2003

Clínica Geral



A Pioneer não é só «pioneira» no nome. Sempre que vou a Las Vegas é no «stand» da Pioneer Electronics (USA) que encontro exposto um qualquer protótipo de uma qualquer tecnologia futura: foi assim com a DAT, o Dolby AC3, o DVD/-RW, o Blu-Ray. Por outro lado, é uma marca «rebelde» - por uma boa causa. De facto, a saída digital dos primeiros leitores-DVD fazia obrigatoriamente o «down-sampling» para 48kHz (para evitar a cópia de alta resolução), mas os Pioneer sempre deixaram «passar» toda a glória da música a 96kHz. E nunca a marca tomou partido claro na guerra dos formatos, optando desde o princípio pela «universalidade» dos leitores-DVD/SACD. A história recente veio dar-lhe razão. Digamos que a Pioneer é uma marca «ecuménica».


Os leitores-SACD e DVD-A multicanal vêm todos equipados com saídas analógicas múltiplas independentes para cada um dos canais, porque os poderes instituídos se recusam a oferecer aos potenciais piratas uma saída única digital (ver DNA/Sons de 1 de Março), que permita a transmissão do sinal entre o leitor e um conversor externo sem perda de qualidade. Tudo porque pode ser «interceptado» no caminho pelo lobo mau. Daí a a razão por que os actuais amplificadores AV têm mais cabos espetados no painel traseiro que cabelos eu tenho na cabeça.


A Sony criou então o protocolo iLink, que permite transmitir todos os canais por um único cabo digital. O sinal é previamente encriptado para evitar tentações, claro. As primeiras experiências foram efectuadas com sucesso pela dCS, mas uma vez mais é a Pioneer que torna uma nova tecnologia acessível ao grande público nos modelos da série «i». Como sempre acontece, os topos de gama são os primeiros a oferecer esta vantagem: assim é também com o leitor DVD-V/A/SACD/CD DV-757Ai e o amplificador AV multicanal VSA-AX10i-S, que são hoje nossos convidados de honra.


À primeira vista nada os distingue dos congéneres da Denon, Sony e Yamaha. Se não fosse o logotipo, até se podiam confundir nas prateleiras das lojas de hifi. E, se exceptuarmos a tal ligação iLink (Audio S400), o painel traseiro é em tudo idêntico: a habitual bateria de fichas de ligação que precisa de um mapa para nos orientarmos. No que diz respeito às chamadas «características», o AX10i-S tem tudo o que lhe passar pela cabeça e mais a compatibilidade com as normas «7.1» (Dolby Digital EX, DTS ES, etc., incluindo o mais recente formato áudio DTS 96/24 e DVD-A a 192/24 (se os encontrar à venda).


As diferenças começam na excelência do controlo remoto, com painel LCD do tipo táctil («touchscreen»), que envergonha os fornecidos com modelos de outras marcas famosas (o Showcase, da Krell, por exemplo). E bem falta lhe faz, porque afinar o AX10i-S exige ou muita paciência (que eu vou perdendo) ou muita ciência (que eu não tenho). Pode optar pela calibração automática (microfone incluído, outro factor distintivo), mas é uma operação paradoxalmente complexa, demorada, desagradável ao ouvido e nunca fica ao nosso gosto, pelo que é preciso arregaçar as mangas até começar a ouvir música: configurações, tipos de colunas, distâncias, níveis, tons, dinâmicas, uff! Li e reli o manual (em inglês!) e, mesmo assim, na parte final do teste a ligação iLink, que tinha funcionado na perfeição toda a semana, «foi-se». Apesar de seguir todos os passos, não consegui voltar a ligá-la. Na função «Signal Select», iLink não aparecia, e no modo Auto o «default» fixou-se teimosamente no «Analog», mesmo quando só o cabo iLink estava ligado e o «input assignment» correcto. Admito que a culpa foi minha: mas qual a peça que faltava no «puzzle» de teclas e funções?


Isto apenas para o avisar que este tipo de equipamentos deve ser comprado num revendedor especializado e não no hipermercado.


Ligar o AX10i às minhas Martin-Logan foi o cabo dos trabalhos. Literalmente: os meus cabos Nordost Valhala têm terminações de forquilha e os bornes não as aceitam (só cabos nus). Lá arranjei uns adaptadores de banana e com paciência de santo tive de tirar os pinos de protecção dos bornes um por um. Ligar o DV-757Ai foi canja com o cabo iLink de quatro pinos. Para comparação, liguei-o também por meio de cinco cabos coaxiais Ixos (com colunas de banda larga não utilizo subwoofer).


A partir daqui, cheguei ao oásis do audiovisual. O sistema identificou e reproduziu todos os discos de todos os formatos (CD, SACD, DVD-A e DVD-Video, em Dolby Digital ou DTS) que lhe dei a provar. A propósito: a imagem vídeo é também excelente: nítida, sem excessivos artefactos de movimento, com cores bem saturadas e negros plausíveis.


Sendo de clínica geral, o AX10i diagnostica com facilidade e prontidão todas as variantes da actual febre do «surround» e dá-lhes o tratamento acústico adequado, com a autoridade suave de um médico de família. Até o CD é bem tratado, em especial no modo Hi-Bit. E pode jogar ainda com os filtros Legato do DV-757Ai. Aqui e ali senti que, apesar dos «alegados» 170Wx7 e da chancela THX Ultra 2, as Martin-Logan, difíceis e caprichosas na curva de impedância, tinham apetite para mais: o Krell Showcase tem uma postura muito mais autoritária.
Resta saber se os resultados são melhores com a «injecção» única do iLink ou o «frasco de comprimidos» dos cabos analógicos (não confundir com compressão que não existe em nenhum dos casos).
Quando se opta pela transmissão analógica, a conversão é feita pelos circuitos internos do DV-757Ai; com iLink, o sinal é transmitido sob formato digital e convertido pelos circuitos do AX10i, que são diferentes. Com o iLink o nível do sinal é também pelos menos 3dB mais elevado. Só isto invalidaria qualquer comparação. Mas é óbvio que o som ganha outro impacte, dinâmica, ataque e tensão com o iLink, em especial com DVD-A. Até o Dolby Digital e o DTS são beneficiados. E tem também mais recorte e definição.

Surpreendentemente, o som analógico multicanal directo do SACD (e não só) é mais envolvente e tem mais suavidade e aparente riqueza harmónica. Só tem que subir um pouco o volume para compensar.
O carácter sonoro de ambos é, contudo, muito semelhante: o som é feminino (não confundir com fraco), no sentido em que é sensual, envolvente, aconchegante, sem arestas, redondo e macio, mas com resposta pronta e adequada a cada situação. Fundamentalmente, todos os canais são da mesma família acústica (modelos há que favorecem o par frontal), o que torna o som do AX10i solidário, coeso, sólido, sem perder a identidade individual de cada canal. Há um óbvio sentimento de equipa que se sente na audição.


O duo Pioneer DV-757Ai/VSA-AX10i-S, tanto na forma de «injecção» como de «comprimidos», não é um qualquer medicamento acústico «genérico». É a cura para a histeria sonora que afecta actualmente muitos sistemas AV. De «genérico» o DV-757Ai só tem o preço: por 1035 euros é uma pechincha como leitor «universal» e ganha um forte recomendação. O VSA-AX10i-S custa 4200 euros e já tem outros concorrentes à altura - mas nenhum tem entrada iLink...