2006

Ces 2006: Viagem Ao Centro Da Electrónica



Há três filas para o RX. Um dos operadores de uma empresa de segurança, responsável pela monitorização electrónica da bagagem de mão, dormita. Atrás de mim, um casal americano comenta: “Typical Portuguese security...”. Dois brasileiros com ar de árabes, cabeça rapada, musculados como seguranças de discoteca, esperam que do túnel de RX saia um enorme saco preto de desporto. O controlador dorme. Podia lá ir dentro uma metralhadora, até um lança granadas foguete. Felizmente, parecem ser bons chefes de família e vão acompanhados da mulher e dos filhos, talvez num voo para o Brasil que parte à mesma hora do meu.
Mas os terroristas andam por aí à espreita, à procura de uma brecha, em especial nos voos de companhias americanas, como é o caso da Continental. Malas, sacos e casacos atravessam o túnel enquanto o controlador dorme. Eu estou na fila do lado, e bato com a mão aberta no separador de acrílico transparente, ele assusta-se e abre os olhos estremunhado. Volta a adormecer. Noitada? Excesso de trabalho? Num caso destes, não devia ser permitido fazer turnos sucessivos. A bagagem de mão de alguns daqueles passageiros vai no meu avião para NY, a cidade-mártir. Deixo de o ver à medida que a fila avança, porque os painéis são agora opacos. Avanço mais um pouco e volto a vislumbrá-lo por uma frecha aberta entre os painéis, o queixo continua caído sobre o peito, “eyes wide shut”. Uma criança aproxima-se curiosa e parece peerguntar-lhe algo. Primeiro estava a dormir, agora está distraído. Chamo a atenção de outro funcionário. Sorri e encolhe os ombros, como quem diz: eu cumpro, o que os outros fazem não me interessa. Volto a chamar a atenção para a necessidade de substituir o colega, agora com mais veemência, a uma funcionária com ar de quem dirige a operação. Mostra-se muito preocupada com a situação. E vai finalmente ver o que se passa.
Na minha fila, a jovem, da mesma empresa, que monitoriza a bagagem ao RX, não deixa passar nada: “Tem um computador na mala? Coloque-o num recipiente separado, por favor...». Enquanto o controlador de entrada me manda abrir os braços para uma inspecção pormenorizada, só porque a fivela do cinto é de metal e eu me esqueci de o tirar. É assim que se faz. Em todo o mundo. E bem.
Já no avião, leio no jornal que o aeroporto de Lisboa tinha sido evacuado por causa de um simples mala suspeita abandonada, que afinal não continha nada. E se aquele saco preto, ou outra mochila “negra”, como as de Londres, contivesse armas ou explosivos? Mandavam evacuar o avião em pleno voo? Ou limitavam-se a lamentar o sucedido e a apresentar condolências à família? Minha rica PSP...
Em NY passo por várias vezes no crivo apertado da segurança: foto e impressão digital electrónica, sapatos, cinto, computador, telemóvel, máquina fotográfica, tudo é escrutinado. As filas avançam a passo de caracol. Os voos atrasam-se. Os passageiros são todos tratados como potenciais suspeitos. Quando não mesmo como carneiros: o voo da Continental CO1468 para Las Vegas atrasou-se 3 horas, por razões de...segurança, que serve para explicar tudo! A segurança é chata, sem dúvida. Mas alivia muito...
Finalmente, 24 horas depois de ter saído de casa, chego vivo a Las Vegas, a cidade-luz do deserto, que na manhã seguinte acorda com o rosto cansado de uma velha prostituta sem a maquilhagem de luzes. No Bellagio, um dos melhores hotéis da cidade, tinham-se esquecido de fazer a minha cama com lençóis limpos. Distracção? Sim, mas nada que se compare com tornar um avião no leito de morte de duas centenas de pessoas. Por pouco que não me faziam a cama...