Editorial

A tale of two turntables: Holbo Airbearing e Bergmann Galder

Ajasom - OUT 2020- sala front - mbl system 1.jpg

Uma história de dois gira-discos (e um Streamer) inspirada em Charles Dickens. JVH foi à Ajasom provar dois ananases da MBL (ainda verdes), que lhe foram servidos em dois pratos diferentes: Holbo Airbearing e Bergmann Galder. 

As colunas MBL 101E MkII não são novidade para os leitores habituais do Hificlube.net. Os mais desatentos podem sempre (re)ler: ‘MBL 101 E MkII Radialstrahler, a coluna extraterrestre – audição crítica de JVH’. Está lá tudo o que precisa saber, incluindo vídeos com som gravado ‘ao vivo’ no auditório da Ajasom-Damaia.

MBL 101 E MkII, coluna de irradiação omnidirecional, com alimentação por monobloco MBL 9008A

MBL 101 E MkII, coluna de irradiação omnidirecional, com alimentação por monobloco MBL 9008A

Assim, quando soube que a Ajasom tinha um novo par de MBL 101 E, acabado de chegar e ainda a cheirar a verniz, não resisti à proposta de uma nova audição, porque, como eu escrevi então:

‘Esta é uma audição imprescindível e urgente, pois nunca ter ouvido as mbl 101 E é uma falta grave na cultura audiófila de qualquer pessoa. Depois de as ouvir, vai perceber...’

Perante isto, não as ouvir, mesmo depois de ‘já ter percebido’, é uma falta ainda mais grave.

O sistema completo no auditório 1 da Ajasom

O sistema completo no auditório 1 da Ajasom

Fui recebido amavelmente por toda a equipa Ajasom: António, Nuno e Jorge, e ouviu-se música em streaming, enquanto conversávamos sobre um ‘super evento’ que vai acontecer, em Novembro, neste mesmo auditório. Só vos posso dizer que se trata da apresentação de um par de colunas raras (e caras!).

Gira-discos Holbo Airbearing c/ célula Lyra Delos (ver texto)

Gira-discos Holbo Airbearing c/ célula Lyra Delos (ver texto)

Até que eu propus que fizéssemos uma comparação entre o Holbo Airbearing (6.500 €), com uma célula Lyra Delos (1.600€), e o Bergmann Galder c/ braço Odin (16.240€) e célula Lyra Atlas (9.100€), tocando a mesma faixa do mesmo LP, com o Innuos Statement (11.000€)/Nagra Tube DAC (36.250€), em pano de fundo, a tocar o correspondente ficheiro áudio via Tidal.

Gira-discos Bergmann Galder c/ braço Odin e célula Lyra Atlas (ver texto)

Gira-discos Bergmann Galder c/ braço Odin e célula Lyra Atlas (ver texto)

Assim, ouvimos ‘St. James Infirmary’, por Louis Armstrong, repetidas vezes, através das MBL 101 E MkII (59.000€), alimentadas por monoblocos MBL 9008A (23.400€ /cada) acolitados pelo belíssimo prévio McIntosh C70 (10.800€). Cabos Kimber Select e Shunyata Sigma.

Prévio McIntosh C70 Anniversary

Prévio McIntosh C70 Anniversary

Os leitores que me conhecem sabem que eu abandonei o LP apenas por razões práticas. Perdi a paciência para o ritual da reprodução. Só os oiço quando alguém os põe a tocar por mim. Não me entendam mal: refiro-me à reprodução de discos. Mas com isso perdi também o prazer da audição regular dosLP, algo que me assalta com frémito, sempre que os ouço.

Arte analógica

Eu tenho consciência da sua superioridade sonora, ou não teria publicado um artigo intitulado ‘Arte Analógica’, em 2003, quando ainda não se adivinhava a ressurreição do LP. Permitam-me transcrever alguns excertos, ao longo deste relato de audição:

‘Retira-se o disco da capa com dois dedos leves, qual hóstia sagrada no ato litúrgico. Coloca-se o disco no prato e faz-se descer o braço. Há quem consiga apontar a agulha com a precisão de um cirurgião, que só depois segue pelo seu pé o tortuoso caminho, lavrando sons enterrados na superfície ondulante de espiras hipnóticas, numa fritura branda e estranha para quem já nasceu na era digital.’ 

É quando oiço LP bem reproduzidos que essa superioridade mais se evidencia. Uma superioridade, aliás, que foi óbvia logo às primeira espiras, mesmo com o Holbo, e que o Bergmann tornou ainda mais evidente.

Por comparação, o som digital – excelente, diga-se de passagem – parece ser-nos servido dentro de uma bolha. Cada vez mais transparente, sem dúvida. Mas, ainda assim, está lá presente e é iniludível. Como um véu diáfano, que se já não esconde a verdade, como antes, só nos deixa adivinhá-la.

‘Eis porque haverá sempre quem prefira sofrer os efeitos perversos da eletricidade estática, o desespero dos empenos, a angústia da morte anunciada das espiras, em troca do prazer de ouvir e colecionar LP raros, que se vão tornando objetos de coleção. Ou talvez por isso...’

Por analogia com a fotografia, o som do LP parece estar mais bem focado: é possível ver melhor, não só os pormenores, mas o todo e, com ele, as relações de força da voz e dos instrumentos, no tempo e no espaço, que são mais percetíveis e harmonicamente lógicas.

‘No analógico o tempo existe em função do espaço, no digital só o tempo existe - daí a importância da precisão do clock e os efeitos perversos do jitter’. Ora o tempo, em si, sem a componente espaço, não passa de uma abstração.

Ao determinar o tempo musical em função do espaço, o gira-discos tornou-se, paradoxalmente, um objeto de arte intemporal.’

Auditório 1 da Ajasom/Damaia: dois giradiscos em confronto

Auditório 1 da Ajasom/Damaia: dois giradiscos em confronto

Claro que, apesar da qualidade da prensagem do disco, ouve-se aqui e ali um estalo ou uma ‘fritura’ vaga e branda, se comparada com o negrume de silêncio do digital, com o qual, se não o bebé, pelo menos o seu cheiro parece ter sido deitado fora com a água do banho…

‘O LP vai continuar vivo: pode envelhecer, gastar-se, curvar-se; pode até a voz perder claridade, o catarro insinuar-se no discurso. Et pour cause, soará sempre mais natural, mais humano. Pura analogia?’

Será que tudo isto justifica o incómodo do ritual, do cuidado a ter com os discos, com as afinações sem fim e, sobretudo, os custos da operação? Talvez não.

Mas, tal como acontece com os carros elétricos, é bom que saiba que o prazer do silêncio lhe vai roubar outro prazer: o de ouvir o motor a cantar…

Fica de bem com a sua consciência ecológica (dispensa os suportes físicos, que não são biodegradáveis) e de mal com a sua consciência audiófila.

Para mais informações: AJASOM

Ajasom OUT 2020 sala front mbl system 1

MBL 101 E MkII, coluna de irradiação omnidirecional, com alimentação por monobloco MBL 9008A

O sistema completo no auditório 1 da Ajasom

Gira-discos Holbo Airbearing c/ célula Lyra Delos (ver texto)

Gira-discos Bergmann Galder c/ braço Odin e célula Lyra Atlas (ver texto)

Prévio McIntosh C70 Anniversary

Auditório 1 da Ajasom/Damaia: dois giradiscos em confronto


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