Editorial

Big Brother

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Anda por aí um clamor na Net a propósito dos testes científicos de Amir Majidimehr, da Audio Science Review.

Amir, um engenheiro reformado da Microsoft, tem uma abordagem muito técnica dos equipamentos de áudio e outros produtos conexos, como cabos e acessórios, utilizando um Audio Precision APx555 e outro equipamento sofisticado para analisar o desempenho elétrico de DACs, amplificadores, colunas e auscultadores, publicando medidas objetivas e respetivos gráficos de elevada precisão que extrapola depois para a performance acústica.

Por exemplo: AIYIMA A07 TPA3255 já ouviu falar? É um amplificador chinoca de Classe D, que pode comprar na Amazon por 72 dólares. Amir diz que as medidas são 'decentes'. Eu não me atreveria a mandá-lo vir. Mas pronto, o Amir lá sabe…

A verdade segundo Amir

Amir concluiu, entre outras coisas (e generalizo), que cabos de todos os tipos, preços e categorias não fazem qualquer diferença, assim como os filtros e condicionadores de corrente; que DACs e amplificadores, que se vendem na internet por 100 paus, são objetivamente melhores que muitos componentes ditos de highend que custam milhares; que colunas consideradas best buy pelos subjetivistas são para deitar para o lixo e que os auscultadores (generalizo de novo), sobretudo os planar magnéticos, têm todos ‘falta de graves’ e agudos impróprios para consumo humano, além de distorção e ressonâncias várias na gama-média, tudo problemas que são parcialmente corrigidos com igualizações paramétricas que propõe graciosamente aos leitores para tornar o som mais ‘aceitável’, mas ainda assim nem sempre recomendável.

Crítica áudio = bruxaria

Ou seja: décadas de experiências auditivas e de avaliações subjetivas são denunciadas como fraude, com base em gráficos e análises computorizadas, ou como crendice, quando não mesmo superstição, do mesmo modo que os regimes ditatoriais impuseram sempre o primado da ciência sobre a religião – e perderam…

Há quem defenda que o ser humano é naturalmente crente, ou seja, gosta de ser enganado, daí que precise de ‘vanguardas’ e de líderes que lhe ensinem o caminho da verdade: uma ideologia cientificista, logo indiscutível, neste caso.

DAC Trabant

Primeiro foram os DACs, provando-se que os ‘Trabant’ mediam melhor que outros dez, até cem vezes, mais caros, logo soam melhor; amplificadores idem. Cabos? O de candeeiro serve muito bem.

Limpeza étnica dos cabos

Para começar o apuramento da raça, nada melhor que atacar os fabricantes de cabos e seus lacaios: os críticos. Hordas de compradores alienados e enganados por falsas promessas foram expostos na praça pública como idiotas, para gáudio dos que não podiam comprar os cabos;

Quando chegou a vez de algumas das colunas monitoras mais populares do mercado, das tais que as pessoas até podiam comprar e de que gostavam muito, houve um frémito de incredulidade, porque a ‘reeducação’ já chegara às classes mais baixas. Onde é que isto vai parar? Afinal, não eram só os cabos caros…

O computador é que sabe o que é bom para si

Já não falta muito para a limpeza étnica chegar aos amplificadores a válvulas, que se ouvem com prazer há dezenas de anos, mas cuja performance técnica não é consentânea com a ideologia de Amir, logo têm de ser denunciados como corruptos a abater, depois de humilhados pelo Audio Precision, que funciona aqui como o computador Hal de ‘2001, Odisseia no Espaço’.

Até ao dia em que HAL tomar o poder de decisão e impuser o AIYIMA A07 TPA3255 como amplificador único a nível mundial, como o Trabant da Alemanha de Leste, esse exemplo de uma sociedade socialista, que mandou construir um muro alto, não para que as pessoas não fugissem, mas para que os capitalistas (leia-se adoradores de cabos e do High-End) não entrassem.

Lixo de alta resolução

Preparem-se e temam o pior, vai chegar a vez dos gira-discos e células de leitura.

Entretanto, os ficheiros digitais de alta resolução já levaram que contar: tudo o que está acima de 20kHz é lixo, felizmente inaudível. CD chega e sobra: 20Hz-20Khz é tudo o que o povo precisa. Para quê 192kHz se ninguém ouve? MQA? Lixo. DSD? Lixo. DXD, idem.

Os gráficos do Amir não enganam ninguém e devem ser lidos literalmente como o Corão. Os hereges que preferem ouvir a medir devem ser abatidos como cães raivosos (metaforicamente, claro).

Ressonâncias magnéticas, em vez de cartas de amor

Um dia, as pessoas vão escolher as namoradas e os amigos, companheiros, maridos e mulheres com base em ressonâncias magnéticas. E vão ser muito felizes: compatibilidade perfeita! O problema vai ser encontrar alguém sem defeitos…

O amor, a empatia, aquele não querer mais que bem querer, a atração de um sorriso, a importância do toque e do gesto, até o beijo, não valerão nada se, ao analisar-se gene a gene, se descobrirem ‘inconformidades’.

‘Desculpa querido, mas tenho dois genes com distorção acima da média. Mas, eu adoro a tua voz. Pois, mas eu não passei no teste do Amir…’

Tenha medo. Tenha muito medo…

A partir de agora, antes de casar, envie a sua cara-metade ao Amir para ele a medir, não vá o diabo tecê-las. E não se esqueça do certificado eletrónico Covid19 para viajar, just in case

P.S. Esta peça de humor negro foi inspirada pelos auscultadores HEDDPhono, distribuídos pela Exaudio, que estou a analisar (teste a publicar em breve no Hificlube).

Amir acha que medem tão mal como todos os outros, e eu acho que soam tão bem como os melhores (mesmo sem igualização, ou melhor, sobretudo sem a igualização proposta por ele…). Vá ouvi-los na Exaudio – e decida por si.

Audio Precision AP x 555

Issues on Dummy-Head HRTFs measurements

Harman Curves and Dummy-Head Measurements


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