2006

Martin Logan Summit, A Coluna Andrógina - Parte 1



Martin Logan Summit


Las Vegas, Janeiro de 2005. Faço a minha peregrinação obrigatória às “suites”do Hilton, um labirinto confuso de alas Norte, Sul, Este e Oeste, andares dispersos e corredores escuros, onde àquela hora apenas vagueiam, com passos silenciosos, emudecidos pelas fofas alcatifas, seres de avental claro, tez e cabelo escuro, que falam baixinho entre si num castelhano doirado pelo sol tropical, porventura para não incomodar os hóspedes, que recuperam do sonho (ou pesadelo) das horas sem sono nas mesas de jogo, ou apenas para não alertar os Serviços de Emigração, que fecham os olhos por razões económicas, até que, tarde demais, vão ter de os abrir por razões sociais e políticas: Bush foi reeleito por uma imensa minoria hispânica. “Por favor, onde fica a suite 27 mil e tal…?”, arrisco em portugalês. Ao contrário dos espanhóis, que sofrem de arrogância imperial, entendem-me logo à primeira. “Siga por aqui, vire à esquerda, depois à direita, fica lá ao fundo do corredor…”. O resto já sabem, pois ficou descrito na reportagem da CES 2005:


Oh la la! Por esta é que eu não esperava. Chego lá acima ao vigésimo não-sei-quantos, carregado de catálogos, máquinas fotográficas, garrafas de água e só vejo os modelos ML mais banais. Então não há nada de novo? Há mas não pode fotografar, não pode ouvir, não pode...Não posso o quê!? Então eu venho all the way from Portugal, vocês têm uma «bomba» escondida lá dentro, e eu não posso ouvir? Dei-lhe o meu cartão. Entrou na suite secreta e saiu pouco depois, acompanhado por Devin Szell, velho conhecido destas andanças:


'My dear Jose, I'm so sorry about the misunderstanding, please follow me'.


Segui-o. Uau! Havia uma “cimeira” lá dentro: as Summit tocavam e encantavam. Mais pequenas que as Odyssey foram-me apresentadas como as substitutas das Prodigy! “A sério?!...”, perguntei incrédulo. “Ora senta-te, e ouve lá um bocadinho…”, sugeriu Devin. Belo som: cheio, encorpado profundo nas oitavas inferiores e nas dimensões do palco; a voz de Mighty Sam McLain soou com uma naturalidade inaudita numa coluna híbrida. Temos coluna. I can't wait, Devin, I can't wait. Se pudesse trazê-las na mala... A melhor Martin Logan de sempre? A audição foi mais positiva do que quando ouvi as Statement pela primeira vez, que foram uma desilusão, juro...talvez porque as expectativas eram muito altas.


A membrana electrostática das Summit, magnetizada por vaporização no vácuo, está montada numa estrutura rígida de alumínio e reproduz tudo acima dos 275Hz. Os graves estão a cargo de duas unidades de 10 polegadas em alumínio numa configuração PoweredForce (activos com amplificação digital de 200W), sendo que um dos woofers dispara para baixo e a resposta aos 25Hz e 50Hz pode ser calibrada. A Summit é mais precisa, dinâmica e poderosa que a Odyssey e Prodigy. E soa ainda mais natural, digo eu.


Foi assim que, em Janeiro de 2005, publiquei, em primeira mão mundial, a descrição breve e a foto das Summit. Mais de um ano depois, posso finalmente publicar uma apreciação auditiva do seu desempenho, logo subjectiva e falível, além de inquinada pelo convívio prolongado com outros modelos Martin Logan, que funcionam segundo o mesmo princípio, e cuja audição se tornou um hábito diário, eu diria mesmo um vício incontrolável, com o mesmo equipamento complementar e no mesmo habitat que as Odyssey, cujo lugar as Summit ocupam agora.


Este é o relato de uma relação atribulada de amor-ódio que já dura há quatro meses. Mais amor que ódio, admito já. As Summit não são colunas de relacionamento fácil e resistem a desvendar os seus segredos, revelando-se caprichosas, exigindo mimos e atenções constantes até que finalmente se entregam nos braços cansados do amante e se deixam possuir.



ENCONTROS BREVES


Depois do primeiro encontro amoroso em Las Vegas, que me deixou pelo beicinho, houve trocas de olhares e palavras ocasionais:
As Summit no teste comparativo da Stereoplay, Munique


1. Em Munique, em Maio de 2005, no âmbito do Highend Show, num teste comparativo levado a cabo pela revista Stereoplay, cuja reportagem os leitores podem ler na íntegra no Hificlube (ver Artigos Relacionados no final da Parte 3), e de que transcrevo apenas o excerto referente às Summit:


“Entram em cena as Martin Logan Summit . Vão ser trucidadas, pensei. Mas olhem que não, olhem que não. As Summit são muito direccionais (o arco do painel é aparentemente menos pronunciado que nas Odyssey) e deviam ter sido apontadas para dentro e não colocadas tão abertas como optaram os “craques” da Stereoplay. Como estava sentado perto de uma das colunas, a voz de Jackson só se ouvia nesse canal. Mas o arco da orquestra foi reproduzido com surpreendente amplitude e dramatismo: o “sub” dedicado activo mostrou por que motivo a Martin Logan aposta na hibridez. Contudo, devido ao volume exagerado do som, senti alguma artificialidade e dureza na voz devida ao aparente esforço, embora sejam quase indestrutíveis”.


2. Numa demonstração personalizada também no Highend Show, na sala do distribuidor alemão, que me suscitou o seguinte comentário:
As Summit, em Munique


“As Summit tocaram pela primeira vez na Europa. E não me deslumbraram tanto como em Las Vegas. O som estava um pouco preso. Ora o som electrostático é por definição livre, rápido e transparente. Eu creio que não se deram bem com a amplificação Musical Fidelity kw500. Demasiado controle? É que a secção de graves já é activa, não é preciso exagerar...”.

As Summit, no audioshow, Lisboa


3. E, finalmente, no Audioshow 2005, de Lisboa. Eis o que aprouve escrever na ocasião:


“Como sabem os meus leitores regulares, eu sou um fã, não necessariamente um fanático, das Martin Logan, e utilizo como referência umas Odyssey (+Theater i + Clarity na configuração multicanal), tendo descoberto a fórmula para as acolitar com um par de “subs” da MJAcoustics. Nunca ninguém percebeu por que razão eu as prefiro às Sonus Faber Extrema e às Wilson Watt Puppies. Tanto mais que nos “shows” as Odyssey nunca conseguiram provar a sua valia. Desta vez as Summit convenceram muito mais gente. Houve mesmo quem achasse que foi o melhor som do Audioshow 2005, uma opinião tão respeitável quanto as outras. É um facto que as queixas sobre as Odyssey se referiam a um certo 'espalhafato tonal', e que, desta vez, as paredes da sala estavam “decoradas” integralmente com cortinados vermelhos para o controlar . Mas quem sabe se por isso mesmo se perdeu alguma da magia proporcionada pela “dipolaridade”, que ficou um pouco abafada. As Martin Logan preferem reflectores do tipo dos utilizados na sala das Vivid. E eu teria cortado também um pouco o volume dos graves. Mesmo assim, acho que se percebeu o que me atrai no som das Martin Logan: a ausência de caixa dos 200Hz para cima. Um dia talvez me possa ver livre da “caixa” também dos 200Hz para baixo. Até lá as ML são o meu refrigério. E pensar que eu tinha umas Apogee Duetta e as vendi. Deviar ter sido condenado às galés por isso...”


Daqui já se podia concluir que as Summit são sensíveis à afinação, ao equipamento complementar, ao programa utilizado e, sobretudo, à colocação na sala onde se apresentam, pois revelaram ter personalidades diferentes em ocasiões diferentes. É esta a minha tarefa: descobrir qual a verdadeira personalidade das Summit.



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