2005

Ces 2005: Diáspora Lusitana



Ron Demaderios, um luso-descendente orgulhoso das suas origens, em Las Vegas


A Las Vegas vão poucos portugueses, se exceptuarmos os que vão lá fingir que casam, em capelas improvisadas com Elvis em música de fundo, num ambiente do mais profundo «kitsch», ou em peregrinação anual à CES. Também se pode casar sem sair do carro, estilo «drive-in» da McDonald's. É mais barato e mais rápido e a indigestão do divórcio passa mais depressa...



O americano típico - se é que se pode falar de alguém «típico» naquele melting-pot - mal sabe onde fica Portugal. Há ilustres excepções, como o chôfer de táxi, de origem tunisina, licenciado em gestão, que falava várias línguas, já tinha estado no Algarve, e andava a poupar para construir no seu país uma central de tratamento de resíduos urbanos; ou o negro DL («down-low»: meio-pedrado e no fundo da escala social), que foi meu companheiro acidental numa viagem de autocarro até ao Centro de Congressos de Las Vegas, e se regozijou quando começou a nevar, porque se desenhava uma hipótese ainda que remota de «sacar» 40 dólares por hora, de pá em punho, aos residentes endinheirados, limpando-lhes o passeio da casa, e contribuindo assim para o improvável projecto futuro de viajar pela Europa.



Portugal, cuja história trágico-marítima sempre o fascinara (!), estava incluído no roteiro, como trágica era a sua travessia do mar de lágrimas que é a América dos deserdados da vida - que não da cultura, como se comprova...



O homem de negócios de sucesso americano tem como raio de acção limitado a linha recta que vai do seu umbigo a um qualquer ponto do globo onde se possa fazer bom dinheiro. Portugal não entra nesta equação: aqui não há negócios, há apenas negociatas. E a China comunista fica agora à distância de um contrato OEM bem capitalista...



Mas que havia por lá portugueses, havia. Os poucos que, além da minha família, (Delfim Yanez, Paulo Machado, Rui Calado, Rui Pedro) me acompanharam em mais esta aventura em busca de «especiarias» acústicas tão raras e exóticas que, não fora o testemunho visual da fiel máquina fotográfica, e os leitores sentir-se-iam tentados a atribuir a minha inspiração narrativa ao plágio da «Peregrinação», de Fernão Mendes Pinto.



E também os luso-descendentes, que sentem ainda orgulho em revelar-se à nossa passagem de crachá de press ao peito, tentando expressar-se na língua de Camões, cujo nível de fluência foi, hélas, determinado na infância pelo grau de saudade ou teimosia dos pais, antes que o meio ambiente os imunizasse, como foi o caso de Ron Demaderios: «Sorry, só sei falar inglês...». E tem pena, pois sente-se português «at heart», confessa orgulhoso das suas origens.



O nome parece ser uma corruptela de «de Medeiros», o mais que provável nome de família dos seus egrégios avós, oriundos dos Açores, a misteriosa Atlantis que a providência divina colocou estrategicamente no oceano a meio caminho entre a mãe-pátria madrasta e o tio Sam, que lhes garantiu o futuro da prole em alternativa ao mais que provável destino de olhos perdidos no mar.



Ron reformou-se e trabalha agora como vendedor da Earthquake, uma empresa californiana que, como a designação indica, fabrica colunas que ribombam com telúrica intensidade.
Earthquake Nova Titan ($20 000 o par)


O modelo Titan lembra vagamente umas BW Nautilus de cabeça achatada. Mas o que as distingue é, além das 4-vias, com altifalantes e tweeter de polpa de seda e a possibilidade de amplificação independente, o enorme «alguidar» lateral, um altifalante passivo de 15 polegadas que nos faz vibrar o vil esqueleto como um terramoto divino: «Hence the name Earthquake», explica Ron com genuíno entusiasmo.


Na demonstração, as Titan foram alimentadas por amplificadores Cinenova apresentados na literatura promocional como «weapons of mass destruction». Ficam assim com uma ideia razoável da experiência acústica...



Eis a metáfora perfeita do regresso às origens vulcânicas da vida: Ron, que nunca foi aos Açores, é um verdadeiro ilhéu «at heart», que na América se sentiu atraído pelo pulsar de Atlantis.