2005

Correio Dos Leitores: A Delmax, Os Gira-discos E Os Primaluna



Exmo senhor



Faz muita publicidade à Delmax e o homem percebe da poda. Mas o tempo médio de permanência de um gira discos para recuperação na Delmax é de 1 a 2 anos. Isso o senhor não diz, não interessa, n´est pas ?

Quanto aos Prima Luna, é banha da cobra. O Primaluna 2 nem dado, mas a publicidade vende e depois os desgraçados que os compram baseados em artigos de
opinião vêm para a Audioonline e outros sites ver se vendem os aparelhos.


Ruben



Caro Ruben



Eu não faço publicidade, faço reportagem, análise e crítica de equipamento áudio. Embora admita que a fronteira é ténue - uma tenuidade que preservo e cultivo, desde que há mais de 20 anos me lancei nesta aventura de partilhar com os leitores as minhas opiniões sobre áudio, os meus gostos, as minhas angústias e dúvidas, e algumas certezas alicerçadas numa vasta experiência que é o cimento do meu prestígio nos meios audiófilos internacionais.



Desde Janeiro de 2004, que não ia à Delmax, uma ausência demasiado longa para quem faz 'muita' publicidade a uma loja, convenhamos. Em especial quando lá abundam simpatia e produtos pelos quais tenho um carinho muito especial, como as Sonus Faber, que têm acompanhado a minha carreira desde o início.



Não pretendo arvorar-me em defensor oficioso de Rui Borges - ele não precisa que eu o defenda, a sua paixão pela 'res audiophila' e a sua competência são conhecidas de todos: especialistas e simples amantes do áudio nacionais e internacionais.



O que se passa é que o Rui não é um 'mecânico' de gira-discos, é um artista, um 'restaurador'. E a restauração é um trabalho de amor, que exige tempo e paciência. O Rui restaura gira-discos às portas da morte ou em vias de extinção, casos perdidos, desenha e reconstrói peças que já não existem no mercado, melhora aspectos mecânicos e funcionais, como quem recupera o pigmento de um quadro de Ticiano. É isso que lhe dá gozo.



Quem leva um familiar em estado de coma a um especialista não quer saber quanto tempo ele vai demorar a acordar, só quer que ele não morra e se cale para sempre. Não peçam ao Rui para ter pressa, porque ele não sabe trabalhar assim. E prefere os casos desesperados aos arranjos fáceis. Muitos dos gira-discos que ele recuperou foram rejeitados pelas próprias marcas com o selo de 'irrecuperável' com destino ao ferro-velho da história do áudio.



Com os PrimaLuna passa-se o mesmo. Ter um amplificador a válvulas é como ter um cão. Há pessoas que não deviam ter um cão, porque não o merecem ou não o entendem. Um cão mal educado pode tornar-se agressivo. Para ser dono de um amplificador a válvulas é preciso ter cultura audiófila. E paciência. Não foi por acaso que o mercado optou pelo transístor e agora pela amplificação digital: é mais prático, mais barato, mais fácil, mais fiável e os resultados médios são superiores. Os amplificadores a válvulas são para quem busca algo mais do que a mediania sonora. Mas exigem conhecimentos para se tirar deles o melhor partido.



Há questões relacionadas com a adaptação das impedâncias de entrada e saída, que obrigam a uma escolha criteriosa de fontes, colunas e cabos. Há questões relacionadas com interferências externas. Com o ruído dos transformadores. Com as válvulas, a sua origem e tipo, estado de funcionamento e nível de polarização. Com o desequilíbrio entre canais. Com a distorção típica da tecnologia do vácuo, que 'sabe' mal aos osciloscópios e bem aos ouvidos.



Tal como quase todos os amplificadores a válvulas, o PrimaLuna não é perfeito. Como não é perfeito 'o cão que morde no próprio dono' - ainda que a culpa seja quase sempre do dono...



O que a PrimaLuna conseguiu foi oferecer amplificadores a válvulas a preços atractivos, com o carisma e o encanto dos 'velhos' kits DIY, quando antes eram produtos de luxo quase inacessíveis. Desafio-o a abrir um PrimaLuna Three ou Five e a comparar a qualidade de construção e montagem com outros amplificadores a válvulas do mercado. Depois compare o preço...



A Imacústica, que distribui a marca, e a Delmax que os vende, dão aos seus clientes todas as possibilidades de ouvir antes de comprar. Com as suas próprias colunas até. E se houver algum problema técnico tentam resolvê-lo ou trocar o produto por outro, se for caso disso. As suas acusações são vagas: o PrimaLUna 2 é banha-da-cobra. Porquê?



E saiba que na Audioonline há centenas de 'desgraçados' a tentar vender todo o tipo de amplificadores. É natural que algum deles seja PrimaLuna. Curiosamente, eu fui lá e não vi nenhum à venda. Mas havia dezenas de amplificadores a transístores. E até um Audio Research a válvulas. Será que isso os torna também 'banha-da-cobra'?...



A propósito: quantos milhares de 'desgraçados' há na net a vender a aparelhagem, a casa, o carro, o cão, o corpo, a alma e até os filhos?...



Um abraço audiófilo


JVH