Editorial

Dossier de vida: Ricardo Franassovici

Ricardo Franassovici com JVH - Veneza, Italia, 2010 .jpg

Ricardo Franassovici foi a personalidade que mais influenciou a minha carreira, como crítico e audiófilo. Foi ele que me apresentou as principais figuras da cena áudio internacional, como Franco Serblin, Dan D’Agostino e David Wilson; e alguns equipamentos que, então, apenas viviam no meu imaginário, como a Apogee, Krell e Sonus faber. Aqui fica a justa e merecida homenagem.

Recentemente, Ricardo Franassovici concedeu uma longa entrevista ao Hificlube.net, que me suscitou o desejo de recuperar do arquivo dezenas de fotos (ver galeria) e todas as entrevistas em vídeo (e em papel: Imasom/1987 e DN/1994, que podem abrir em pdf no final do artigo), que ele me foi concedendo ao longo dos anos.

Assim como reproduzo (com algumas alterações) um texto que publiquei em 2008, por ocasião da passagem dos 30 anos da Absolute Sounds Of London:

Há mais de 40 anos que tenho o privilégio de ser amigo de Ricardo Franassovici. Já contei aqui o episódio curioso do nosso primeiro encontro, no âmbito das Journées de la Haute Fidelité, no Hotel Nikko, em Paris.

Ricardo estava na ocasião acompanhado pelo distribuidor das Quad, um marselhês gordo, que contava histórias picantes das Quad ELS63 “nuas”, como se estivesse a falar de bailarinas do Moulin Rouge:

"Só não convém beijá-las, quando estão a tocar – o beijo delas é quente e mortal...", dizia, com um riso pícnico, profundo no tom e no sentido brejeiro...

Quando entrei na sala, tentei explicar, no meu melhor francês, que tinha vindo de Portugal expressément para ouvir as Apogee. Ricardo saudou-me na língua de Camões, com grande surpresa minha, como se já me conhecesse há muito tempo:

“Tás bom, pá!, senta-te aqui, bebe um copo. Ah! Portugal…que bom, adoro aquele país como se fosse meu: Cascais, Estoril… o Guincho, o peixe fresco, os gelados do Santini, que saudades!... passava lá as férias de verão, quando era miúdo, na casa de uma tia que era Condessa, sabias?…”.

Desde então, é como se, de facto, nos tivéssemos conhecido desde sempre. Sem nunca nos termos cruzado antes, fomos ambos influenciados pelo mesmo ambiente sociogeográfico – a Costa do Estoril, nos anos sessenta.

Naquela época, a vida era mais risonha e simples, e não havia poluição, nem no mar nem no ar, a comida era boa e barata (abundava o marisco a pataco), o nível de construção (civil) era baixo e o da segurança alto. Havia outros problemas, é certo, mas a juventude primeiro e os anos depois tendem tendência a só guardar na memória as coisas boas; exceto a guerra, que nunca se esquece...

O cheiro do mar, o prazer de sentir a areia molhada nos pés, nas longas caminhadas pela praia, com o sol a beijar-nos a pele bronzeada e saudável, o gosto único do peixe fresco acabado de pescar; e o sabor irrepetível das bolas de Berlim anunciadas pelas vendedeiras de avental branco e imaculado.

E os pregões: os que nos despertavam da modorra dos fins-de-tarde estivais no Tamariz; e os das castanhas fumegantes no outono, embrulhadas em cones amarelos de lista telefónica, ou de papel de jornal com notícias cinzentas a preto-e-branco.

Tudo isto faz parte de uma paleta comum de sensações indeléveis, a que o destino resolveu juntar depois a paixão pela música reproduzida no limite da perfeição, num aparente desejo subconsciente de reviver o som poderoso das ondas salgadas e frias do Guincho iluminadas pela bola de fogo do sol, derretendo-se lentamente no mar como um gelado do Santini no céu da boca.

Há coisas que nos marcam para sempre. Eu, por exemplo, não sei viver longe do mar – ou da música. Mesmo que só o oiça ao longe, mesmo que o sistema não esteja a tocar. Basta-me saber que estão lá à minha espera.

Diz-se dos locais onde fomos felizes que a eles não devemos voltar nunca. São loucos, não sabem o que dizem. Nunca aprenderam o verdadeiro significado da palavra saudade, como Ricardo aprendeu à sua custa.

Como ele gosta de voltar aos locais onde foi feliz: a Cascais, ao mar do Guincho, essa entidade mítica que ainda o atrai como as sereias a Ulisses, que lhe cantam o fado e o "entristecem" de felicidade. Estava escrito que seria esta a sua sina: ter sucesso na vida.

Eis como um francês, de ascendência romena, charmeur e cidadão do mundo, un vrai sorcier du audio, residente em Londres, que domina tantas línguas, incluindo a de Camões, quantas as culturas que assimilou ao longo da vida, me iniciou, por um daqueles acasos em que o destino é pródigo, no contacto com os melhores equipamentos de som do mundo, sem que a amizade cimentada no longo percurso comum alguma vez fosse chamada por ele à colação, quando chegava a altura de publicar a minha avaliação sempre imparcial.

Porque a amizade implica respeito mútuo. Acaba depressa e mal tudo o que se baseia apenas no interesse pessoal. Tal como na adolescência, continuamos a viver vidas paralelas, em ambiente social diferenciado, num topos existencial que nos une para lá da distância – o highend. Assim seja por muitos anos. Oxalá.

A galeria fotográfica



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Ricardo com Michael Fremer - Vicenza, Italia 2014.jpg
Ricardo com o seu grande amigo Enzo Natali, Las Vegas, USA - 2003.jpg
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Ricardo Franassovici com Dan D'Agostino, Kempinski, Frankfurt, Highend 2003.jpg
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Ricardo Franassovici com Franco Serblin, Steve Harris e Ken Kessler - na fábrica da Sonus faber em Arcugnano, Italia 2003.jpg
Ricardo Franassovici com Gayle Sanders (Martin Logan), NY 1996.jpg
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Ricardo Franassovici e Peter McGrath (Wilson Audio), conversando com um cliente (Imacustica, Lisboa, 2013).jpg
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Ricardo Franassovici, na sua casa em Wimbledon, Londres (1994).jpg

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Guincho, Cascais, 2020

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Ricardo com Michael Fremer Vicenza, Italia 2014

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Ricardo com o seu grande amigo Enzo Natali, Las Vegas, USA 2003

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Ricardo Franassovici WOM, NY 2015

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Ricardo Franassovici com as SF Cremonese WOM, NY 2015

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Ricardo Franassovici com Dan D'Agostino, Kempinski, Frankfurt, Highend 2003

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Ricardo Franassovici com Dan D'Agostino, Munique, Highend 2012

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Ricardo Franassovici com Franco Serblin e as Stradivari, Arcugnano, Italia 2003

Ricardo Franassovici com Franco Serblin, Steve Harris e Ken Kessler - na fábrica da Sonus faber em Arcugnano, Italia 2003.jpg

Ricardo Franassovici com Franco Serblin, Steve Harris e Ken Kessler na fábrica da Sonus faber em Arcugnano, Italia 2003

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Ricardo Franassovici com Gayle Sanders (Martin Logan), NY 1996

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Ricardo Franassovici com JVH Veneza, Italia, 2010

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Ricardo Franassovici com Ricardo Polónia, Imacustica, Lisboa 2017

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Ricardo Franassovici e Manuel Dias, Vicenza, Italia, 2014

Ricardo Franassovici e Peter McGrath (Wilson Audio), conversando com um cliente (Imacustica, Lisboa, 2013).jpg

Ricardo Franassovici e Peter McGrath (Wilson Audio), conversando com um cliente (Imacustica, Lisboa, 2013)

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Ricardo Franassovici, na sua casa em Wimbledon, Londres (1987)

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Ricardo Franassovici, na sua casa em Wimbledon, Londres (1994)

As entrevistas em vídeo

Ricardo Franassovici com JVH Veneza, Italia, 2010

Guincho, Cascais, 2020

Ricardo com Michael Fremer Vicenza, Italia 2014

Ricardo com o seu grande amigo Enzo Natali, Las Vegas, USA 2003

Ricardo Franassovici WOM, NY 2015

Ricardo Franassovici com as SF Cremonese WOM, NY 2015

Ricardo Franassovici com Dan D'Agostino, Kempinski, Frankfurt, Highend 2003

Ricardo Franassovici com Dan D'Agostino, Munique, Highend 2012

Ricardo Franassovici com Franco Serblin e as Stradivari, Arcugnano, Italia 2003

Ricardo Franassovici com Franco Serblin, Steve Harris e Ken Kessler na fábrica da Sonus faber em Arcugnano, Italia 2003

Ricardo Franassovici com Gayle Sanders (Martin Logan), NY 1996

Ricardo Franassovici com JVH Veneza, Italia, 2010

Ricardo Franassovici com Ricardo Polónia, Imacustica, Lisboa 2017

Ricardo Franassovici e Manuel Dias, Vicenza, Italia, 2014

Ricardo Franassovici e Peter McGrath (Wilson Audio), conversando com um cliente (Imacustica, Lisboa, 2013)

Ricardo Franassovici, na sua casa em Wimbledon, Londres (1987)

Ricardo Franassovici, na sua casa em Wimbledon, Londres (1994)

Ricardo Franassovici, entrevistado em Wimbledon por JVH

Publicado na revista IMASOM em 1987 e no DN em 1994


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