2003

Sacd Com Imagens



No bife com ovo-a-cavalo não sei se gosto
mais do dito ou do ovo. Separe-os e não sabem ao mesmo. Contudo,
no áudio sempre desconfiei dos «dois-em-um». Um leitor-DVD é por definição um leitor-DVD e a
mais não devia ser obrigado. O facto de um leitor-DVD também
reproduzir CD é um extra não uma virtude:
a performance áudio da maior parte deles
deixa aliás muito a desejar.



O Sony DVP-S9000ES é um leitor-DVD.
Logo, por dever de ofício, também reproduz
CD. Mas estou mais interessado noutra particularidade única (na altura em que escrevia): reproduz
também Super Audio CD. Pelo preço do DVP9000 pode comprar um
bom leitor-DVD da Sony e um leitor-SACD
XB940. E ainda poupa cem notas
para comprar discos. Com um televisor
da treta e um sistemazeco de som de
trazer por casa não vai notar diferença nenhuma. Além disso, o 9000 não oferece
nada de novo: o SACD
continua a ser estéreo e o vídeo progressivo de que
se arroga só funciona com televisores de
varrimento NTSC e entrada por componentes.
O painel prismático em acrílico que
integra o mostrador e os comandos pode ser uma
interessante solução estética mas dificulta a leitura dos ícones das respectivas
funções: branco sobre base transparente (que raio!!). O 9000 tem ainda uma
característica com que os audiófilos engalinham: o acesso aos me-
nus pressupõe a utilização de um monitor de tele-
visão. Ora, reza a lenda isto
degrada a imagem estereofónica.
A imagem é fabulosa, parada ou a andar, depressa ou devagarinho e ainda por cima pode ser corrigida na cor, no brilho, no tom e na nitidez
(as correções são depois armazenadas individualmente até 300 discos) E nem expe-
rimentei (pois se a imagem já estava tão boa
assim) e outras soluções técnicas miraculosas co-
mo o sistema de Redução de Campos de
Ruído, que elimina algumas das idiossincrasias do MPEG-2, a identificação automática da origem do DVD
(vídeo ou filme), a comutação automatica
para a banda sonora em 5.1, a que se jun-
tou como extra a capacidade SACD.



Mal sabia eu que a presença do DVP-S9000ES em minha casa ia alterar a paz so-
cial. Depois de ver o primeiro filme em DVD,
a família adoptou-o imediatamente. A imagem era melhor, pronto. Invariavelmente melhor. Isto utilizando apenas a saída VHS-S. Porque o
televisor é vulgar de Lineu e não tem
entrada por componentes. Eu estava contudo mais interessado em levá-lo para o meu templo privado: instalei-o no sistema de referência acolitado por amplificadores Krells e colunas Wilson, muni-me da minha colecção de SACD, DVD-A (não os propria-
mente ditos mas os DAD da Classic e os
SAD da Chesky a 24-bit/96kHz) e CD Vintage, apertei o cinto e...
Para não vos fazer perder tempo, digo já o que tenho a dizer: o DVP-
S9000ES é o melhor leitor-SACD da Sony
depois do fabuloso SCD-1. Dá um banho no SCD-777ES (não confundir com o modelo actual SCD XA777es) e envergonha o XB-940. De facto, com certos discos (Dealing, Joe Beard, Audioquest, registado directamente em DSD) obtive mesmo os melhores resultados de sempre, incluindo-se aqui a performance do Marantz
SA-1.



Ora, se considerarmos que o leitor-DVD é um espanto, estamos perante uma
pechincha apesar do preço elevado. O que
nos traz de volta para a questão do copo
meio cheio ou meio vazio: no DVP-S9000ES
o leitor-SACD não é um extra - é extra(ordinário).
O circuito de conversão é o mesmo utilizado no SCD-777ES, pelo que isto só po-
de ficar a dever-se ao novo sistema de
transporte de qualidade profissional. Nunca
um transporte Sony chegou tão longe no
teste Pièrre Verany: 1,5 mm.



Eu sei que a maior parte dos leitores
que já ouviram SACD estão um pouco desiludidos. Afinal, a diferença entre SACD e
CD parece pequena e provavelmente não vale o
investimento. Em muitos casos, a diferença perde-se nos meandros dos circuitos
dos electrodomésticos sonoros. E os discos não
abundam por aí, além de que só 10% justificam a compra: registo original em DSD.
Mas talvez se eu lhe fizer uma descrição
do que deve ouvir seja mais fácil detectar
as diferenças. E em verdade vos digo: uma
vez experimentadas e compreendidas, já
não é possível voltar atrás.



O SACD ouve-se mais alto que o
habitual porque não sofre de distorção, dureza e outros artefactos digitais. O SACD é
como uma fotografia digital de alta resolução que pode ser «puxada» sem pixelização prematura. Os agudos têm mais extensão e corpo: os pratos não soam como ruído branco contínuo
mas como uma sucessão de sons fundamentais distintos com a sua corte de harmónicos numa procissão ordenada e musicalmente lógica; os registos médios são de
uma naturalidade e presença como só é possível com um LP reproduzido por um prato/célula de preço estratosférico: não endurecem quando o som sobe, permitindo
variações dinâmicas surpreendentes; as relações espaciais entre os músicos têm
fronteiras físicas perfeitamente delimitadas
e estáveis sem invasões de território abusivas que tendem a confundir os planos ;
o ar é uma entidade viva (audível) e transparente e não apenas um excipiente gasoso que dificulta a visão do palco sonoro;
o poder, controlo, impacto, fluidez, articulação e ritmo dos graves do SACD constitui a sólida fundação de todo o edifício musical e chega a ser embaraçoso para o CD.
E para mim também que utilizo o CD como principal fonte musical. Todos os instru-
mentos a solo (ah!, os pianos, as vozes,
as flautas, as harmónicas, os saxofones,
os tambores, até o triângulo...) ou «em
massa» (violinos, metais, coros...) soam
mais verdadeiros, mais verosímeis, mais
tangíveis, mais... musicais. E apetece ouvir o mesmo disco, não só mais alto mas
mais vezes e sem parar. Chega a ser compulsivo. O Sony DVP-S9000ES torna tudo
isto ainda mais evidente.



E agora o que faço? Divido-o ao meio
para poder devolver o leitor-DVD à família e
ficar com o leitor-SACD só para mim? Ou
faço como Salomão?...