2009

Em Busca Da Esmeralda Perdida

Em Busca Da Esmeralda Perdida


 
 


 

DNA/SONS fac simile de artigo sobvre McIntosh C2200
 
(abrir pdf em Media)

O DN faz-me falta. Não pelo prestígio ou a audiência alargada mas pela disciplina. Nada como a ditadura da deadline para me obrigar a passar as emoções para o papel com a pistola do tempo apontada à cabeça. Sem prazos para cumprir na net, tendo a tornar-me preguiçoso. Não significa que perdi o interesse pelo áudio, ou que não tenho nada de novo para dizer, coisas novas para ouvir, significa apenas que, sendo dono de mim próprio, me tornei escravo fácil da preguiça. Parafraseando Pessoa, que prazer ter um teste para escrever e não o fazer...





Mas foi paradoxalmente a “preguiça” literária de Álvaro de Campos que acabou por me despertar da letargia ao invocar o desejo de sintonia:



Há mais de meia hora



Que estou sentado à secretária



Com o único intuito



De olhar para ela.



(Estes versos estão fora do meu ritmo.



Eu também estou fora do meu ritmo).



Tinteiro grande à frente.



Canetas com aparos novos à frente.



Mais para cá papel muito limpo.



Ao lado esquerdo um volume da «Enciclopédia Britânica».



Ao lado direito —



Ah, ao lado direito!



A faca de papel com que ontem



Não tive paciência para abrir completamente



O livro que me interessava e não lerei.



Quem pudesse sintonizar tudo isto!







Também eu perco meias-horas a olhar para o papel limpo do ecrã. Agora só escrevo quando estou sintonizado com um produto. E essa sintonia é cada vez mais rara. Sobretudo quando se trata de leitores-CD/SACD. Será possível ir mais longe, fazer algo de novo nesta área, depois do que se ouviu recentemente da Emm Labs, Esoteric e Playback Designs? O limite não estará já inserido no código genético dos discos? Que mais se pode extrair deles? Não creio que a questão se deva colocar em termos de “o quê” mas “como”. O segredo não está, pois, na técnica de extracção mas na arte da lapidação.



Desde que publiquei o teste das excelentes Martin Logan Summit X, só me tenho dedicado à crónica de viagem. Já era tempo de acordar, pois as Wilson Audio Sasha estão aí a bater-me à porta, e eu tenho de estar em forma para me bater com elas...



Resgatado à doce letargia em que me instalara, sem outro remorso que não fora o respeito que devo aos leitores, regresso assim hoje à escrítica, inspirado pelo verde luminoso de uma esmeralda, cuja beleza musical me suscitou o desejo incontrolável de partilhar convosco o prazer de a ouvir brilhar. E como brilha!...



McINTOSH MCD500
 

 


 










É o primeiro leitor CD/SACD do mundo a utilizar o “Sabre”, o surpreendente DAC de oito canais da ESS Technology. Mas o MCD500 não é apenas estéreo?, perguntam os leitores mais atentos. De facto é. Numa curiosa entrevista a Sam Tellig, Jim Ludocovini, da McIntosh, que já trabalhou na Krell (a propósito, os novos leitores da Krell também vão utilizar este DAC), afirma sem rebuço que, tal como só temos um par de ouvidos, também só temos um par de tomates (sic), porque motivo havíamos de ter mais de um par de colunas...

Depois lá adianta, por outras palavras, que optar pela perfeição em dois canais é melhor que atingir a vulgaridade em 5.1. Além de que, o MCD500 tem saídas variáveis simples e balanceadas. Ora só isso em multicanal era o suficiente para fazer disparar o preço e tornar o painel traseiro uma confusão, numa altura em que o SACD 5.1 está em claro declínio.









Assim, a McIntosh optou por utilizar este fabuloso DAC óctuplo numa configuração Stereo Quad Balanced Mode, ou seja 4 conversores em paralelo por canal com adaptador dinâmico e noise shaper. A vantagem reside sobretudo ao nível teórico possível da dinâmica (134dB) e da relação sinal-ruído (-118) com frequências de amostragem que vão dos 44,1kHz aos 192kHz. Atenção: o Sabre não é um conversor Delta-Sigma, utiliza um Hyperstream Modulator multibit. O sinal do CD é por default “upsamplado” para 24bit/192kHz, e depois “oversamplado” 64x antes de ser servido ao Sabre para aproveitar todas as virtudes do DAC. O sinal DSD do SACD é servido directamente sem qualquer processamento. Temos assim o melhor de dois mundos, sendo que se optou por não tratar de forma igual aquilo que é diferente: PCM e DSD.

Enquanto o DAC é um “sabre”, a gaveta é uma lâmina afiada de samurai que entra e sai da bainha com elegância e sibilina souplesse, como só encontro nos famosos transportes VRDS-NEO da Esoteric. Se você tem como eu o fetiche das gavetas (embirro com gavetas plásticas que sofrem de delirium tremens), esta vai encher-lhe as medidas. Tem até dois buracos para se poder utilizar o polegar esquerdo ou direito – e sendo eu ambidextro, ao ponto de barbear cada lado da cara com a respectiva mão, retiro um disco com a esquerda enquanto coloco outro com a direita...



O sistema de leitura utiliza lasers independentes com diferentes comprimentos de onda para CD e SACD, embora a lente de convergência seja a mesma. A informação é recuperada dos CD e SACD ao dobro da velocidade normal e armazenada numa memória buffer, sendo depois servida para conversão por um clock de alta precisão.



O MCD500 aceita sinais (apenas PCM) de outras fontes por ligação coaxial e óptica.



Afinal, parece que  a gaveta é uma Denon, mas para o efeito o que conta é a qualidade dos materiais e do funcionamento mecânico. E não só: portou-se muito bem, no teste Pièrre Verrany, com 1,5 mm nos drop-outs simples e 2 mm nos drop-outs múltiplos! Em teoria, o que isto significa é que, se fizer um furo de 1,5mm num CD com um berbequim, o MCD500 passa-lhe por cima sem ficar atascado e sem se dar por achado: a música prossegue sem um soluço. Na prática, leu sem problemas dois ou três discos que eu tenho guardados só para chatear os leitores-CD. Sabia que os discos dourados se degradam mais depressa que os discos vulgares com banho de alumínio?



Quando se tem à nossa disposição um leitor CD/SACD desta classe, com saídas variáveis e um buffer de saída decente, a primeira tentação é ligá-lo directamente ao amplificador. Assim fiz: por meio da cabos balanceados Nordost Valhalla liguei-o a um Krell Evolution 302, e este a um par de Martin Logan Summit X. Il ne faut plus rien. O controlo remoto e o mostrador de volume “em percentagem”, fazem o resto.



Ao contrário de outros modelos com saída variável, o controlo de volume faz-se no domínio analógico e a tensão de saída é de 6V (12V na saída balanceada!), logo suficiente para excitar o conjunto amp/colunas até ao paroxismo.



Experimentei a quente e a frio, com CD e SACD, e gostei sempre do que ouvi. A sensação de que tudo está bem é deveras desarmante para um crítico. Duas coisas saltam aos ouvidos por omissão: a ausência de ruído e distorção (o MCD500 é ultrasilencioso) e a sensação de ausência de jitter, que se traduz no bom domínio temporal e na neutralidade tímbrica e coesão musical. O algoritmo de interpolação criado para garantir uma boa resposta no domínio temporal e o circuito Dynamic Matching, cumprem aqui a sua função: o desempenho no difícil terreno da microdinâmica é excelente. Neste caso, o buraco negro do silêncio não engole os sons, expele-os ordenados como soldados norte-coreanos numa parada militar, como se saíssem do fim do nada do princípio do mundo. Até assusta!









Mesmo ouvidos menos treinados irão notar de imediato a excelência da grande gama-média, sem sombra de digitalite, assessorada por agudos e graves informativos, articulados e nada enfáticos, sobretudo o grave, cuja definição é notável, sem nunca descambar para a arrogância exibicionista de alguns pesos-pesados. Não se deve confundir a autoridade com o autoritarismo.

Estou (mal) habituado pelo Chord DAC64 a registos médio-graves mais encorpados e a um palco sonoro mais expansivo em largura. Mas também admito que o DAC64 não tem a pureza tímbrica e a correcção tonal do MCD500, cujo traço é mais fino mas também mais preciso, nem esta notável reprodução da profundidade do palco, só possível com o contributo da elevada resolução aliada à dinâmica e a uma relação sinal-ruído que faz descer o patamar do silêncio intersticial muito abaixo do limiar da audição. E já que pergunta, sim: fiz ontem o meu exame audiométrico regular e, além de linear (ligeiro ênfase natural nos 2kHz, lá onde mora a voz humana feminina, essa dádivade Deus às mães) a minha audição é perfeitamente simétrica e pelo menos 5 anos mais nova do que eu...

Ainda assim, preferi o desempenho do MCD500 quando o liguei a um prévio a válvulas McIntosh C2200 e este ao Krell Evo 302. O som aproximou-se mais daquilo a que eu estou habituado, em termos de densidade, riqueza harmónica e conteúdo espectral. Nada como um pouco de distorção de 2ª harmónica para temperar a perfeição laboratorial? Talvez, mas eu creio que a resposta está na adaptação de impedâncias. E um pouco da magia do vácuo...



Infelizmente não tinha aqui comigo nenhum par de auscultadores que pudesse fazer justiça ao excelente circuito de saída do MCD500. Logo que possível colmatarei esta brecha na minha experiência auditiva.



Aliás, o MCD500 e o C2200 ficam lindos lado a lado, com os logos cor de esmeralda iluminados por LEDs e fibra óptica, e complementam-se sonicamente. A McIntosh é uma marca de culto. Agora já não há nenhuma razão para os seus “cultores” (count me in) não terem uma fonte “Mc”, que está ao nível dos modelos equivalentes da Esoteric e da Krell.



Nota: antes de terminar a sua actuação tive a rara oportunidade de confrontar o MCD500 com um par de colunas Wilson Audio Sasha que, se possível, fizeram realçar ainda mais as suas qualidades “organolépticas”, sobretudo ao nível da dinâmica, aqui entendida como energia intrínseca, do equilíbrio tonal e do redimensionamento do palco sonoro. Com as Sasha, o MCD500 tem um “fim-de-boca” mais prolongado e chega mais depressa ao cérebro.



DISTRIBUIDOR: VIDEOACÚSTICA

FABRICANTE: MCINTOSH LABS 


 



 



 



 



 



 



 



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