2004

Musical Fidelity X-ray V3: O Cd Ao Raio-x



Musical Fidelity X-Ray V3


De vez em quando, Michaelson tem uns «vibes»: ainda o famoso SACD Tri-Vista, um modelo exclusivo que custa uma pipa de massa, não saiu do palco da fama, e já lançou o X-Ray, um leitor-CD que utiliza o mesmo «chip-set», numa embalagem diferente e bem mais acessível (1 150 euros).


A actual série-X «rectangular» (que inclui ainda um «Tuner» e o amplificador integrado X-150, que faz um excelente par com o X-Ray e custa 1 050 euros) substitui a série-X «cilíndrica» e algo artesanal. A caixa metálica tem um aspecto sólido e o formato «half-size» (tem apenas 21 cm de largura) contribui para reforçar esta imagem de robustez que o peso de apenas 5 quilos não contraria. Curiosamente, apesar dos ângulos rectos, o som é mais «redondo». Não no sentido de «doce» ou «mole» (o X-Ray é tenso e dinâmico) mas de bem «boleado» nos agudos.


Robusto é também o som resultante desta nova implementação dos DACs Burr Brown 1732 que têm a particularidade de efectuarem o «up-sampling» automático, puxando o sinal original dos CD a 44/16 para 96/24. Há menos de três anos era preciso pagar uma fortuna para ter um leitor-CD com este poder de resolução. O nome X-Ray assenta-lhe assim como uma luva: os discos são como que «radiografados» e todos os segredos musicais que contêm são desvendados de forma clara e sem sombra de agressividade. O som é neutro, focado e limpo. E o grave - o maior problema dos leitores peso-pluma - é sólido, musculado e com impacte q.b. Deixem-no aquecer bem até «limar» algumas arestas iniciais mais vivas e domar a tendência para a excitação do boxeur que pouco a pouco vai dando lugar à compostura elegante do mestre de «Aikido».



A308 ACESSÍVEL


Se querem um bom termo de comparação, eu sugiro o Musical Fidelity A308: na minha tabela subjectiva obteve a mesma classificação do seu irmão SACD Tri-Vista, com a vantagem, não despicienda para o meu gosto, de ser menos incisivo. Pois eu creio que o X-Ray é um A308 ainda mais «polido», apesar da claridade e focagem dos registos médios, aliada à notável solidez dos graves, poder sugerir inicialmente alguma «secura» ou «adstringência», quando se trata afinal de «rapidez» transitória, que confere um brilho dourado às cordas das guitarras e verosimilhança às sibilantes da voz humana.


Na leitura das minhas notas de audição, «correcto» é um termo recorrente, e isto fica muito a dever-se também ao novo mecanismo Philips VAM 1202. Uma opção que, por si só, justifica a compra como transporte digital. De facto, a empatia eléctrica com o meu conversor de referência Chord DAC 64 é total. E sabe-se como o DAC64 é «esquisito» com as companhias que lhe arranjo, recusando-se mesmo a trabalhar com algumas vedetas bem cotadas no mercado quando detecta «jitter» excessivo ou interferências RF. Com o X-Ray o som resultante está ao nível do melhor que já obtive a partir do DAC64, incluindo, pasme-se!, o próprio Chord Blu (com ligação SPDIF coaxial Nordost Valhalla).


Ainda não é desta vez que um leitor-CD integrado consegue superiorizar-se ao conversor Chord (o som do DAC64 é mais expansivo e encorpado, numa escala mais elevada e natural), embora o X-Ray peça meças na lucidez e inteligibilidade do discurso musical e, repito, na excelência da focagem - o seu ponto mais alto. O palco sonoro do DAC64 é também mais amplo e profundo ainda que não necessariamente mais bem iluminado e definido: a pureza dos registos médio-altos do X-Ray tem um agradável brilho de halogéneo que destaca os intérpretes na boca de cena deslumbrando sem ofuscar.



A BATUTA DO MAESTRO


Há algo que diferencia de imediato o som de um bom gira-discos de um leitor-CD: a sensação de poder. E não me refiro ao som estar mais alto ou mais baixo, refiro-me a algo de intrínseco à música que o analógico preserva melhor que o digital e que é do domínio temporal. Tem muito a ver com «jitter» (erros temporais durante a conversão) e a discussão levar-nos-ia, a nós, muito longe, e a brigada dos «bits-são-bits-e-o-digital-é-o-som-perfeito» a um estado de total exasperação, quando descobrisse que o «tempo» (e não é a gestão do tempo pelo maestro que dá grandeza à música?) não está afinal registado nos CD. O leitor-CD «assume» como válida a frequência de amostragem normalizada a que o disco foi registado mas basta um erro na casa dos nanosegundos ou até picossegundos (o tal «jitter») para destruir o equilíbrio do som original. Na audição de um leitor-CD, o poder, que na vida real está associado aos músicos tocarem a compasso, sente-se tanto mais quanto menos «jitter» lhe estiver associado.



LIFE IS A BITCH


O X-Ray continua a soar «digital»: life is a bitch. Ainda assim recomenda-se para os que não entraram já na senda sem retorno do DVD e do surround multicanal, enquanto sonham com um leitor-CD highend de apenas dois canais a um preço que não podem nem nunca poderão pagar. Por mil euros o X-Ray tem poucos concorrentes. Só não lhe exijam que faça fotografias simpáticas do acontecimento musical com filtros de correcção cromática tipo «pôr-do-sol» para maior dramatismo. O X-Ray revela as entranhas do disco, não no preto-e-branco da radiografia, mas nas cores da tomografia axial computorizada (hélas, nem todos os «tumores» digitais são benignos...).



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