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Editorial

Amália e o MoFigate

Best Of Amalia _ Japan 1986 copy.jpg

O MoFigate e as remasterizações digitais da discografia de Amália. Uma desgraça nunca vem só.

Dois acontecimentos recentes suscitaram-me a (re) publicação de um artigo parcialmente transcrito abaixo, que publiquei no Hificlube.net em 2017:

  1. O ‘escândalo’ da MFSL (Mobile Fidelity Labs) que admitiu publicamente que nos “Original Master Recordings ” a matriz afinal também pode ser digital (DSD).
  2. A remasterização digital da discografia de Amália Rodrigues a partir das matrizes analógicas.

Fui um dos primeiros a adotar o CD em Portugal. Quando poucos ainda sabiam o que era o disco compacto, já eu editava no semanário ‘Êxito’ (CM) uma secção com o título ‘Compacto’ que, como o nome indica, se dedicava exclusivamente à crítica de CD, que eu importava por correio.

Nesse contexto, tive uma acesa polémica com a EMI-Valentim de Carvalho, quando em 1986 anunciou finalmente que ia editar o primeiro CD de Amália.

Publiquei então um artigo com o título ‘EMIntira’, e a EMI não gostou do texto e muito menos do título – e com razão, pois terei exagerado. A verdade é que eu já possuía então (e ainda o tenho – ver foto de capa) aquele que era na verdade o primeiro CD de Amália, editado no Japão.

Não me lembro por que artes me veio parar às mãos, acho que o mandei vir por correio.

O LP está vivo!

Quase trinta anos depois, a Sony regressou à edição em vinilo - o anúncio da morte do LP tinha sido muito exagerado.

A Sony deixou de produzir vinilo em 1989, que na década de setenta chegou a atingir os 200 milhões de cópias, e anda agora à procura de engenheiros reformados para voltar à produção, quando concluiu que a única fábrica de LP em atividade, a Toykasei, não tinha mãos a medir.

Claro que estamos a falar de apenas meia dúzia de milhões de cópias vendidas em todo o mundo, mas já se fala de um negócio de pelo menos 1 bilião no futuro.

Não é à toa que marcas como a Panasonic ressuscitaram o Technics SL-1200 (o meu primeiro gira-discos) e que a Pro-Ject, depois de uma travessia no deserto digital, teve de aumentar a fábrica.

Aliás, basta ter visitado o HighEnd Show de Munique, nos últimos 10 anos, para perceber que o LP – e o gira-discos analógico – está bem vivo, e recomenda-se.

Quando, num artigo intitulado ‘Arte Analógica’, mais poético e filosófico que técnico, eu escrevi que o LP se vestia de negro para assistir ao funeral do CD, e pensaram que era brincadeira. Não era, não. No futuro, vamos ter apenas o ‘streaming’ e o LP. ‘Mark my words…’.

Assim, se foi daqueles que, como eu, deitaram fora os LP, alguns de valor histórico (e económico), não faça o mesmo aos CD e SACD, pois vai voltar a arrepender-se. Isto são modas. E os atuais leitores CD e DAC ‘sacam’ música (eu não disse sons) dos discos que antes só era possível com uma boa célula e um LP.

Nota: lembro que escrevi isto em 2017.

Capa do CD Ultradisc II de Crime Of the Century, dos Supertramp.

Capa do CD Ultradisc II de Crime Of the Century, dos Supertramp.

Supertramp e Pink Floyd na MFSL

Os únicos LP que comprei da MFSL, Mobile Fidelity Sound Lab aka MoFi, foi em 1979: Supertramp, Crime of the Century e Dark Side Of The Moon, dos Pink Floyd.

Valem agora mais de mil dólares cada um! E pensar que eu os ofereci a um amigo que, entretanto, faleceu. Provavelmente foram para o lixo, pois a viúva não sabia o valor que tinham…

Na altura, ainda as matrizes eram garantidamente analógicas, até porque a tecnologia digital estava numa fase experimental. E continuam a ser dois dos melhores LP que eu já ouvi.

Apenas um outro LP está a este nível: a versão direct-cut de I’ve Got the Music in Me, com Thelma Houston, da Sheffield Lab de que, tanto quanto sei, só Eduardo Rodrigues tem uma cópia em Portugal.

Neste caso, a matriz era o próprio lacre. Tenho uma cópia em CD feita a partir de uma cópia de segurança em fita, e não há comparação possível.

A MFSL apresentava estes LP como:

 

‘An Audiophile’s Dream Come True!’

Mobile Fidelity Sound Lab, proprietor of” Original Master Recording(s)” (trademark). We guarantee not to exceed more than 200,000 copies of any release. The disc cutter turntable is driven at 16 rpm, and the master tape is played at exactly one-half the actual recorded speed. This half-speed disc cutting method allows the cutting stylus twice as much time to carve an accurate groove. Because our entire transfer chain (from tape deck to cutting head) is transformerless. We do not employ limiting or compression. We recently incorporated the Ortofon master disc cutting system.Our plating - currently, the Victor Co. of Japan (JVC) performs this most arduous task. The Victor Co. of Japan (JVC) is the sole producer of this vinyl and also presses our discs.

Posteriormente, comprei as versões da MFSL em CD UltraDisc I e II de Crime Of the Century, dos Supertramp. O LP sempre soou melhor que ambas as versões em CD. Sabe-se que o LP tem mais compressão e igualização, mas a sensação auditiva é a oposta. Vá-se lá perceber a audição humana.

Em 1983, quando abracei o CD, abandonei pouco e pouco o gira-discos, embora admita que, nas condições ideais, o LP pode soar melhor que o CD. Não por ser analógico, não por ser LP mas talvez pelo cuidado na remasterização e a diferente mistura e/ou igualização. Um bom exemplo disso é Midnight Sugar, de Tsuyoshi Yamamoto Trio. O LP soa tão melhor que o CD que a matriz utilizada só pode ser diferente. Ou a remasterização para digital foi mal feita.

Aliás, eu estou-me borrifando se a matriz é analógica ou digital, desde que o som seja bom, como, aliás, continua a ser o da maior parte dos discos da MFSL, que ouvi mais recentemente em demonstrações, embora saiba agora que, em alguns casos, foi utilizada uma cópia DSD da matriz analógica original.

Mofigate

A Mobile Fidelity admitiu publicamente que a maior parte dos últimos LP foram editados a partir da matriz analógica original, sim, mas previamente transferida para o formato digital DSD, por razões técnicas (alinhamento prévio de azimute das cabeças de leitura do gravador). Os analogistas militantes gritaram: Mofigate! E as redes sociais, sobretudo o YouTube, incendiaram-se de legítima indignação.

Isto foi uma surpresa para toda a gente, eu incluído, embora houvesse já vários sinais de fumo.

Capa da reportagem do Hi-Fi Show 97, de S. Francisco, publicada no DNA/DN

Capa da reportagem do Hi-Fi Show 97, de S. Francisco, publicada no DNA/DN

Em 1997, assisti ao Stereophile HiFI Show, em S. Francisco, onde a Sony demonstrou a primeira gravação em DSD. Tratava-se da cópia digital (DSD) da matriz analógica de Hobo por Sara K., da Chesky Records, se bem me lembro. Isto muito antes de se falar no SACD. 

Sony criou DSD para arquivo

A Sony, que detém hoje etiquetas como a Columbia Records, RCA Records, Epic Records, Arista Records, Legacy Recordings, Sony Music Latin, Sony Masterworks, Provident Label Group e Sony Classical, deixou logo ali bem claro que tinha criado o DSD como formato de arquivo, e que ia copiar todas as matrizes analógicas, porque corriam o risco de se deteriorar irremediavelmente.

O grande fogo na Universal

Em 2008, grande parte das matrizes analógicas da Universal ardeu num fogo que destruiu parte das instalações em Los Angeles.

Convém lembrar que a Universal detém as seguintes etiquetas: Abbey Road Studios, Bravado, Capitol Music Group, Decca Records, Def Jam Recordings, Deutsche Grammophon, Geffen A&M, Island Records, Motown Records, Polydor, Republic Records, Verve Label Group e Virgin Music.

Quando perguntaram ao responsável técnico quantas matrizes se tinham perdido (o New York Times apontava para 150.000), ele respondeu: muito poucas, e temos cópias de segurança e… digitais.

Jim Davis explica-se à TAS

Numa entrevista recente à TAS, Jim Davis, da Mofi, defende-se dizendo que a cópia de uma matriz analógica em DSD é totalmente transparente e exata. A remasterização é sempre processada sob formato analógico. E explica como se processa:

Starting with the original tape and using our custom Tim de Paravicini Studer A80, our engineers do a rundown of the recording, noting azimuth-alignment-settings for each splice and edit.

Once there has been a thorough evaluation of the tape, the engineer captures the first song or up to the first edit. At each splice point he realigns the azimuth. This precision alignment is crucial to maximizing information retrieval from the tape.

These tapes could have been recorded at different studios on different tape machines, and it is vital to mirror these machines by continually aligning azimuth.

After the capture, the DSD file is evaluated in Sebastopol and returned to the analog domain. Using a Tim de Paravicini analog EQ, the engineer makes his equalization adjustments. EQ is not done in the digital domain. This signal is then fed into the lathe cutterhead, which is driven by Tim de Paravicini tube amplifiers.

In a conventional analog-to-lathe cut, the engineer needs to make all his adjustments, including azimuth alignment, on the fly. Azimuth alignment is a micro adjustment, and there is no way to nail it precisely while cutting on the fly. And this is a move that needs to be done at each splice, regardless of how short the duration.

A primeira experiência teve lugar em 2011 com Tony Bennett I Left My Heart in San Francisco. E seguiram-se outras. E Davis continua:

The last title we captured and cut from the mastertape without a DSD step was David Crosby If I Could Only Remember My Name. It was released in 2022 but was captured in early 2020. All other releases since early 2020 use a DSD step in the mastering unless the original recording is a digital source.

Nota: Jim Davis entrevistado por Robert Harley, na TAS, 10 Agosto 2022. Ler a entrevista integral aqui.

Tudo bem, a explicação técnica até tem lógica, e não há dúvida de que os discos da Mofi soam quase sempre melhor que as edições originais. Não todos, como o Sg.Pepper’s, dos Beatles.

One Step/Two Step

O que a MFSL não pode fazer é vender gato digital ao preço de lebre analógica, por muito bem cozinhado que o gato seja. Alguns discos custam mais de 100 dólares! E a MFSL devia ter explicado que o famoso processo One Step era afinal Two Step, sendo o primeiro passo digital. Não só aos compradores, mas também aos distribuidores e à imprensa. Todos foram enganados.

Não veio mal sonoro ao mundo, como se prova. Ninguém topou. E agora só compra quem quer, mesmo sabendo. Eu acho que só os puristas vão deixar de comprar. Mas a Mofi vai ter de baixar os preços, porque a malta agora já sabe...

Se eu bem conheço a sociedade civil americana, já devem estar em marcha ações em tribunal (class actions). Provavelmente, dos próprios distribuidores que também foram enganados.

Nota: O próximo escândalo vai ser com as bobinas de fita analógica, que são apresentadas como reel-to-reel Master Tapes copiadas em tempo real do original, algo de impossível porque obriga à utilização repetida da master tape, o que as editoras não permitem, pois ficam irremediavelmente deterioradas. Foi por isso que a Mofi recorreu à cópia em DSD - para proteger a master analógica original. Consta que algumas 'tapes' analógicas, que custam um balúrdio, são cópias diretas de...CD! 

Primeiro CD de Amália foi editado pela EMI em exclusivo para o mercado japonês, em 1986.

Primeiro CD de Amália foi editado pela EMI em exclusivo para o mercado japonês, em 1986.

O triste fado de Amália

Uma matriz analógica original não resulta necessariamente num produto melhor.

No que diz respeito à discografia de Amália, tinham as matrizes originais e deitaram o bebé fora com a água do banho com as remasterizações digitais.

E não sou eu que o digo. É o engenheiro de som e mestre masterizador João Ganho, de o Ganho do Som, na sua página de Facebook. E passo a transcrever dois excertos, com a devida vénia e consideração pelo autor pela sua coragem:

Em 2008 apresentei, pessoalmente e várias vezes a minha revolta – diz João Ganho -  a dois quadros de topo da Valentim de Carvalho (Luís Froes e um responsável pelo arquivo, cujo nome já não recordo) pelo desleixo e pelo amadorismo com que os álbuns de Amália andavam a ser editados em CD há vários anos.

E continua João Ganho: as masterizaçōes eram feitas num escritório de um distribuidor de equipamento de áudio profissional, sito na Rua Prof. Fernando Namora (Lisboa).

Era literalmente um escritório, sem um mínimo de condições de equipamento ou de acústica, e era tudo masterizado ali por um vendedor de equipamento entusiasta do som, com as colunas que tinha no momento em demonstração para os clientes em cima da secretária.

As excelentes gravações de Hugo Ribeiro andavam há vários anos a ser sujeitas a processos excessivamente invasivos de igualização e de compressão que destruíam por completo um património de valor incalculável.

E termina João Ganho: a saga das masterizaçōes dos álbuns de Amália que não respeitam a dinâmica e a tonalidade das gravações originais continuou, agora já fora do tal escritório, noutros sítios e com outras gentes, mas para resultar em CD e LP que continuam a ser um atentado à memória da cantora.

João Ganho in Facebook

Nota: podem ler aqui a declaração pública na integra, ou na página de João Ganho. Foi publicada em 7 OUT 2021.

 

É pena a Valentim de Carvalho não poder armazenar para a posteridade todas as matrizes analógicas originais de Amália, no formato de arquivo DSD256. Já se viu que se podem masterizar LP a partir delas, e ninguém topa nada, bem pelo contrário. Talvez agora que a Sony comprou a EMI, em 2018, por 2 mil milhões de euros…

Felizmente, guardei o primeiro e único CD de Amália a ser masterizado por engenheiros japoneses, no Japão! O CD foi editado em exclusivo para o mercado japonês (com exceção dos títulos das canções, o folheto é em japonês).

Com a ajuda de um tradutor automático, li o folheto e não há qualquer referência à técnica de masterização, feita pela Toshiba para a EMI, apenas notas sobre Amália e os temas das canções.

Sobre as mais recentes remasterizações de Amália talvez ainda haja esperança. Ler aqui a entrevista de Frederico Santiago à Rádio Renascença.

 

Best Of Amalia Japan 1986 copy

Capa do CD Ultradisc II de Crime Of the Century, dos Supertramp.

Capa da reportagem do Hi-Fi Show 97, de S. Francisco, publicada no DNA/DN

Primeiro CD de Amália foi editado pela EMI em exclusivo para o mercado japonês, em 1986.


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