2008

Reunião Do G 0 Na Delaudio



O GPS levou-me ao sítio da reunião há muito marcada. As novas instalações são amplas, e a Delaudio tem agora espaço (e estacionamento!) para expor e demonstrar sem constrangimentos físicos. Fica ali para os lados do Taguspark, onde estão instaladas empresas e pólos universitários de novas tecnologias.  






Et pour cause, o mote para o nosso encontro era o “Masterclock” Esoteric G 0Rb, um relógio digital com oscilador de rubídio e precisão atómica. Custa uma fortuna: 14 000 euros! Coloca-se entre o transporte e o conversor e passa a regular as relações temporais entre ambos, eliminando o jitter ou reduzindo-o para níveis infinitesimais. Nada melhor para explicar a um leigo o efeito do jitter no som digital.



Eu já tinha utilizado o G25, a versão, digamos, acessível do “Masterclock” com o Esoteric D-01. A diferença era subtil. Contudo, o G 0, “intrometido” entre o transporte P05 e o conversor D 05, “really changes the nature of the beast”:o que já é à partida um som digital de grande qualidade transforma-se em música.


Sob pena de quebrar o “suspense”, direi que, sem o G 0 a marcar o tempo musical com precisão metronómica, o som até pode parecer mais transparente por força do ligeiro ênfase nos registos médio-altos típica do CD. O que o G 0Rb faz ao som é conferir-lhe uma inabalável lógica temporal, textura, densidade, corpo, dinâmica, liquidez, ao mesmo tempo que o liberta da estranha dureza e compressão que experimentamos com as fontes digitais, pelo menos quando comparadas com o LP. The sound is rounder, and yet it rocks and rolls...


E não pensem que Delfim Yanez preparou uma sessão de excertos de discos com pirotecnia audiófila só para me impressionar. A selecção foi o mais ecléctica possível. Ouvimos de tudo: de Sinatra a Duke Ellington vintage, de música folclórica iraniana, num registo ao vivo em Teerão, ao ar livre, à noite (ouvem-se os grilos ao longe...) a sapateado andaluz (excepcional registo em K2HD)! E até cantares alentejanos, juro!...


Fechámos com Ute Lemper, Blood and Feathers, ao vivo no café Carlyle, em Nova Iorque, no tempo em que ainda se podia fumar. Não que eu tenha saudades desse tempo (detesto tabaco), mas era capaz de jurar que se viam rolos de fumo por cima das palmas...


Logo à entrada percebi que ia ser uma tarde muito especial. Ouvia-se Keith Jarrett, no memorável concerto de Colónia, com um piano vibrante, poderoso, dinâmico, rico de nuances e com uma vasta paleta tonal. O que era para ser apenas uma aperitivo prolongou-se por mais de meia-hora. Porque nenhum de nós teve coragem para mudar o disco e quebrar assim o sortilégio do duo Jarrett/G 0. Cada corda do piano soava como uma entidade separada, com personalidade tonal própria, mas instrumento e músico confundiam-se num só, com Jarrett cantando em surdina por cima das notas sublimes, que de improviso parecem existir na cabeça do músico apenas no momento em que soam, produzidas pelo movimento mágico dos seus dedos caóticos sobre as teclas. Ninguém, nem Jarrett, sabe que nota se segue, e é isso que torna a sua música tão inovadora. Ficámos os dois para ali calados em respeitosa contemplação da arte pianística, sabendo que Jarrett não gosta de ouvir barulhos do público quando toca, não fosse ele levantar-se e sair...




Delfim estava entusiasmado com o que se ouvia, e com razão para isso. A sala é grande e introduz algum “blooming effect” (eu escrevi blooming, não booming, atenção), que favorece os registos ao vivo e as grandes orquestras, conferindo-lhes escala.


Ouvi, por exemplo, a melhor interpretação da Abertura em mi maior do poema sinfónico “Tannhäuser”, de Wagner, por Solti, à frente da fabulosa orquestra de Chicago, numa gravação Decca de 1958, sobretudo o hino em si maior. A orquestra transborda de emoção erótica e ecoa com enorme carga dramática no Medina Temple, na Universidade de Illinois. Este é um poema sinfónico sobre a oposição entre o amor carnal e o espiritual. E é isso que o Esoteric G 0Rb nos dá: a carne e o espírito da música.


Desde que ouvi a Danação de Fausto, também por Solti, no sistema de Eduardo, um grande audiófilo de Águeda, onde pontificam umas Alexandria, que não tinha esta sensação de plenitude musical. Ou, como dizia Delfim, empolgado, com este sistema, os músicos acompanhantes não são meros actores secundários têm um papel tão importante como o dos solistas.


Neste caso, as colunas eram as Monitor Audio Platinum PL300, assessoradas por um par de Pass Labs XA160 (monoblocos de Classe A). Cabos: Black Slink (autêntica magia negra). O trio de solistas digitais (28 000 euros) era composto pelos Esoteric P05/D05, G 0Rb, sendo que o conversor atacava directamente os amplificadores sem recurso a prévio. Segundo Delfim, o prévio da Pass controla mais bem os amps mas parece roubar ao som, e cito, “o seu lado selvagem”...


Para mim é tudo uma questão de textura. Para Delfim é, sobretudo, ternura, ou seja, a forma como o G 0Rb permite apreciar a emoção contida nas nuances interpretativas. É certo que ele já está num estágio de audição mais adiantado. E eu sei, por experiência própria, como a nossa apreciação evolui com o tempo para aspectos mais espirituais e menos físicos. Tal como o amor. 


Cheguei com o sol a brilhar no céu azul e quando saí já ele se tinha posto para os lados do Guincho. Mas não dei como perdida esta gloriosa tarde de Outono. A Delaudio brindou-me com o melhor som que alguma vez ouvi nas suas instalações. O mesmo som que está à sua espera mediante uma marcação prévia sem compromisso. E se levar consigo discos favoritos não fique surpreendido quando ouvir alguns deles como se fosse a primeira vez. A digitalite é coisa do passado e não é fácil voltar atrás depois de vislumbrar o futuro.


O Esoteric G 0Rb funciona como um maestro que dá os tempos de entrada correctos aos músicos. A pauta é a mesma, a interpretação é que é outra...