2009

Martin Logan Summit X: X + Y = Z(é)

Martin Logan Summit X: X + Y = Z(é)
Um dia, em Munique, David Allen, da Martin Logan, perguntou-me o que eu achava das Summit, quando soube que as tinha em casa para teste. Respondi-lhe com a franqueza que sempre pautou a minha atitude perante o áudio: too much bass...
 
 


David Allen, em Munique 2007, quando as CLX ainda eram segredo de estado...



A primeira vez que as ouvi em Las Vegas, ainda na forma de protótipo, fiquei siderado pela naturalidade dos registos médios e o poder do grave. Mas na minha sala, por mais voltas que desse aos botões, que regulam a “quantidade” de graves centrados nas frequências de 25Hz e 50Hz, nunca consegui melhorar a “qualidade” (ler teste em Artigos Relacionados).  







Martin Logan Summit, uma obra de arte
 



Portanto, quando David me disse:“we are working on it”, eu sabia que vinha aí uma versão MkII. E aproveitei para sugerir três soluções: mudar o crossover e eliminar a possibilidade de bicablagem, porque rouba coerência e prejudica a integração entre secções;aumentar a distância do woofer  inferior em relação ao chão e, consequentemente, também do woofer  frontal, permitindo ao primeiro “respirar” melhor e ao segundo temporizar o reflexo secundário; facilitar o ajuste da inclinação (rake angle), que é fundamental para o equilíbrio tonal entre o painel e o woofer.  
 
 


As Summit X de Saltos altos (foto catálogo, copyright Martin Logan)
 

Entre outras coisas sugeri ainda que o factor de qualidade (Q factor) da secção de graves fosse alterado para os tornar menos expansivos e mais “secos”.
 

 


Foto de catálogo copyright Martin Logan


A Martin Logan não precisa dos meus conselhos mas é com satisfação que vejo (melhor, oiço) que seguiram o mesmo caminho que eu teria seguido. Tudo o que eu sugeri foi aplicado na nova versão X, não necessariamente por ter sido eu a sugerir mas porque era o caminho mais lógico.
Devo ter sido um dos poucos críticos a levantar a questão do “peso específico” dos graves das Summit originais, quando todos os outros as colocavam nos píncaros. Não me surpreende, pois, que as primeiras reacções nos círculos “loganianos” (no Martin Logan Club, por exemplo), se defenda que a X não traz nada de novo que justifique o aumento de preço. Eu acho que traz – e muito.
 
 



Martin Logan CLX: apresentação mundial no Highend 2008, Munique


A X é o que a Summit devia ter sido em primeiro lugar: a melhor coluna híbrida do mercado mundial! E vou ainda mais longe, prefiro as Summit X às CLX, que sempre me pareceram um “patchwork” – e não me refiro apenas ao design, discutível, mas também ao som, igualmente discutível. Sem falar no tamanho e no preço...

Contudo, foi às CLX que as Summit X foram buscar a inspiração para o crossover Vojtko com fase variável na passagem de testemunho com controlo de dispersão. Seja o que for que isto signifique, resulta. Enquanto o grave das Summit soava como se andasse pela sala aos tombos, o das X é igualmente poderoso mas sólido e estável.




Summit originais: painel traseiro
 



Summit X: painel traseiro (copyright Martin Logan)
 
Não sei se a ML substituiu também os amplificadores escravos que alimentam os altifalantes de graves, mas para já esta é a melhor implementação da tecnologia híbrida: “the Force is with them”. As caixas de graves das Summit X funcionam como verdadeiros “subs” com sinal musical útil até aos 20Hz (!), sem que as sensíveis oitavas acima, entre os 40Hz e os 160Hz, sofram qualquer espécie de “overhang” ou arrastamento favorecendo o acoplamento acústico com a sala de audição, ao contrário do que sucedia com as originais. E eu que pensava que não era possível ouvir um sinal de teste de 20Hz na 'Capela'.

Acima dos 200Hz, o painel vai tomando conta das operações sem se deixar intimidar pelas manifestações de força e violência doméstica na cave, com elegância e classe e aquela luminosidade e abertura de espírito tão própria das electrostáticas.


Eu diria mesmo que este é o melhor grave que já ouvi no meu estúdio (com ou sem subwoofers !!): profundo, poderoso, articulado e com um impacte visceral. Do tipo trouser leg flapping. Nunca um pedal de bateria me soou tão sólido, vigoroso e timbricamente correcto. Sim, eu já tive por cá umas Wilson Watt/Puppies, por isso sei do que estou a falar...


O ênfase aos 31,5Hz (frequência de ressonância da sala) continua lá, mas desta feita é possível controlá-lo sem esgotar a escala dos potenciómetros que regulam as frequências centradas nos 25Hz e 50Hz.


Mas não é só isso, meus caros: os altifalantes de alumínio páram quando o sinal cessa e, como a ressonância das caixas fechadas está também ela controlada, as ondas estacionárias a la reflex não se chegam a formar na sala, e o prazer da audição com pressões sonoras elevadas não é minimamente afectado. E quando eu escrevo “a altos níveis”, I mean it, guys! As X tocam a níveis que nunca estarão ao alcance das electrostáticas naturais.


Tal como as Summit, as X são colunas todo-o-terreno, que tanto rodam em velocidade de cruzeiro nos prados verdejantes da música barroca, como andam a abrir por caminhos de cabras enlameados de música rock. A diferença está na tracção às 4-rodas: o pára-arranca é excepcional; e na suspensão, que é agora mais rija (stiff) para evitar os “capotanços” (ao “secar” o grave com a alteração do “Q” e a manipulação da fase facilitou-se a integração com o painel), mantendo-as coladas ao chão independentemente da qualidade do piso e as oscilações do percurso.


As Summit X nunca se desligaram, distorceram ou deram parte de fracas em nenhuma circunstância. Muito menos deitaram chispas azuis (arcing). Dos Supertramp ao coro do Trinity College nunca se fizeram esquisitas e cumpriram sempre o que exigi delas: do som de concerto ao som de convento estão à vontade em todos os ambientes.




Foto de catálogo(copyright Martin Logan)


A ligação caixa/painel tem vindo a ser aperfeiçoada de tal modo que na foz a temperatura e a qualidade das águas do mar (grave) e do rio (painel) é cada vez mais difícil de distinguir. Com a maré cheia, detectei um toque de “peito” (eu disse peito, não busto...) em algumas vozes femininas, facilmente regulada com um fecho de -3dB na comporta dos 50Hz. E com ruído rosa, um som cavo e desgarrado no fundo da cascata (produto da sala) só precisou de um subsídio de integração social de -2dB aos 25Hz.

Apesar disso, a “alínea X” eliminou todas as reservas que tinha em relação à performance das Summit originais, sobretudo do grave. E assino de X.


Estes valores são meramente indicativos e podem variar com a sala, o tempo de “queima”, a colocação, o “toe-in ” e a inclinação (rake angle); e ainda com o equipamento complementar e até o programa musical.


Na fase de testes, os faróis de marcha atrás das X foram muito úteis, pois um ponto a mais ou a menos no potenciómetro pode fazer toda a diferença. E quando a sala está às escuras até acho graça ao halo de luz por baixo das colunas...


Mas há outra coisa que “emana” da parte de baixo das X: um ligeiro sopro dos amplificadores de Classe D (2 x 200W) que alimentam os “woofers”, um restolhar que não chega a ser tão incomodativo como o ronronar das Spire, que numa sala surda e muda como a minha se ouvia nos intervalos da música.


Enquanto verde, o painel continua a exibir algum “glare”, uma tendência para soar por vezes duro e constrangido, que vai desaparecendo com o uso (300 horas). Mesmo depois de “queimadas” soam melhor após 1 hora de utilização intensiva, ganhando características holográficas: a separação no espaço entre solistas e acompanhantes chega a ser assustadora.


Por outro lado, notei também (e medi, porque a partir daqui os meus ouvidos não são de fiar) uma pendente mais rápida no agudo a partir dos 15kHz, algo prematuro pelos padrões actuais, roubando-lhes um pouco de “ar” lá em cima no cume, embora minimize as vagas sugestões de aspereza no registos médio-altos que se insinuam por vezes na fase de “queima”.


De resto, os novos painéis X-Stat são de uma transparência visual e acústica inigualável. Além de serem resistentes a tudo: do mau ambiente à má música e aos maus tratos (podem até ser aspirados).


Atenção, o painel X-Stat não é pêra-doce para alimentar, a impedância desce à medida que a frequência sobe, logo a partir dos 10kHz, atingindo os 0,7 Ohm aos 20kHz! Na prática, isto significa que, apesar do grave activo, as X só aparentemente são um bom casamento para as válvulas (arredondam-lhes a saia, perdão, o som, é certo). Tocam muito bem com um PrimaLuna Dialogue Two, por exemplo: sendo muito sensíveis, não precisam em teoria de muita potência e até soam melhor a tocar alto que baixo. Contudo, como todas as electrostáticas, reagem ao abuso com tensão na voz, perdendo alguma da delicadeza que as caracteriza, sobretudo nos registos médio-altos.


Isto até as ligarmos a um Krell Evolution 302. É como dar oxigénio a um alpinista. Lembrem-se, as X alimentam-se de corrente mais do que de tensão – são carnívoras não são herbívoras.

 
 


Foto de catálogo(copyright Martin Logan)




As Summit X exibem a transparência e a rapidez de resposta a transitórios nos registos médios típica das colunas electrostáticas. E a resolução é de tal ordem que a simples mudança de um cabo se sente de imediato no equilíbrio tonal. Contudo, até porque se apresentam nuas em pelota, sem um manto diáfano que lhes cubra a fantasia, como as Quad, podem soar para alguns demasiado “claras”.

Este aparente excesso de luminosidade, que as torna pouco simpáticas para certos CDs, pode ser contrariado experimentando-se com o “toe-in” : não devem ser apontadas directamente à cabeça, antes disparar para um ponto virtual situado atrás do ouvinte, cuja distância faz variar em conformidade a que nos “separa” da boca do palco sonoro; ou seja, nos vértices ligados pela diagonal mais longa de um losango cuja diagonal mais curta é o plano das colunas que constituem os outros dois vértices do losango.


As X não gostam de estar demasiado afastadas uma da outra: o centro perde solidez e as vozes perdem corpo e textura – em caso de afastamento, aumente o toe-in: ganha em solidez o que perde em equilíbrio tonal. De facto, sendo dipolos acima dos 160Hz (os woofers também funcionam como dipolos logo abaixo da frequência de corte e em fase abaixo dos 100Hz), com a onda frontal e traseira separada por uma moldura muito fina e em oposição de fase. Ao cancelarem-se mutuamente, irradiam pouco ou nenhum som para os lados, facilitando assim a colocação numa sala mais comprida que larga, próximas das paredes laterais.




As Summit foram ouvidas na 'Capela'


Foi esta a opção no meu pequeno estúdio para audições solitárias, tratado de forma a ter um tempo de reverberação muito baixo, o que aliado à audição no campo próximo, favorece o som directo e elimina grande parte do som reflectido da equação acústica, que é a principal praga da maior parte das salas cúbicas ou de grandes dimensões: boas para impressionar as visitas, más para reproduzir música. Ao contrário das Summit originais, as X adaptam-se a salas pequenas.

Há quem prefira a ambiência de Catedral. Eu oiço música como quem reza numa capela - a sós com Deus.


A busca da tonalidade ideal faz-se ainda com o fine tuning da inclinação (rake angle de 1º a 11º). Ao contrário do que sucedia com as Summit, prefiro ouvir as X totalmente reclinadas para trás em sensual abandono: no campo próximo o equilíbrio tonal melhora e a integração também.


As Summit X são a melhor coluna híbrida da Martin Logan que ouvi lá, cá ou em qualquer outro lugar. Mais: as X são a melhor coluna semi-electrostática que já ouvi. Mais ainda: as X são as colunas mais completas (poder, transparência, claridade, leveza e beleza) que já ouvi no meu estúdio, e as que melhor se adaptam a ele – e a mim...


Fabricante: Martin Logan, EUA
 
Distribuidor: Imacústica, Portugal



 


Martin Logan Summit X: X + Y = Z(é)