2005

Audionet Pre G2/amp Ii: «sturm Und Drang»



«Sturm und Drang», que à letra se pode traduzir por «Tempestade e Angústia», foi um movimento literário alemão do século XVIII, influenciado pelas ideias de Rousseau, que teve como principais vultos Herder e Lessing, entre outros, sendo a sua obra mais emblemática «Werther», de Goethe: a história trágica de um jovem com problemas existenciais, que no fim acaba por se suicidar, depois de se ter perdido de amores por uma mulher casada, na linha do poeta provençal que cantava a inatingível esposa do suserano, apenas porque o amor é um não querer mais que bem querer.


E o que tem isto a ver com alta fidelidade?, pergunta o leitor.


«Sturm und Drang», que em termos literários também se pode traduzir por «paixão e energia» (já começa a fazer algum sentido?), constituiu na altura uma pedrada no charco, quase uma «rebelião» contra o absolutismo político e as convenções culturais e sociais reinantes, tendo como conceitos fundamentais: êxtase, emoção e paixão; e, como figura central, o «génio» do indivíduo solitário e anónimo face à sociedade castradora sem, contudo, cortar os laços com o racionalismo iluminista ou de beber a inspiração na tradição clássica e medieval.



THOMAS GESSLER
Thomas Gessler, da Audionet


A Audionet, uma empresa alemã fundada em 1994, com sede em Bochum, à sombra da famosa Universidade do Ruhr, onde tudo é concebido e montado (a «deslocalização» asiática ainda não passou por aqui) sob a batuta do «génio» residente, Thomas Gessler, que não é tão jovem como Werther - e muito menos tem tendências suicidas -, apenas concebe produtos, como o pré-amplificador de referência PRE G2 e os amplificadores monobloco AMP II, objectos desta análise auditiva, pelos quais um audiófilo se pode apaixonar perdidamente, como Florbela Espanca, porque nos transmitem: «êxtase, emoção e paixão». E tudo com uma energia que torna, por comparação, a actual tendência absolutista da amplificação digital numa autêntica tragédia dos tempos modernos. Talvez daí o nosso desejo de morrer como Werther quando partem tão cedo desta vida descontente...


TECNOLOGIA DE PONTA
Audionet PRE G+AMP II


O AMP II segue os ensinamentos clássicos adaptados aos amplificadores convencionais com andar de potência a MOSFET, mas apresenta uma série de inovações tecnológicas que são também elas uma verdadeira «rebelião» contra o «status quo» e os dogmas do highend: nomeadamente o controlo de todas as funções por microprocessador, incluindo a correcção em tempo real da distorção, além de um sistema de protecção que o torna praticamente indestrutível e amigo das colunas de som (corta a alimentação de sector na eventualidade remota de alguma coisa correr mal). A alta tecnologia aplicada à ciência convencional permite ainda ao AMP II detectar, por exemplo, a polaridade da corrente de sector (e corrigi-la!), ou dar informações no mostrador alfanumérico sobre o estado e o modo de funcionamento: temperatura, potência utilizada e o tipo de entrada (simples ou balanceada). O AMP II, que reclama (e cumpre por excesso!) ter uma potência 200W/8 Ohm, 350W/4 Ohm, 550W/2 Ohm e 750W/1 Ohm, tem uma banda passante de 0-300 000Hz e um tão extraordinário quanto inusitado factor de amortecimento (damping factor): 1 800/10kHz e 10 000/100Hz (!!).


Factores de amortecimento desta ordem de grandeza, que pressupõem uma impedância de saída infinitesimalmente baixa, são fonte de controvérsia nos meios audiófilos, e há até quem defenda, como «mestre» Nelson Pass, que, num mundo de colunas de som ideais, quanto mais elevada esta for (logo, quanto mais baixo for o factor de amortecimento), como no caso dos amplificadores a válvulas, melhor será a riqueza harmónica ao nível dos registos baixos. Contudo, as colunas de som exibem curvas de impedância complexas, assim um elevado factor de amortecimento é sinónimo de maior controlo sobre os graves e, neste caso particular, também sobre os agudos (as Martin Logan Odyssey agradecem). Segundo Pass, amortecimento em demasia é contraproducente em termos acústicos. Será assim?



APERTAR CINTO, LIGAR TURBO


O meu receio de que o som do conjunto PRE G2/AMP II fosse demasiado «controlado» e até frio, na má tradição do áudio alemão de décadas passadas, revelou-se infundado e desvaneceu-se logo ao primeiro vagido. Este não é apenas um duo de respeito em termos de poder e energia, é também respeitador do conteúdo musical e do delicado excipiente acústico que o envolve. O conjunto respira como um organismo vivo ao ritmo imposto pela cadência de todos os géneros musicais, tecendo a trama melódica a partir de uma miríade de finíssimas linhas harmónicas, que em nenhum momento se confundem (a resolução é excepcionalmente elevada), mesmo na presença brusca e repentina (uau! o efeito de surpresa do AMP II é arrepiante) de transitórios de percussão, e revelou ainda autonomia total em relação às forças em presença no palco sonoro, adequando-se de forma plástica e harmoniosa às necessidades de espaço impostas pela partitura, com uma reprodução tão natural do «decaimento» das notas no negrume do baixíssimo patamar de silêncio (total ausência de distorção), que nos sentimos transportados para outra dimensão. Em nenhum momento, senti falta de potência ou de conteúdo harmónico: o som sobe e desce como um todo orgânico, graves, médios e agudos em fase absoluta, acompanhando o movimento perpétuo das marés desse vasto oceano mágico, líquido e transparente que é a música.


Numa palavra, para quem se perdeu a meio desta tirada lírica: o duo Audionet PRE G2/AMP II é um sistema de amplificação highend, leia-se, de grande qualidade sonora, que posso recomendar sem receio de frustrar mesmo os audiófilos mais exigentes. Só não gostei do suave ronronar dos transformadores (que se ouve no silêncio da noite quando a música se cala) e do clic-clic dos relés do préamplificador, um mal necessário. Tudo o resto é superlativo.


Admito que, salvo uma ou outra honrosa excepção, estou a lembrar-me, por exemplo, dos Jeff Rowland, eu nunca fui adepto incondicional dos amplificadores que utilizam MOSFET no andar de potência, preferindo a franqueza crua dos bipolares, por muito que aleguem que partilham o mesmo princípio operacional das minhas amadas válvulas. Sempre os achei discretos, educados; polidos, sem dúvida, mas demasiado contidos, quando não mesmo indolentes. Não é o caso dos Audionet, que me soaram, estes sim, quase como o McIntosh MA2275 (ah! aquele gostinho a válvulas perfumadas e frescas, aquela doçura transparente, que guardo com carinho na minha memória recente), mas muito mais generosos, magnânimos até, e com potência limpa e disponível a pedido.

Absolute spitzenklasse! JVH dixit.


Especificações técnicas:


PRE G2


AMP II


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