Reviews Testes

Estelon Extreme

Arte é a transformação do real que permite ver/ouvir/sentir para além da percepção da vida pelos sentidos: sons, cores, formas...

O que é a arte? A imitação da vida? Não só, ou as colunas de som continuariam hoje a ser apenas caixotes com altifalantes aparafusados.


Arte é a transformação do real que permite ver/ouvir/sentir para além da percepção da vida pelos sentidos: sons, cores, formas...


Até ao final dos anos setenta, procurava-se reproduzir sons sem grandes preocupações estéticas, como se os olhos não “ouvissem” também. Foi na década de oitenta que começaram a surgir as primeiras “provocações visuais” no mercado do áudio. Em alguns casos, eram apenas isso: provocações a roçar o insulto artístico, a heresia. Mas foi assim que surgiu também a arte da escultura audiófila.


Tenho um vasto espólio fotográfico, com inúmeros exemplos de modelos mais ou menos exóticos que, nas minhas reportagens no DNA, eram relegados para a categoria de “estranhas forma de vida”.


A maior parte não passavam de tentativas mal sucedidas de “fugir” à norma para atrair audiófilos incautos. Foi talvez com as incríveis Nautilus que a forma passou de simples desvario artístico a relação científica de causa e efeito.


Hoje, até os fabricantes que antes cultivavam o ascetismo estético do caixote primordial se renderam à estilização de linhas, ângulos e curvas, produzindo obras de arte funcional.


Há já muito tempo que a ingenuidade artística não me excitava as little grey cells, para citar Poirot – e o que é o crítico se não um detective que desvenda crimes de lesa-áudio? Prefiro a ingenuity, que significa engenho, na busca da simbiose perfeita entre forma e conteúdo.


O som não é mais genuíno e puro só porque se alega que foi esse o principal objectivo no acto de concepção, ignorando-se a vertente estética, durante muito tempo considerada irrelevante num contexto estritamente audiófilo; do mesmo modo que a beleza, ou o exotismo das colunas, só por si, não abona a favor ou contra o potencial desempenho acústico.


Mas convenhamos que, se vamos passar horas a olhar para aquelas “figuras” estáticas ali especadas à nossa frente, numa configuração simétrica e monótona, ao menos que os olhos – e não apenas os ouvidos - tenham igual motivo de deleite.


O actual estado da arte corresponde assim a uma inversão (e não me refiro à fase eléctrica ou geométrica), em relação ao do século XX, quando todos os caixotes eram iguais mas uns reproduziam sons mais iguais que os outros.


À medida que as colunas, sobretudo as de transdução dinâmica, ditas convencionais, se individualizavam em termos de design (se exceptuarmos as ubíquas variantes da secção em forma de alaúde de mestre Franco Serblin), os “sons” eram au contraire cada vez mais iguais, porque quase todos os fabricantes utilizavam altifalantes e filtros prontos-a-usar e as mesmas ferramentas informáticas para avaliar o seu desempenho no ambiente virtual dos laboratórios, que permitiam atingir objectivos acústicos pré-definidos e matematicamente calculados, numa busca insana pela “neutralidade” tout court, adorada por computadores e cedo rejeitada por humanos.


Um dos dogmas audiófilos do início do séc. XXI era – e em certa medida ainda é - que as colunas devem reproduzir o som original – o que quer que isso seja num evento que foi gravado, logo adulterado - sem adição ou omissão, idem para o que isso possa significar.


Assim, não admira que, em muitos casos, só fosse possível distinguir o desempenho de colunas de qualidade e preço equivalente em função das suas (in)compatibilidades com o equipamento complementar (amplificação, cabos, etc.) e os maus ou bons modos das salas onde actuavam, enquanto no plano estético as diferenças eram (e continuam a ser) tão óbvias quanto mais “artísticamente” arrojadas as soluções adoptadas.


Actualmente, assiste-se a uma nova tendência: a do “som com assinatura”, o que não significa “com coloratura”.


Mesmo os fabricantes que fazem propaganda à “neutralidade” dos seus produtos, como resultado da utilização de materiais inertes de origem sintética ou metálica, sem as inerentes ressonâncias resultantes da vibração espúria não-harmónica, já optaram por sons “com personalidade”, assim como uma espécie de “cuisine d’auteur” agora tão na moda.


Veja-se, ou oiça-se, apenas a título de exemplo, a evolução tonal nos últimos anos das “metálicas” Magico e YG Acoustics, que têm vindo a “humanizar-se”, aproximando-se das suas congéneres fabricadas com materiais orgânicos...

Alfred Vassilkov e a filha Alissa Vassilkova (courtesy Scott Hull, The Audio Traveller)

Alfred Vassilkov e a filha Alissa Vassilkova (courtesy Scott Hull, The Audio Traveller)

Alfred Vassilikov, projectista da Estelon Extreme , considera que, cumpridos escrupulosamente todos os requisitos técnicos de absoluta “fidelidade ao sinal”, o autor deve ter o privilégio da “personalização” do som, porque a escolha do consumidor é feita com base na individualidade estética mas também acústica do produto, que é sempre reflexo da personalidade de quem o cria e de quem o compra.


A equipa da UAE comunga desta opinião. Basta comparar as diferenças entre algumas das marcas de colunas do seu vasto portfolio: Marten, Rockport, TAD, YG Acoustics e, claro, as Estelon. Todas exibem um desempenho técnico irrepreensível e, no entanto, têm personalidades bem diferentes para gostos, sistemas e salas diferentes.


O tamanho da bolsa também não é...uh... indiferente...


Estelon Extreme: três foi a conta que Deus fez

Ouvi as Estelon Extreme pela primeira vez em ante-estreia no Highend 2014, de Munique, com amplificação Vitus; depois no Audioshow 2014, em Lisboa, com electrónica Trinity; e, agora, finalmente, no auditório principal da UAE, em Benfica, numa longa sessão privada, em condições próximas das ideais, integradas num sistema composto por:

UAE - Sistema de suporte (em primeiro plano The Mighty VTL Siegried)

UAE - Sistema de suporte (em primeiro plano The Mighty VTL Siegried)

Transporte – Emm


DAC – Trinity


Pré – VTL 7.5


Monoblocos – VTL Siegfried


Cabos:


Digital – Stein


Analógico – Mamba


Coluna – Gobel


Corrente – Mamba/Power Stealth


Filtro corrente – Mamba


Nota: os componentes acima designados e a acústica do auditório principal da UAE são factores determinantes no desempenho global das Estelon Extreme e nas conclusões a que cheguei.

The Estelon Extreme World Tour

Highend 2014 - Munique - estreia mundial das Estelon Extreme

Highend 2014 - Munique - estreia mundial das Estelon Extreme

Em Munique, a inegável beleza e sumptuosa harmonia dos registos médios e o brilho aveludado dos agudos não lograram iludir o efeito do grave pesaroso induzido pelos (maus) modos da sala.

As Estelon Extreme no Audioshow 2014, Lisboa

As Estelon Extreme no Audioshow 2014, Lisboa

Em Lisboa, a abundância de espaço circundante permitiu às Estelon Extreme abrir as asas e mostrar a enorme envergadura da imagem estereofónica, de dimensões cinemáticas, salvo quiçá o paradoxo virtuoso de um excesso de ilusão de profundidade, que pecou por gula no Messias, de Handel.


Logrei detectar ainda uma pitada a mais de sala no “peito” respeitável e condecorado (não pelo Presidente da República) de Carlos do Carmo, rezando o fado sobre um terço de contas de marfim e ébano, que elevava premonitoriamente Bernardo Sassetti ao assento etéreo onde se partiu.

As Estelon Extreme no auditório principal da UAE

As Estelon Extreme no auditório principal da UAE

Em Benfica, terra-sagrada (também tenho direito a uma provocação...), sujeitei as Estelon Extreme a condições de audição extremas. Por motivo de falta de comparência do Lumin D1, que se atrasou na viagem, utilizei exclusivamente um stress-test compilado em CD-R (Red Book), que utilizo sem remorso como instrumento de interrogatório preliminar e tortura.


Três actuações, três “sons” diferentes, pautados pela electrónica associada e a acústica diversa, quando não mesmo divergente, das salas, embora estivesse sempre subjacente no meu espírito o “som Estelon”, que se caracteriza por:


- organicidade: na qual se incluem os timbres quentes e as texturas aveludadas;


- expansividade: patente nas volumetrias generosas e nas relações tempo/espaço dos intervenientes em palco;  


- respiração dinâmica: por onde (per)passa o suspiro langoroso do instrumento a solo, o arfar sensual das vozes e o sopro tempestuoso e atmosférico das grandes massas orquestrais em movimento.


- atmosfera acústica: não sendo a colunas com mais resolução do portfolio da UAE, as Estelon, sobretudo as Extreme, têm uma notável capacidade para reproduzir, não só a densidade harmónica mas também a densidade atmosférica (ver abaixo).


A audição

A minhas audições críticas seguem um método pessoal, que inclui um programa musical eclético, composto por 40 faixas que vão dos sinais teste à música folk, country, pop, rock, jazz e clássica.


O processo inicia-se pela identificação, reconhecimento e individualização de canais, fase, absoluta, relativa e registo topográfico da largura, profundidade e altura da imagem. Os sinais mono e fora-de-fase avalizam o posicionamento correcto das colunas na sala vis-a-vis o do ouvinte comodamente sentado na sweet-spot. Segue-se o momento da verdade: a música.


Ligadas ao polígrafo Trinity/VTL, as Estelon Extreme resistiram a tudo e não denunciaram nada nem ninguém:


- resposta imediata a transíentes violentos sem um gemido sequer, ou pedido de clemência;


- excelente projecção e corporização dos sons, soltando-se das amarras físicas da...Física;


- grave mais intenso que tenso, admito; com a extensão da oitava telúrica algo coarctada pelo tratamento acústico e dimensão do auditório, que limita a formação integral de comprimentos de onda demasiado longos, como os que correspondem a frequências abaixo dos 35Hz;


- imagem ampla, profunda, impressionante sobretudo em altura (sem surpresa, dadas as suas características alienígeno-antropomórficas), muito estável e coesa, no melhor estilo da concentricidade da TAD, o que é notável numa coluna multivia, e só pode encontrar justificação no correcto ajuste do linhamento temporal;


- enfoque natural, contudo sem a precisão de sniper das YG;


- dinâmica avassaladora na linha das Rockport Altair, quando instadas por Miguel Carvalho a pronunciar-se de viva voz, alto e bom som;


- coerência de fase no limite da perfeição, sem atingir o supremo patamar das Marten Supreme II, é certo, mas com timbres correctos, em marinada de tons meridionais, quentes e luminosos, de textura aveludada e tessitura densa sem alterações significativas com a variação do volume.


Nota: por textura refiro-me à sensação “táctil” do som: macio, áspero, rugoso, fôfo, liso, etc.; por tessitura à densidade harmónica e sensação de plenitude sonora.


Conclusão

Em termos absolutos, ousando retirar da equação a relatividade de preços, tamanhos e feitios, os equipamentos complementares e o tempo e o modo das diferentes audições, são estas basicamente as minhas conclusões prévias, que não são mais que um juízo pessoal e subjectivo, logo sujeito a erro e como sempre aberto ao contraditório:


Sem exibirem a precisão matemática das YG Sonja, a dinâmica e largura de banda dos puros-sangue da Rockport; a coerência das TAD Reference; e a imponência imagética e pureza tímbrica das majestosas Marten Supreme II, com quem partilham, aliás, as unidades cerâmicas da Acuton, tenho dificuldade em apontar-lhes qualquer lacuna específica em cada um destes condimentos acústicos essenciais, mesmo numa audição crítica prolongada e atenta, como a que me foi proporcionada na UAE, tal a excelência da integração forma/função, a que não foi alheio o profissionalismo e competência da equipa da UAE na montagem e afinação judiciosa de todo o sistema.


Mas há uma característica particular que as distingue: é quase possível “medir” quantos metros cúbicos de ar envolvem as fontes de som, sejam vozes ou instrumentos, desde o espaço claustrofóbico onde a cantora regista a voz em separado sobre um registo instrumental prévio, com o auxílio de auscultadores; ao frémito produzido no ouvinte pelo súbito tinir de uma sineta na acústica de uma igreja; ou a turbulência do ar soprado para dentro dos tubos de diferentes diâmetros de uma flauta dos Andes.


Soundbyte (for foreign readers)


The Estelon Extreme has an intimate relationship with the air it moves, procreating music with endless combinations of air molecules, and moving us with the beauty of the resulting musical offspring.

Nas Estelon Extreme, os extremos tocam-se (e se tocam bem!...): o preço, o design original e esteticamente arrojado, quase provocante na sua génese extraterrestre, a complexa organolepticidade acústica, tudo se concilia para formar o círculo perfeito (dispersão polar esférica) na quadratura da sala de audição.


As Estelon Extreme são um tour-de-force tecnológico e artístico, qualquer que seja o prisma da abordagem crítica: visual, acústica, funcional e – hélas – económica, pois, como o nome indica, têm também um preço algo...uh... extremo: 170 000 euros!


Serão as Extreme apenas mais um fruto da ideologia audiófila extremista reinante, nesta era de todos os fundamentalismos? Oxalá, porque com extremismos destes posso eu viver bem:


Je suis Estelon, extrêmement...


 


ESTELON EXTREME

Estelon Extreme review summary (re)written in English by:
José Victor Henriques, Editor


Once upon a time all loudspeakers were boxes with drivers bolted to the front baffle. So they all looked more or less the same, albeit sounded a lot different. Then manufacturers started to work on the aesthetics first, playing with angles, curved lines and weird shapes, until the Nautilus started a new trend: the form and function sculpting of loudspeakers.


A few decades later we found ourselves in a situation where although looking very different loudspeakers sounded exactly alike, due to an insane quest for the Graal of neutrality, whatever that might mean, considering we are dealing with a recording of an event, not the event itself, so the ‘absolute sound’ will always be the proverbial unreachable star.


At least visually, many loudspeakers were created different, but used off-the-shelf drivers and crossovers, and the same developing and testing software kits, which resulted in ever so more linear response and lower distortion until they reached the technical aim of perfect performance as approved by computers and disliked by humans.


Highend audio manufacturers know better today, and like to offer functional art with just a hint of ‘house sound’. All being equal some loudspeakers are thus now more equal than others, exhibiting a distinctive sound of their own which must not be judged as a colouration ‘per se’, just a creator’s ‘signature’, something like a genetic marker.


Estelon are loudspeakers with DNA, and while the measure of ultimate sound quality depends on the model, there are some audible common trends like:


- expansiveness: a volumetrically generous soundstage with correct time/space relationships;
- dynamic breathing: from the languid whispering of a solo flute to the sensual gasping of voices and the atmospheric tempestuous movement of large scale orchestras.


And while they don´t boast the high detail resolution and pin point accuracy of some other brands in the vast portfolio distributed by Ultimate Audio Elite (Marten, Rockport, YG Acoustics…), their sound is uncanny in the display of harmonic density and atmospheric eeriness, the Extreme even more so than lower Estelon models, as it should at a price of 170 000 euros.


The rite of passage ordeal

I put the Estelon Extreme through an ordeal, using a stress-test-disc with an eclectic taste of some 40 tracks of all kinds of signal tests and music, a real instrument of torture. They were connected to the Trinity/VTL ‘polygraph’ and did not ‘snitch’ either on tone or timbre:


- fast response to violent transients with nary a complaint or pleading for clemency;
- excellent sound projection and singer materialization in the listening room, while cutting the physical leash of…uh…Physics with a vanishing act;
- bass was more intense than tense (read, tight), and I must admit the lowest telluric octave below 35Hz was somewhat limited by room dimension and acoustic treatment;
- image was wide, deep and impressively high (no surprise here giving that unique mix of alien and anthropomorphic tall appearance);


For further elucidation I compared by heart – literally - the Estelon Extreme ‘signature’ to that of some other loudspeaker brands distributed by UAE in Portugal and previously auditioned:


- image was very stable almost in a TAD like concentricity fashion (a notable characteristic considering the Extreme is a two module multi driver speaker), conveying a feeling of cohesiveness I tentatively attributed to the UAE staff judicious tuning by adjusting the upper module height relative to the sweet spot distance where I was sitting;
- focus felt just natural although not up to the ‘sniper’ precision of, say, YG Acoustics Sonja.
- dynamics were overwhelming and in the same league as the Rockport Altair;
- phase coherence was close to perfection, although it did not reach Marten Supreme II level, which by the way share some of the Acuton ceramic drivers but cost almost double the price;
- as compared to YG cooler ‘presentation’, timbres sounded tastefully marinated in meridional tones, lusciously warm and luminous, with a velvety texture and complex ‘tessitura’ that did not change with volume variations.


And yet, as a system I cannot fault it, since they don’t miss any of the essential sound condiments that make up a reference loudspeaker. Moreover, the Extreme have that ‘Je ne sais quoi’ that separates the pick from the pack: an intimate relationship with the air they move in the room, procreating music with endless combinations of air molecules, and emotionally moving the listener with the sheer beauty of the resulting musical offspring.


JVH


 


Distribuidor: ULTIMATE AUDIO ELITE


Arte é a transformação do real que permite ver/ouvir/sentir para além da percepção da vida pelos sentidos: sons, cores, formas...

Alfred Vassilkov e a filha Alissa Vassilkova (courtesy Scott Hull, The Audio Traveller)

UAE - Sistema de suporte (em primeiro plano The Mighty VTL Siegried)

Highend 2014 - Munique - estreia mundial das Estelon Extreme

As Estelon Extreme no Audioshow 2014, Lisboa

As Estelon Extreme no auditório principal da UAE