Longe vão os tempos em que os Krell eram construídos como tanques de guerra em alumínio e aço, com um espesso painel frontal, com manípulos, que mais pareciam pára-choques de jipes do Paris-Dakar, e dissipadores rápa-canelas.
Em certa medida, a caixa, com excepção do painel, que agora faz parte de um todo, voltou às origens, ao tempo do saudoso KSA 100 II, o meu primeiro brinquedo Krell.
Só que na altura eram precisas ventoinhas para arrefecer os ânimos da Classe A, e hoje recorre-se ao engenhoso “plateau biasing”, que só liga o turbo quando ele faz de facto falta.
Será a Krell do século XXI uma fera amansada? Esta dúvida metódica foi o ponto de partida para a minha análise filosófica.
O instinto animal, a ferocidade, o poder de ataque, a velocidade, o apetite voraz de electricidade estão lá, qual pantera negra com coleira de diamantes passeando-se em apartamento de luxo como animal de estimação, impondo respeito e admiração às visitas. Não admira que Dan D’Agostino tenha imposto que os Krells Evolution se auto monitorizem constantemente, fazendo um diagnóstico do seu funcionamento, não vá o diabo tecê-las...
Apesar de terem mantido todas as características que os tornaram famosos na comunidade audiófila, os Krell Evolution são agora amplificadores mais sociáveis, aceites até por esposas que antes ficavam horrorizadas pelo perigo que constituíam as lâminas afiadas dos dissipadores, ameaçando, por esta ordem de importância: a prole gatejante, as canelas e as meias de seda. Continuam a ser fontes de calor apreciável mas até a ASAE e a DECO os recomendariam para uso doméstico tantos são os sistema de protecção contra acidentes, incluindo um que me chateia que é não poder utilizar bananas – só forquilhas...
Depois de uma década em que jogou com a claridade e a presença para conferir ao som uma falsa ilusão de maior transparência, a Krell parece ter voltado ao velho som do tempo das “ventoinhas”: poderoso e profundo como sempre, sem medo de descer ao centro da terra para tocar a lava incandescente das oitavas inferiores; mas agora mais acolhedor para o elemento humano, que habita primordialmente os registos médios, onde a resolução é muito mais elevada.
Os Krells nunca foram agressivos. O que talvez houvesse era a lenda de uma certa brutalidade no trato, um preconceito baseado na potência anunciada, que ao dobrar sempre a parada no escuro vai a jogo sem medo. Daí ter-se criado a ideia errada de que eram amplificadores do tipo jogador de futebol americano: rápidos e fortes de físico, mas pouco elegantes no verbo.
Claro que a história não se repete, apesar da espiral hegeliana admitir a possibilidade da evolução dialéctica com base nas experiências passadas. Se a memória não me falha, os antigos Krells a ventoinhas tinham igual poder nos graves mas menos presença e resolução nos médios, e o agudo era menos extenso com vagas sugestões de uma certa rugosidade electrónica ao tacto auditivo pelos padrões actuais. Ontem como hoje, é sobretudo a calma sob pressão, a serenidade perante a adversidade que continuam a distingui-los. Os Americanos dizem deles que são unflappable. Talvez por isso eu ache que um 302 chega bem para as minhas necessidades: um par de 400 seria overkill. E não só porque faziam disparar os disjuntores do circuito independente do meu estúdio sempre que os ligava...
Em havendo a hipótese logística, não deixe de comparar o som via CAST com as ligações balanceadas convencionais. Com CAST, o som é mais coeso, mais orgânico, menos colorido – num sentido lato - e tem a vantagem de se poder utilizar cabos longos no comprimento e curtos no preço. E a sinergia entre o 505 e o 202 é total, ao ponto deste se ter superiorizado à concorrência num teste recente por esse simples facto.
Contudo, o tempo, o grande mestre, instalou no meu espírito outra dúvida metódica. O CAST, sobretudo na ligação 202/302, parece funcionar como um guardião da moral da música: educada, polida, elegante, certinha, politicamente correcta. Ainda que o poder esteja lá todo, como o de um garanhão com rédea curta. Será do cabo? Fala-se dos novos cabos CAST by Nordost. Afinal com CAST os cabos também fazem diferença? A verdade é que quando mudava para cabos Siltech balanceados sentia de imediato a coloração (oxidação?) da prata. E lá voltava ao CAST: há menos energia aparente, menos vivacidade, menos joie-de-vivre, mas também há menos colorações (nasalidade, por exemplo), que são aquelas “cores” que se dispensam bem. Por outro lado, parece haver menos cor tout court, que é o conjunto de todas as cores dinâmicas que fazem falta ao som e lhe conferem riqueza tonal e harmónica. A vida é feita de compromissos, e o CAST é um bom compromisso: não se pode viver com ele, não se pode viver sem ele...
Faltava-me experimentar as ligações não-balanceadas que por terem condensadores (arghh!...) de protecção na entrada são as aconselhadas para utilizar com prévios a válvulas como o “Mac” C2200. Tinha à mão um par de cabos longos Deltec Black Slink e... o som ganhou, além de um inesperadodo alento dinâmico, vida, escala e substância! Ora, sabendo-se que os cabos não-balanceados são mais sensíveis a interferências electromagnéticas externas, será que a alma do som é afinal composta por algum tipo de distorção ou coloração que nos agrada? Ou são os condensadores de entrada que filtram o lixo e deixam passar a música? É que a sensação acústica é exactamente a oposta: o Krell 302 fica até um pouco “wild”, por comparação com a ligação CAST.
Ser certinho o tempo todo também pode causar depressão, quando vista pela perspectiva dos registos médios, por exemplo. Às vezes é mesmo preciso uma pessoa deixar-se ir na onda. Se prefere os volts aos amperes, sirva-os como os shots: em chamas, incendiados pela luz das válvulas.
Nota: declaro por minha honra que não estou sob a influência de álcool, no momento em que escrevo. Os únicos shots que bebo são de música.
É, pois, esta a minha ordem de preferência:
1. Na ligação prévio/amp: cabos single-ended (com válvulas), CAST, balanceados.
2. Na ligação leitor CD-SACD/prévio: CAST, balanceados, single-ended.
Por mim, se fosse colocado perante a dificuldade de escolher entre o 202 e o 302 para levar para a proverbial ilha deserta, optava de caras pelo Evolution 302. Porque os amplificadores Krell são como a democracia: não é perfeita, mas enquanto não inventarem um sistema melhor...
E eu não sou como o anarquista que, tendo naufragado, ao chegar a uma ilha, perguntou ao primeiro indígena que lhe apareceu: “Há governo?! Então, sou contra!...”. Com a Krell no poder, eu voto sempre a favor. E quem ganha por maioria absoluta é a música.
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