Editorial

In Memoriam: no Ano da Morte de Luís Campos

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In Memoriam: no Ano da Morte de Luís Campos

É de olhos marejados de incredulidade e dor, que escrevo este singelo epitáfio.

O súbito, chocante e inesperado desaparecimento de Luís Campos apanhou-nos a todos de chofre, roubando-nos o chão, que reputávamos firme, com a violência da constatação de quão precário é o equilíbrio entre a vida e a morte.

Sobretudo, por ser a morte de alguém que amava a vida e todas as pessoas que cabiam dentro daquele coração enorme, sempre de abraços abertos de genuína amizade, iluminando-se em sorrisos eivados de sentimentos sinceros, sempre suportados por palavras simpáticas e perguntas amáveis sobre o bem estar da família: a esposa está bem? e os filhos? a mãezinha? e lá vinha o grande amor pelos seus próprios pais, velhinhos, e afinal Deus levou-o primeiro a ele, talvez porque, Egoísta,  gosta de se rodear dos melhores, roubando-os ao nosso convívio sem aviso prévio.

Nutria (nutro) pelo Luís uma amizade fraternal, que nasceu do gosto comum pela música e a melhor forma de a reproduzir, esse Graal que ambos buscámos durante décadas, sem esperança de algum dia o alcançar. Talvez  agora, Luís amigo, talvez…

E, mesmo quando julgávamos tê-lo descoberto, naquela vã glória que nos deixava momentaneamente felizes, no outro dia voltávamos a carregar a pesada pedra da dúvida até ao inalcançável cume do High-End, condenados, como Sísifo, a procurar sentido inteligível para o absurdo da audiofilia e da vida.

Luís Campos foi meu compagnon de route em audições memoráveis de alguns dos melhores equipamentos de som do mundo, umas vezes deixando-me eu levar pela sua intuição e  gosto musical; outras sob a minha batuta, como meu mero colaborador, no cumprimento de projetos internacionais, nos quais nunca se importou de me assessorar humildemente, na colocação precisa de pesadas colunas de som, na escolha judiciosa de cabos, de válvulas, de virar discos, que sei eu?, mantendo embora o prudente silêncio da sua douta opinião, mesmo quando porventura concordava comigo, e deixava vislumbrar essa concordância na empatia de um simples olhar afirmativo.

Era assim o meu amigo Luís. Tão discreto, quanto assertivo. Tão genuíno, quanto convicto. Que sabia sorrir na tristeza e incentivar na alegria. Apoiar na certeza e na dúvida, subestimando esta em prol da verdade mais alta, enquanto cativava plateias com o seu saber musical e aquele sotaque encantador.

Chamei-lhe um dia ‘cenógrafo do som’, num artigo intitulado ‘Dever de Sonhar’. Porque ele tinha o mesmo sentido de dever de Fernando Pessoa:

Eu tenho uma espécie de dever, dever de sonhar, de sonhar sempre,
pois sendo mais do que um espectáculo de mim mesmo, eu tenho que ter o melhor espectáculo que posso.
E, assim, me construo a ouro e sedas, em salas supostas, invento palco, cenário para viver o meu sonho
entre luzes brandas e músicas invisíveis.

Os auditórios da Imacustica nunca mais serão iguais sem a tua presença amiga, Luís. Mas eu comprometo-me aqui a Invocar-te sempre que algum sistema justifique a tua descida do assento etéreo onde te partiste, se lá memória desta vida se consente.

Choro por ti, irmão Luís. Mas prometo Ouvir agora também por ti, enquanto Deus o consentir.

Que descanses em paz junto Dele, a Quem, estou certo, já deste umas dicas para melhorar a reprodução da música celestial, que tão distorcida anda nos tempos que correm de Pandemia, de Guerra, de Fome, de Indiferença – de falta de Amor, Amizade e Solidariedade, tudo sentimentos que em ti abundavam.

Não se deve brincar com a Morte, que ela é traiçoeira, mas não encontro outra forma de aliviar o peso da Dor e encontrar Sentido no Absurdo de, na sua insondável Sabedoria, Ele te ter levado tão cedo desta vida. E do nosso Convívio.

Até sempre, amigo Luís Campos. Descansa em Paz.

 

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