2004

Ao Eduardo - Parte 1



Eduardo Rodrigues c/ as amadas KEF207, em Frankfurt

Há 20 anos o som do CD era estéril e mecânico, por oposição ao «som do prego», como ele ironicamente chama aos gira-discos. Já na década de setenta, o Eduardo tinha uma célula de leitura quadrifónica, que nos permitia ouvir LP em «surround»!...
Mas era quando ele colocava no prato do gira-discos os «direct-cut» da Sheffield (gravação directa do microfone para o «master» analógico sem recurso a fita magnética, logo irrepetível e sem margem de erro para os músicos) que eu atingia invariavelmente o êxtase sónico. Caramba!, ouvir Thelma Houston a cantar «I've got the music in me» era naquela altura (e ainda é!) o mais próximo que se podia estar de uma live performance.



OH, THELMA!


In illo tempore, os músicos tocavam todos juntos em estúdio. Não se ouvia som, ouvia-se música: empatia, melodia, ritmo; cada palavra tinha a dose certa de paixão e arte; e o excipiente acústico, essa etérea «ambiência» a que o digital é alérgico, pulsava como ar dentro de um balão de silêncio negro rasgado pela respiração rouca e funk, ora sensual ora ofegante, de Thelma, em especial os arrepiantes momentos accapela, quando num frenesim vocal ficava ali sozinha no palco sonoro à nossa frente, o corpo e a alma vibrando, sob o holofote do engenheiro de som. Iriçavam-se-me os pêlos do pescoço, engalinhava-se-me a pele. Tinha vontade de saltar da cadeira e aplaudir no final. Na versão CD deste disco raro (refiro-me ao LP original), Thelma soa como uma sombra. Está lá tudo, é um facto. Menos a empatia. Menos a paixão. Ou seja: o som está lá, a música não.


A técnica de registo e reprodução de CD evoluiu muito em 20 anos, e ambos nos deixámos levar entretanto por este ledo e doce engano. Mais eu que o Eduardo, que teve uma recaída e comprou um Forsell com braço tangencial, uma espécie de Bentley dos gira-discos, com o qual gosta de deixar amigos e clientes «a bater mal» - uma expressão muito sua.



BENDITA OBSESSÃO


Na sua loja Pedro's Hifi (por amor ao filho), o Eduardo «entretém-se» agora a catequizar um público que tem vindo rapidamente a perder referências acústicas, num mercado onde a ordem económica se sobrepõe à paixão:


«O Hifi já foi um assunto sério de debate aceso e polémica interminável, hoje vendem-se sobretudo electrodomésticos sonoros, DVD, plasmas, câmaras e AV, ou seja, bens de consumo de efeito imediato e garantido. E mesmo assim vende-se pouco, que o dinheiro nunca chega no fim do mês...», lamenta-se. «Já ninguém se priva de um carro novo para comprar amplificadores topo de gama», diz e sorri, consciente dos excessos que eventualmente possa ter cometido em nome desta bendita obsessão audiófila, enquanto exibe orgulhoso a artilharia de amplificadores Denon (modelos únicos em Portugal) e McIntosh que ele tanto gosta de «puxar» até ver as agulhas a bater no fundo.


Eduardo Rodrigues tocou trompete na banda da Marinha. Desde então, não parou na busca infrutífera do Graal Sónico que lhe permitisse reproduzir o ataque, a dinâmica, a pressão sonora e a riqueza harmónica de um concerto ao vivo.


Continua (ver Parte 2 em Artigos Relacionados)