras); e importadores que se preocupam em oferecer o melhor som possível em condições adversas (má acústica das salas foi a queixa mais ouvida).


Sem a grandiosidade de Las Vegas, o cosmopolitismo de Nova Iorque, o luxo de Frankfurt ou o pedantismo de Londres, o nosso Audioshow é digno e recomenda-se (eu devia dizer mal porque a organização não me convida, ao contrário do HighEndShow, de Frankfurt, só para citar um). É certo que a maior parte da «malta» só vai lá picar o ponto. No actual contexto económico, o negócio é mais aparente que real: muita parra e pouca uva. Mas, tal como no livro de memórias de Andy Warhol, pior que estar lá é não estar lá. Todos os anos oiço expositores e visitantes declararem: «Para a próxima não ponho cá os pés». Ano após ano, ei-los que voltam. Resmungam, mas voltam. (Nota: Nem sempre: a Delaudio informa-me que não vai estar presente este ano, prefere a FIL).


Estou «plasmado», perdão, pasmado: isto é suposto ser um Audioshow ou um Videoshow? Só alguns resistentes (e tolos?) não mandaram às urtigas a filosofia audiófila defendida por meia-dúzia de maduros, como eu, que ainda gostam de ouvir música ilustrada com imagens mentais, em lugar de as ver chapadas num ecrã de plasma expostas à vista de todos como no Big Brother. Mas serão os audiófilos puros e duros uma raça em vias de extinção? Olhem que não, olhem que não...Pedro Patrão, um audiófilo puro e duro


«O vídeo roubou a inocência ao nosso hobby preferido: o áudio. Matou o ritual, a polémica, a discussão, a participação activa na melhoria dos resultados acústicos. A imagem forma seres passivos. É o facilitismo como contraponto do esforço, do estudo, da cultura audiófila. Faz falta um verdadeiro audioshow alternativo para puristas», assim falava Pedro Patrão, audiophilus emeritus, quadophilus indefectível, que encontrei feliz com lágrimas nos corredores do ISCTE.


Carlos Moreira

Carlos Moreira, da Transom, foi, contudo, peremptório: «Basta desligar o televisor e os visitantes levantam-se e vão-se embora, como borboletas em busca da luz. É a geração do computador: quer imagem, vídeo, cor, luz. O som é hoje apenas um complemento. Apesar de tudo, a Transom apostou nos concertos ao vivo em DVD. É o nosso contributo para a causa audiófila, em detrimento da pirotecnia reinante de efeitos especiais dos filmes de acção que lembram o ping-pong dos primórdios do estéreo do comboio a atravessar a sala...».


Diogo mendes (Transom)


Diogo Mendes concorda: «São poucos hoje os que se interessam pelo estéreo. AV, «surround» e plasma, como este fabuloso Fujitsu, são as palavras de ordem nas lojas».


Isabel e Ricardo, os noivos do Audioshow


A Isabel e o Ricardo (onde estão um ano depois? felizes como sempre, espero eu: terão comprado um Denon?) casaram há pouco tempo. Irradiam felicidade. Já têm apartamento, móveis e electrodomésticos. Amor não falta. Falta o AV. Da Denon, de preferência. Levei-os pessoalmente à Videoacústica. Apresentei-lhes António Monteiro e João Cunha. Era o mínimo que podia fazer depois do Ricardo confessar que me lia...de vez em quando: «O meu pai não perde um artigo seu no DNA», disse para me compensar. Sintomático: o pai do Ricardo deve ser da minha idade...


O desejado amplificador Denon lá estava: «É este mesmo que eu queria...». Ricardo olhou para Isabel. Um sorriso bailou nos olhos dela como uma nota musical: «Se gostas, eu gosto...». O mundo devia ser sempre assim: bonito.


João Cunha (Videoacústica) e Johan Coorg (KEF)


Eu teria preferido os McIntosh e as Kef Reference que, pelo preço do apartamento deles, davam na sala ao lado voz a Diana Krall projectada num ecrã gigante pelo SIM2. Johan Coorg, KEF, dançava na sala bem disposto como sempre.


João Paulo e Petra


João Paulo é técnico de som profissional. Não lê o DNA. Petra acompanhava-o numa atitude entre o curioso e o divertido: «Quando gravo discos, esforço-me para que o som seja o mais linear possível. Chego aqui e oiço equipamentos fabulosos de milhares de contos com graves que mascaram tudo o resto. Aliás, parece ser um problema endémico nos sistemas AV. Lá em casa, AV e estéreo estão separados. Para ouvir música prefiro o meu TAGMcLaren 60i a atacar as colunas ATC. Agora ando à procura de um gira-discos Clearaudio ou GyroDec». Afinal, ainda há esperança no futuro do áudio, pensei.