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Magico A1 – full metal jacket

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JVH é um ‘antigo combatente’, e por isso sabe que esta expressão inglesa se refere a balas e não a colunas de som, que são fonte de música, logo de vida – não de morte. Mas não resistiu a fazer a associação, porque a A1 tem o impacte, a solidez e a velocidade de uma bala perfurante.

Na mais recente entrevista (ver ‘Entrevista de vida’, no final do artigo), que teve a amabilidade de conceder ao Hificlube.net, Ricardo Franassovici propõe como sistema highend de entrada (até 20 000 euros) um conjunto composto pelo amplificador integrado c/ DAC Krell 300i e as colunas Magico A1, tendo sugerido que o testasse, como já o fizeram outros críticos britânicos (já lá iremos).

Ora, eu já tinha testado o Krell 300i (abrir teste no final do artigo) para o Hificlube.net, pelo que Manuel Dias, da Imacustica, propôs em alternativa o Prima Luna EVO400 (integrado), um casamento que ainda está na fase do namoro. Quando chegarem a vias-de-facto, eu conto tudo, ao melhor estilo de fofoquice de rede social.

Em fase mais adiantada de intimidade e cumplicidade, estava já a relação (intercourse) entre as Magico A1 e o Copland CSA100 (abrir teste no final do artigo), pelo que foi este último que utilizei na presente análise como parceiro das A1. Tudo o que eu escrevo sobre as Magico A1 pode também ser atribuído ao CSA100.

Preâmbulo crítico sobre a crítica

Os críticos de áudio, classe polémica na qual me incluo, sofrem em maior ou menor grau da síndrome de ‘dúvida existencial’: como escrever algo de diferente, no contexto de um padrão que tende a repetir-se ad nauseam? Os testes parecem repetir-se no tempo, como a história, só muda o nome do herói. Que é sempre super.

Primeiro, transcreve-se a descrição de um produto inovador, com base na press-release do fabricante, a que se segue uma análise crítica mais ou menos aprofundada, com recurso a uma tabela performativa, apoiada ou não em testes de laboratório, que dizem pouco ou nada sobre a realidade que mediram e são, por vezes, até contraditórios, mas dão sempre um ar de seriedade à coisa;

Depois, debita-se uma lengalenga do tipo ‘horóscopo’ com base em meia-dúzia de faixas selecionadas de discos ‘exóticos’, quanto mais desconhecidos da maioria dos leitores, melhor. Conheço alguém que já tem os comentários  pré-escritos em cartões (por vezes plagiados), que baralha e dá de novo…

Finalmente, ‘embrulha-se’ tudo no papel colorido de uma conclusão elogiosa, porque a vida custa a todos, e os fabricantes não gostam que digam mal dos seus, pois são todos filhos de boa gente, que se sente.

The conundrum of Gods predestination

A isto os anglosaxões chamam ‘conundrum’. Um ‘quebra-cabeças’ que tem de ser resolvido para não ‘rolarem cabeças’.

A minha solução é testar apenas aquilo que me dá prazer e devolver delicadamente o que me pode dar ‘dor de cabeça’. A vida é demasiado curta para se perder tempo com gente (e coisas) que não prestam. Daí que as ‘críticas’ sejam de uma maneira geral positivas ou muito positivas. Não é por compadrio, é por atavio…

O que não me podem acusar é não tentar ser sempre original e diferente, fugindo à ‘uniformização’ como o diabo da cruz.

A uniformização imposta pelos critérios editoriais consiste na ‘urbanização’ prévia da página, que é depois preenchida por débeis ‘edífícios’ críticos, sujeitos a ‘plantas’ pré aprovadas, que resultam numa paisagem de monotonia e dejá-vu/lu.

As revistas funcionam assim como condomínios fechados, que tendem a uniformizar também os comportamentos de quem escreve e de quem lê, sujeitos aos ditames das normas impostas pela ‘administração’. Quem lê uma crítica, já leu todas.

Na senda das revistas de Hifi

Pelo andar da capa da revista, sei quem/o que vai lá dentro. Antes de me chegar às mãos este mesmo par de Magico A1 andou em bolandas pela HiFi News, Hifi Choice e Hifi +.

Nota: as Magico A1 precisam de 100 horas de queima, que outros tiveram a amabilidade de fazer por mim…

As respetivas análises podem ser lidas em formato pdf na página da Absolute Sounds (basta clicar no anúncio publicado no Hificlube.net).

Portanto, antes de conhecer as A1, eu já lhes conhecia o passado e o destino. Risonho, claro. Mas será que é possível conhecer algo ou alguém por interposta pessoa?

A arte da descrição em toda a revista

Todas as críticas já publicadas debitam a mesma informação fornecida pela Magico de que as A1 são construídas por 6 placas sólidas de alumínio ‘aviónico’ de 9,5mm, reforçadas internamente no topo, na base e no espaço interior entre o tweeter e o médio-grave, por outras estruturas de alumínio que eliminam qualquer hipótese de vibração ou ressonância.

Tweeter de berílio e médio-graves de grafeno

Depois, ficamos a saber que a A1 tem montado o mesmo tweeter de cúpula de berílio de 28mm utilizado nas A3 e A5. Aqui há algumas discrepâncias: Alan Sircom diz que a cúpula de berílio foi vaporizada com pó de diamante, Paul Miller diz que não. Ganha o Paul que nestas coisas nunca falha. A vaporização do tweeter é exclusiva dos modelos mais caros.

Já quanto à unidade de médio-graves de 165mm, com cone de sanduíche de fibra de carbono e espuma de Rohacell (patente da Focal), não há dúvidas: o cone foi reforçado com uma camada de ‘XG Nanographene’. As marcas adoram estes nomes tecnopomposos.

O grafeno, um composto de carbono, é 100 vezes mais rígido que o aço, com a vantagem de a vaporização ser quase desprovida de massa. É o ideal para fabricar cones de altifalantes, que se querem ultraleves e ultrarígidos.

A magia da elipse

Finalmente, o ‘Elliptical Symetry Crossover’, que utiliza componentes Mundorf (condensadores e bobinas) feitos por medida em exclusivo para a Magico, é descrito com mais (Hi-Fi News) ou menos pormenor (as outras revistas).

Ficamos a saber também que a frequência de corte do filtro é aos 2kHz, com uma pendente muito rápida de 4ª ordem (24dB/oitava), obtida com a montagem de um condensador em série com a bobina do filtro de passa-baixas do médio-grave.

Agora acrescento eu: as pendentes de 24dB/oitava só são normalmente conseguidas com filtros ativos ou com filtros passivos muito mais complexos, à custa de baixa sensibilidade (84 dB) e impedância (4 ohm), que dá ‘mau feitio’ às colunas. Não é o caso. Como graceja Paul Miller, Alon Wolf resolveu a quadratura da… elipse.

Isto significa que as duas unidades da A1 têm um mínimo de sobreposição, ao contrário do que acontece com as colunas com filtros de 1ª ordem, que são por muitos consideradas como mais ‘naturais’, ao contrário das pendentes rápidas, que conferem mais ‘transparência’ e ‘velocidade’ ao som mas podem soar ‘mecânicas’. Também não é o caso.

Diz-me o que ouves, dir-te-ei quem és…

Seguem-se as proverbiais ‘audições críticas’, em que ‘cada um toca o que sabe’, utilizando faixas de discos mais ou menos exclusivos ou acessíveis, para ilustrar a excelência da performance das A1, em termos de:

Casamento e colocação na sala; agudos, médios e graves; micro e macro dinâmica; presença e ataque; transparência, claridade e detalhe; colorações ou ausência delas; resolução e ‘ar’ ou ‘atmosfera’; textura e estrutura; ‘abertura’ da imagem estereofónica e ‘especificidade’ da focagem.

Enfim, a ladaínha que todos os críticos ‘rezam’ (eu incluído), para concluir que a A1, sendo tão pequena – e sólida! – chega onde muitas grandes não chegam.

David e Golias

O que é a pura verdade, diga-se! Aliás, sendo Alon Wolf de origem israelita, eu vou mesmo mais longe: as A1 são a personificação audiófila do pequeno David que derrotou o gigante Golias.

…as A1 são a personificação audiófila do pequeno David que derrotou o gigante Golias…

E podíamos ficar por aqui. Até porque nós, portugueses, temos tendência para aceitar como mais válido o que vem ‘de fora’, sobretudo se for escrito por um inglês ou americano, portanto a minha escrita em Português é como ‘chuva em campo molhado’. Que tem dado boas colheitas…

Abordagem pessoal

Quando integrei as A1 no meu sistema desktop, ladeando, sem cuidados ou demasiadas expectativas, o ecrã do computador, à guisa de monitores de mesa de mistura, alimentadas pelo excelente Copland CSA100 (clicar para ler teste) e ouvidas no campo próximo (near field listening), eu percebi logo que as A1 tinham de ser abordadas por uma perspetiva (algo) diferente. De proximidade. De intimidade. Logo, mais pessoal, menos uniformizada. Menos matter of fact.

Há muitas coisas que ignoro – e já vi (e ouvi) coisas entre o céu e a terra das quais já nem me recordo. Mas gabo-me de reconhecer uma grande coluna de som, quando a oiço.

A disponibilidade imposta pelo Covid-19 já começava a deixar em mim as marcas do cansaço ocioso que promove a preguiça e o desinteresse. As A1 chegaram, e passei a ouvir muito mais música em casa – todo o tipo de música – e durante mais tempo.

Empatia emocional e física

Este é o primeiro sintoma de que se criou uma empatia. E essa empatia é indiferente ao volume selecionado: as A1 tocam tão bem baixo, como alto, uma mais valia para o bem-estar familiar. A experiência emocional é a mesma, apenas a experiência física é diferente.

…impacte físico que o corpo sente - e os olhos negam…

É como passar da audição da filigrana informativa de umas Quad ELS57, aqui sublinhada pelo traço de lápis bem afiado do grave dinâmico, para o ataque, velocidade e projeção das colunas de corneta, sem as colorações associadas e com um impacte físico que o corpo sente - e os olhos negam: tratando-se de uma coluna tão pequena, que outrossim aconselharia parcimónia no uso e abuso das oitavas inferiores.

…a reprodução dos graves das A1 sacia sem enfartar…

Que do meu programa musical diário tenha passado a fazer parte uma quantidade tão apreciável de faixas com elevado conteúdo de percussão, comprazendo-se no jogo rítmico entre o pedal da bateria e a guitarra baixo, ou na euforia dos tantans e dos graves telúricos de bandas sonoras de filmes, é algo de espantoso e inaudito.

Música em sessões contínuas

Já nem me lembro de quantas vezes deixei ao Roon o arbítrio da escolha, sem nunca ter recusado uma única sugestão do algoritmo inteligente.

As A1 extraem da música, de toda a música, o melhor que ela tem: estou agora mesmo a ouvir Picture Of Love, de Clarence Spady a níveis de concerto doméstico.

O namoro entre o baterista e o baixista é apenas uma das ‘praias’ preferidas das A1, enquanto a guitarra divide a atenção com o saxofonista para emoldurar a voz de Spady, no melhor estilo de Robert Cray e Keb Mo. Dá vontade de repetir.

Incentivadas pelo Roon, as A1 levam-me todos os dias pela mão à descoberta e à recordação sem limites.

Al Jarreau homenageia George Duke: já ouviram a secção rítmica de Somebossa, com o sax surfando a crista de percussão?

O pulsar sincopado de Bostich, de Yello? E ‘The Nightfly’, de Donald Fagen, o homem dos sete instrumentos?

Kendrik Lamar, anyone? Abram o videoclip de Humble no YouTube, abram as goelas ao amplificador e oiçam o som através de umas A1. É como ir a abrir na A1 (a autoestrada) até ao Porto, quebrando todas as regras sociais (ele) e de trânsito (nós)!...

Há quantos anos eu não ouvia You Curl Your Toes in Fun, pelos Jethro Tull? As guitarras, a flauta, a voz… De encarquilhar os dedos, de gozo e saudade (da juventude).

E todo o ‘Mar de Sofia’, por Bethania, até o sol desaparecer, derretendo-se no horizonte sobre o mar? E agradecimento pela idade madura, quando a beleza das coisas simples tem mais valor.

As A1 revelaram-se um autêntico encontro imediato de terceiro grau: são do outro mundo!…

Ou ainda ‘Close Encounters of the Third Kind’, de John Williams? Que idade teria eu? As A1 revelaram-se um autêntico encontro imediato de terceiro grau: são do outro mundo!…

O ‘Capppricio Italiano’, do famoso disco ‘1812’ da Telarc? Why not? E os canhões, enferrujados na prateleira? Os canhões também, by Jove! Elas aguentam-se bem, e não fogem do campo de batalha. Até a porta da garagem do disco teste da Hi-Fi News eu ouvi!...E pensar que foi este disco que me abriu as portas da atividade crítica internacional.

Ah, aquela voz humana, que Deus só dá aos eleitos!...

E a reprodução da vox humana falada, não apenas cantada? A de Bethania declamando Sofia, a de Richard Burton lendo Dylan Thomas; ou a de Jeremy Irons narrando Sugar Plum On the Run (todos disponíveis na Tidal); ou ainda, e mais prosaicamente, ver Seinfeld sem legendas e não perder uma única das muitas piadas sublinhadas por aqueles riffs mágicos de Jonathan Wolf tocados com a técnica de slap bass, a la Marcus Miller. Soam ainda mais ‘mágicos’ nas Magico A1: ataque, tonalidade, recorte, estrutura e ritmo.

Dez considerações avulsas sobre as A1

  1. As Magico A1 são rápidas, mas a velocidade não é aqui obtida à custa do peso específico e da energia intrínseca dos sons, que são reproduzidos sem arrastamento ou desvios temporais, e também sem o lastro típico de coloração nos graves dos sistemas reflex;
  2. As Magico A1 não favorecem as cordas em detrimento do corpo do violino; nem esquecem a causa (o transitório do impacte inicial num tambor, por exemplo) para se concentrarem apenas nas consequências: os harmónicos espúrios associados a colorações que desvirtuam o timbre do instrumento com gordura excessiva;
  3. Nos instrumentos de sopro, as Magico A1 mantêm o justo equilíbrio entre a micro informação da palheta e a macro informação da corneta;
  4. Nas vozes, a sibilância faz parte do todo, não é uma entidade em si própria, que se autonomiza para chamar a atenção não solicitada do ouvinte;
  5. O discernimento tímbrico é de tal ordem que nos podemos focar sobre um instrumento específico, isolado do todo ou integrado no panorama geral, sem que se percam em ambos os casos a sua identidade e personalidade;
  6. Por serem ‘duas-vias’, as A1 soam coesas e entrosadas mesmo a curta distância de audição.
  7. Ouvidas no campo próximo, as Magico A1 têm o poder de resolução dos melhores auscultadores planarmagnéticos abertos, aliado ao poder de movimentar muito mais ar;
  8. É apenas na escala que as Magico A1 cedem em termos de volumetria: dos espaços, que não dos elementos que o habitam, que soam sempre bem dimensionados;
  9. As relações de tempo e espaço são tão perfeitas que não vai sentir falta de nada na audição no campo próximo, nem mesmo ao nível do grave, que é tenso e intenso, com a extensão a morrer de morte natural, sem a agonia do estertor da morte reflexiana.
  10. Colocadas sobre pedestais, numa sala grande, as A1 poderão sentir-se algo ‘despidas’, porque não usam o underwear dos sistemas reflex, mas até isso pode ser colmatado com o posicionamento criterioso mais perto das paredes, sem afetar a uniformidade da iluminação do palco e o comportamento de quem o habita.

Conclusão

As Magico A1 são caras (10.900€), pesadas (22kg) e alegadamente demasiado pequenas para o preço (39 x 30 x 21 cm). Mas têm um coração grande, protegido por uma carapaça indestrutível de metal, e uma qualidade de som que bate o pé a muitas colunas de chão.

As Magico A1 são as melhores monitoras desktop que já ouvi. Ponto. Mais: que desejo continuar a ouvir até quando for possível, porque são um instrumento de trabalho imprescindível. Ponto. Parágrafo.

Para mais informações: IMACUSTICA

Artigos Associados:

Dossier de vida: Ricardo Franassovici

Krell K-300i – a Krell contra-ataca

Copland CSA100 – a sereia escandinava

Video de apresentação de JVH no Facebook

 

JVH foto from video (2)


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