2005

D-box: A Cadeira Do Poder



Em Portugal, já há salas de cinema equipadas como «cadeiras dinâmicas». Eu próprio já escrevi aqui sobre experiências semelhantes proporcionadas por tecnologias como a da Clark Synthesis «Tactile» e «Terfenol-D» (ver Artigos Relacionados), que são fundamentalmente transdutores que transformam impulsos eléctricos em energia dinâmica, fazendo vibrar em consonância com sinais musicais de baixa frequência os objectos a que estão aparafusados: cadeiras, plataformas, paredes, soalhos, etc.


Desta forma, é possível «sentir» sons graves que estão abaixo do limiar auditivo, produzindo uma excitante sensação de vibração. As pessoas que estão ao nosso lado não ouvem nem sentem nada, mas nós «ouvimos» os baixos como um formigueiro por todo o corpo, quando nos sentamos em cadeiras equipadas com estes excitadores.


A Dolby Laboratories levou a cabo experiências em que participei de visionamento de filmes com os espectadores sentados em cadeiras dinâmicas da Clark Synthesis. Apesar da audição do som se fazer através de auscultadores convencionais, com as naturais limitações na reprodução de sons graves, as explosões e todos os sons percutivos tinham um impacte físico extraordinário.



D-BOX
D-Box Quest


Mas a D-BOX Quest apresentada na CES 2005, na sala da Runco/Krell, é algo de completamente diferente e revolucionário. A cadeira não vibra apenas, move-se sobre dois ou três eixos conforme o modelo, sincronizada com o som e a acção do filme com uma força gravitacional de 2G, proporcionando aos espectadores uma inacreditável sensação de aceleração, travagem, viragem, subida, queda, etc. com um mínimo de movimento aparente para quem está de fora.


A mim coube-me em sorte a cena da luta entre «Octupus» e «Spider Man» sobre o comboio em movimento desenfreado, e cada soco, pancada, tombo ou cambalhota ganharam uma expressão física de um realismo tal que não é aconselhável a pessoas sensíveis ou impressionáveis.
Stand da Runco/Krell, na CES de Las Vegas



A cena em que «Spider Man» tenta travar o comboio em louca desfilada para o rio partindo as travessas da linha férrea com os pés deixou-me sem fôlego, enquanto o espectador do lado gritava: ai, ai, ai ai.


Não admira que as D-Box venham com «child lockout», embora me pareça que vão ser as crianças as primeiras a saltar para a cadeira para vibrar com as peripécias de Nemo, outro dos 400 filmes pré-sincronizados.


Mas como é isto possível?

A cadeira é controlada por um simulador de movimento equipado com software exclusivo sendo que o programa específico de cada filme está armazenado num disco rígido de 40GB. Assim, se quer ver o Harry Potter ou The Chronicles of Riddick, coloca o DVD na gaveta do leitor e introduz os códigos de sincronização no Motion Controller Interface. Com a cadeira é oferecido o Volume 1 com os códigos de 100 filmes. Pode comprar os restantes volumes ou fazer download de novos códigos à medida que os filmes (e jogos!) vão sendo programados.


Na extensa lista não vi nenhum filme de Manuel Oliveira: o fabricante deve ter considerado que são pouco «dinâmicos», e isso prejudicaria as vendas.

Por outro lado, a D-Box vende-se nas versões cadeira e «loveseat», o que me leva a especular que também deve haver códigos secretos de filmes para ver a dois. Cenas de sexo com aceleração gravitacional de 2G deve ser uma experiência inesquecível...


A propósito de um artigo meu sobre um seminário onde se discutiu o tema SACD vs DVD-Audio, escreveu-se em tempos no blog do «Gato Fedorento» em tom sarcástico:


«Pela minha parte, depois disto tudo só tenho uma certeza: a avaliar pelos textos que publica, José Victor Henriques não dorme com uma mulher desde os tempos do vinil». Ricardo Araújo Pereira


Na altura respondi-lhe que preferia gatas a gatos. Agora com a D-Box vou poder recuperar o tempo perdido...



Nota: a D-Box, modelo Quest, custa cerca de 5 000 dólares e a versão «loveseat» mais ou menos o dobro. Pouco para tanto prazer.