2006

Martin Logan Summit - Parte 3

Martin Logan Summit - Parte 3
O GRAVE PROBLEMA DO BAIXO
 
 

Painel de controle de graves das Summit



O mesmo já não se pode dizer dos graves das Summit. Parece que Gayle Sanders, que entretanto deixou a presidência da Martin Logan, ficando apenas como consultor técnico, quis sair literalmente “with a bang”. Para utilizar uma colorida expressão americana: “the Summits have bass up the kazoo”.



Na América, o “showbiz” tem muita importância, e o “boost” electrónico dos graves da Summit para compensar as limitações físicas da pequena caixa fechada (não-reflex) foi introduzido a pensar no cinema.



Eu já tinha notado isso quando as ouvi brevemente no audioshow, apesar de ter havido muito quem lhe elogiasse a “bunda” generosa. Curiosamente, ou talvez não, em Las Vegas, numa breve primeira audição ingénua, para parafrasear o poeta Ramos Rosa, o grave era tenso, intenso e extenso e a integração com os médios isenta de crítica - e ouvia-se, na ocasião, Mighty Sam Mc Clain, cuja banda carrega nos bordões do baixo eléctrico.



Em Munique, na péssima demonstração do distribuidor alemão (apesar de tudo, o Guilhermino fez muito melhor em Lisboa), os médios soaram duros e “stressados” e o grave “desenraizado”. Ou seja, cada sala seu paladar.



 


As Martin Logan Summit precisam de um longo período de “queima”, os woofers de alumínio ainda mais que o painel, até “fazerem cama”. Mas quem é que resiste a ter umas Summit de quarentena em banho-maria de ruído rosa, até poder ouvi-las?



Coloquei-as no local marcado no chão a marcador onde antes tinham estado as Odyssey, apontadas de soslaio para o ponto de escuta, bem afastadas da parede de fundo (a imagem das Martin Logan forma-se atrás da linha das colunas e a ilusão de profundidade aumenta com a distância da parede: entre 90 cm e um 1, 20 m, é razoável), não tanto das paredes laterais, pois tenho pouco espaço, embora por definição a irradiação lateral de um dipolo seja zero, por cancelamento de fase; liguei-as ao equipamento complementar habitual (McIntosh MC2200/Krell FPB400cx) com cabos Nordost Valhalla e um sortido de fontes digitais; segui os conselhos do excelente “libretto”, colocando os controles de graves no “0” e…bum, bum, bum.



Caramba, isto tem “baixos” a mais e, contudo, aos registos médio-graves parece faltar-lhes “substância”. Embora seja óbvio que o painel das Summit é muito mais “regular” na resposta que o das Odyssey (basta desligar o cabo dos woofers para comprovar isso), talvez porque a rigidez estrutural elimina alguma distorção por indução mecânica, o equilíbrio tonal destas soava-me mais…eh…equilibrado, pardon my french.



Fui cortando db a db no controle de 25Hz e as coisas melhoraram mas havia ainda algo de errado. Deixei passar algumas semanas mas a “queima” não parecia ser a única solução. Um disco teste com frequências do 5Hz aos 200Hz em terço de oitava ajudou-me a fazer o diagnóstico. O problema não residia nos 20Hz, nem podia residir, porque com comprimentos de onda na ordem dos 15 metros, as pequenas dimensões do meu auditório encarregam-se de impedir que se desenvolvam integralmente. Contudo, aos 30Hz havia uma clara ressonância, + de 10dB acima das oitavas adjacentes com a agravante (é o termo adequado) da configuração particular dos woofers provocar uma profunda depressão centrada na oitava seguinte 50/60Hz. Algo de muito semelhante ao que ouvi - e de que não gostei - no audioshow. Com cinema a coisa passa despercebida: as explosões têm até mais “sumo”, mas com música há um claro desequilíbrio tonal que, se é verdade que favorece os tímbales (nas gravações da Telarc e da Reference Recordings, por exemplo), também dá demasiado ênfase à guitarra baixo e outros reprodutores electrónicos de graves. Paradoxalmente, as vozes de barítono perdem “consistência”.



Sempre com recurso a sinais de teste, acabei com uma afinação “radical”: - 10dB (-6dB com cinema) nos 25Hz e +10dB nos 50Hz! De qualquer maneira, numa sala com 20 m2, frequências de 20Hz “at full output” são para esquecer. Curiosamente, o corte radical não parece afectar a extensão dos “baixos”, apenas a “quantidade” e “qualidade” (o Q-factor); e quando o grave profundo surge na mistura, este sente-se como um agradável formigueiro no corpo, como se um “alien” invisível, deslocando-se subreptício no subsolo, nos subisse pelos pés, como a seiva nas árvores de raízes fundas, algo que não estava ao alcance das Odyssey.



Entretanto, as vozes masculinas tinham recuperado a…eh…masculinidade e, em especial, a percussão ganhou o impacte e o ataque a que as Odyssey me tinham habituado. Mas persistia ainda um “pico” de ressonância nos 31,5 Hz, que eliminei com dois “subwoofers”! Como? Então as Summit têm baixos para dar e vender e eu acoplei-as a dois “subwoofers” da JM Acoustics…? É verdade, tratou-se apenas de uma experiência, que não tem de ser adoptada, nem é fundamental para se obter pleno usufruto do grave das Summit, mas o acoplamento fora-de-fase (gira-se o botão Phase até obter o cancelamento desejado) de dois “subs” (um por canal directamente ligados ao Krell na entrada Highlevel), com a frequência de corte centrada nos 30Hz, ajudou a “domesticar” a ressonância da minha sala nesta frequência e a linearizar a resposta entre os 25 e os 200Hz.



Como costumam aconselhar os “stunts” que fazem acrobacias perigosas no ecrã, “não experimente fazer isto sozinho em sua casa”. Cada sala é um caso. Há um clara (in)compatibilidade entre a frequência de ressonância da caixa de graves das Summit e a frequência de ressonância do meu auditório improvisado que se dá mal com colunas “full-range”: as Wilson Watt+Puppies VI também me deram água pela barba para afinar. O que eu pretendo dizer é que o possuidor de umas Summit não deve ter medo de “afinações” radicais. É que nem sempre mais grave significa melhor grave: os controles estão lá para aumentar mas também para diminuir e, por vezes, 1 ou 2 db para baixo (nos 25Hz) ou para cima (nos 50Hz) podem fazer toda a diferença. Pode até suceder, no seu caso particular, que baste colocar as Summit na sala, com ambos os controles no “0”, para obter bons resultados logo à primeira.
 
 


Ou então que o eventual excesso de graves possa ser controlado por meios mecânicos. O tipo de soalho, por exemplo, pode influenciar a dispersão da irradiação do woofer inferior: se tiver um soalho rígido, experimente colocar um tapete, uma almofada fina ou espuma debaixo do woofer inferior e verifique como o carácter do grave se altera em conformidade: Um difusor fininho de poliuretano seria ainda melhor. Tenha o cuidado de evitar que o woofer na sua longa excursão toque no material, elevando a coluna no máximo da altura dos ponteiros fornecidos ou servindo-se de discos metálicos como base de apoio destes.



Pode também optar por um cabo de baixa capacidade, baixa indutância e média impedância para o painel; e de média capacidade, baixa indutância e alta impedância para os woofers, pois, sendo o sistema activo, não vai afectar o factor de amortecimento e sempre oferece um pouco mais de resistência à passagem do sinal.



E, claro, uma colocação criteriosa, sempre que possível (o manual é muito bom), pode eliminar muitos problemas à partida. Os mais ousados podem colocar uma das colunas no ponto ideal de escuta, enquanto reproduz um sinal de teste ou música com forte conteúdo de graves, e deambular depois de preferência de joelhos (não deixe que a esposa e os filhos o vejam neste preparos indignos) pelas duas áreas geométricas onde as pretende colocar na sala, marcando os pontos exactos onde o grave tem mais extensão e controle (com os “pots” na posição “0”). Depois afine a gosto.



As Summit foram obviamente concebidas para ser colocadas em campo aberto em salas amplas onde os graves têm espaço para se expandir. Noutras circunstâncias, a opção pelo modelo Vantage talvez seja mais…eh…vantajosa. Com um pequeno grande senão: a frequência de corte sobe dos 275Hz das Summit para os 400Hz nas Vantage. E depois de ouvir aquilo de que as Summit são capazes dos 200Hz para cima there's no going back.



O problema da ligação woofers/painel nas Summit não parece, pois, estar relacionado com a frequência e a pendente de corte e sim com o “overboost” electrónico. O contributo do woofer frontal está praticamente anulado acima dos 1000Hz, embora o discurso masculino seja ainda inteligível. E fiquei feliz por verificar que Gayle adoptou a minha sugestão para eliminar a “câmara de ar” que ligava acusticamente o woofer e o painel nas Odyssey/Prodigy, a que sempre atribuí uma ligeira espessura, que tentei minimizar com algum sucesso forrando a câmara com material absorvente. A questão é pois da diferença de “peso acústico específico” do painel e do(s) woofer(s), que está objectivamente relacionado com o peso molecular dos materiais envolvidos; é um pouco como tentar manter o equilíbrio natural, a mistura exacta dos gases que fazem parte da composição do ar que respiramos. O painel electrostático e os woofers dinâmicos estão bem casados, sem dúvida, mas não são almas gémeas e, nestas coisas, a diferença de peso da alma também conta: viram a fabulosa interpretação de Sean Penn em 24 gramas?...


 

Martin Logan Odyssey

 


As pálas laterais das Odyssey não estavam lá apenas por razões estéticas. Além de reforçar a estrutura, eliminavam o efeito de cancelamento dipolo, funcionando como uma espécie de 'baffle', e permitindo assim ao painel reproduzir frequências mais baixas para um mais eficaz acoplamento com o woofer. A moldura fina e rígida das Summit não tem esse efeito de 'extensão'. Daí que haja uma ou outra sugestão de 'falta de corpo' nas vozes masculinas em alguns 'posts'que li no fórum do Clube Martin Logan.



O antídoto está no controle de 50Hz. Oiça Doug McLeod ou Jacques Brel (Jojo) e suba o controle até a característica guturalidade de ambos estar no ponto. As vozes femininas não são afectadas: os sopranos soam sempre divinos.



Diminuir a inclinação do painel, subindo um pouco os pilares traseiros, também ajuda a melhorar o enfoque no centro da imagem (o som ganha solidez, embora possa endurecer um pouco por excesso de resolução (ouve-se tudo!), dependendo da distância e altura da sua posição sentado. Tem ainda vantagem de o 'ataque ao solo' do woofer se fazer agora num plano inclinado.



Resolvido o grave problema dos baixos, passei às audições intensivas apenas para concluir o que já se sabia: o painel electrostático Xstat é mais sensível, dinâmico, coerente, transparente; e também mais doce (menos vibração mecânica da estrutura?), rápido e controlado do que o das Odyssey. A pouca coloração «plástica” que persistia nos registos médios e uma vaga sensação de grão nos agudos parecem ter desaparecido por completo, pautando-se as Summit como as mais neutras de toda a família Martin Logan.



O painel Xstat podia agora exibir toda a sua transparência com um mínimo de overlap nos registos médio-graves, daí a sensação de detalhe fino, que confere intimismo e sensualidade às vozes e a fantasmagórica sensação de presença que é apanágio da tecnologia electrostática. Esta transparência visual e acústica, impossível de reproduzir por altifalantes dinâmicos, é extensiva ao palco sonoro cujas dimensões são independentes das fontes sonoras que lhe dão origem, como se as Summit, já de si de uma leveza visual etérea, desaparecessem quando começam a tocar.



CONCLUSÃO



As Summit são um compêndio de conceitos acústicos de microdinâmica, subtileza e claridade. A sua capacidade de resolver os mais ínfimos detalhes dentro da complexa mistura sonora tem tanto de cativante como de empolgante, e torna-as um instrumento de trabalho imprescindível para detectar diferenças mínimas entre cabos, fontes e outros componentes hifi, incluindo a facilidade de separar o trigo do joio na qualidade de som de CD, SACD e DVD.



As Summit não são apenas híbridas, são também andróginas, no sentido em que conciliam num só corpo a leveza, claridade, delicadeza, suavidade, vivacidade, alegria e beleza da mulher; e a força, velocidade, poder e pleno desenvolvimento muscular de um homem na flor da idade.



Para mais informações: IMACÚSTICA


Martin Logan Summit Parte 3