2003

Ponto De Vista



As marcas independentes que fabricam equipamentos de áudio, dito «highend», são nichos de mercado, logo não têm estrutura financeira para desenvolver tecnologia própria. Assim, estabelecem acordos com as multinacionais e limitam-se a tentar melhorar aspectos específicos da obra alheia. Em nenhum outro campo como o da tecnologia digital isso assume contornos tão definidos.


Para conceber o seu leitor-SACD, a Krell teve de assumir compromissos com a Sony, confessou-me recentemente Dan D'Agostino; e a Theta, de Neil Sinclair, baseou os seus primeiros modelos de leitor-CD na tecnologia Pioneer.
A Musical Fidelity encostou-se à Philips nesta sua primeira investida no território do Super Audio CD. O Tri-Vista é alegadamente um tanque de guerra com um motor semelhante ao do Marantz SA1.


A partir de um mesmo núcleo digital, contudo, é possível obter diferenças (melhorias?) substanciais na qualidade do som com alterações drásticas na fonte de alimentação e na topologia e selecção de componentes dos andares de saída. Não é, pois, por acaso que alguns dos melhores leitores digitais do mundo têm a chancela de renomados fabricantes de amplificadores. Em algum ponto do circuito o sinal tem de ser convertido para analógico, e é aqui que eles estão como peixe na água. Mas as marcas têm o prestígio a defender e, ao pedirem por um aparelho o dobro (quando não mesmo o triplo) do que ele custa na versão original, têm de justificar o abuso com resultados objectivos. Há também aspectos particulares na área digital que são optimizados: selecção criteriosa dos conversores, redução de «jitter» (corresponde grosso modo à cintilação na imagem) e técnicas de «up-sampling» (elevar para o quádruplo a frequência de amostragem permite a utilização de filtragem menos agressiva), etc.


O Tri-Vista CD/SACD oferece fontes de alimentação reguladas por «choke» e separadas para cada secção, assim como circuitos de conversão independentes para CD e SACD. No andar de saída utiliza válvulas miniatura 5703 de especificação militar e longa duração. Tem ainda entrada e saída digital, pelo que pode funcionar como conversor e/ou transporte externo de outro equipamento complementar. A gaveta é uma obra-prima de design e robustez, mas não de ergonomia: não é fácil tirar o disco sem espetar o indicador no buraco.


O que resta saber é se o esforço (e o investimento) compensa, numa área em que a vertigem da obsolescência é a palavra de ordem: todos os novos leitores apresentados este ano em Las Vegas são multicanal e/ou «Universais» (SACD/DVD-Audio) com saída digital de alto débito iLink/Firewire. Ora, ao optar pelo «purismo» do estéreo (em vias de extinção?), o Musical Fidelity Tri-Vista expõe-se às críticas dos mais racionalistas. O seu desempenho teria de ser à partida superlativo para justificar, se não o investimento, no meu caso, pelo menos o tempo dispendido na análise.


O Tri-Vista (tal como o amplificador integrado com a mesma designação) é o culminar de uma trilogia que se iniciou com o «valvular» duo Nu-Vista e continuou, agora de novo numa concessão ao transístor, com o excelente duo A308, que foram aqui a seu tempo analisados. Todos eles são iguais no cuidado obsessivo posto na construção, todos eles são diferentes sob o ponto de vista acústico, como se Antony Michaelson tivesse consciência de que, na impossibilidade de se reproduzir a realidade acústica por meios electrónicos, não lhe restava outra alternativa senão «produzir» diferentes «sons» para diferentes sensibilidades auditivas, da mesma forma que a maravilhosa trilogia «Azul», «Branco» e «Vermelho», do realizador polaco Krzysztof Kieslowski, despertaram em mim diferentes sentimentos. Confesso que a bela Juliette Binoche imersa no azul liquido da tela é uma aparição recorrente na minha memória visual. Associo o A308 à cor azul, o Nu-Vista ao branco e o Tri-Vista ao vermelho. Neste contexto colorido, a minha actual referência, o conversor Chord DAC64, seria castanho, cor de «Chocolate». E quem viu o filme sabe que só há arte onde há amor e alma. E Juliette Binoche...


O Tri-Vista é tudo menos neutral: o seu carácter tonal é determinado pelas válvulas miniatura utilizadas no andar de saída. O som é redondo, contido, como se Antony Michaelson tivesse pretendido, perdoem-me o neologismo, «analogizá-lo» no limite. Dizer que o som está envolto num «casulo» seria uma injustiça. O termo «Cocoon» significa o mesmo em inglês, mas expressa melhor a sensação que pretendo transmitir, porque está associada a algo de mágico ligado a um imaginário colectivo: a ideia romântica de que é possível elevar o CD ao nível do SACD. Fica-me, contudo, a dúvida: é o CD aqui que se eleva (graças ao «upsampling»: 24bit/192kHz) ou o SACD que é levado a assumir uma postura «low-profile»?


O Tri-Vista soa (-me), não como um Philips (Marantz?), mas como o «pai-de-todos-os leitores-SACD», o Sony SCD-1, com o filtro de «50kHz» comutado. Talvez o «ruído» de alta frequência produzido pelo «noise-shaping», o único espinho na rosa perfumada do formato, fosse indigesto para a extensa banda passante das «valvulinhas», e Antony tivesse preferido eliminá-lo. Afinal, acima dos 50kHz só há «distorção térmica», como muito bem me explicou uma vez em Amsterdão mestre van den Hul.


O Tri-Vista tem os graves sólidos e autoritários que são exclusivos de peso-pesados como o SCD-1. Nota: num modelo musculado como este, os pézinhos luminosos só podem ser uma provocação (e mudam de cor!).


Os registos médios têm o gosto doce e viscoso do mosto quente que só a música reproduzida por válvulas nos deixa nos lábios. Em alguns aspectos, aproxima-se do Chord DAC64 (normalmente significa que estamos perante baixos níveis de «jitter»), sem contudo revelar a alacridade festiva nos registos agudos e o ataque dinâmico deste último, que lhe conferem uma aura singular de claridade, transparência, ritmo e grandiosidade cénica.


O Marantz DV8300, que testei recentemente, tem, em SACD-estéreo, um som mais «moderno», de contornos definidos e relações de espaço desenhadas a lápis e esquadro em papel milimétrico. O Pioneer DV-757Ai, que tenho em fase inicial de análise, tem, por oposição à masculinidade do Tri-Vista, a sensualidade acústica do feminino: chega a ser excitante aquela postura de donzela voluptuosa, de Lolita digital, cuja simples menção nos pode arrastar hoje para os abismos sórdidos da pedofilia.


O som do Tri-Vista tem os tons quentes dos vermelhos que se derramam no horizonte ao «pôr-do-sol» em África, uma experiência que nos marca para toda a vida, para o bem e para o mal: um oásis momentâneo de felicidade num longo deserto de recordações dolorosas.


Graças ao Musical Fidelity Tri-Vista CD/SACD, o estéreo resiste ainda com dignidade ao avanço inexorável do progresso multicanal. Tal como nós tentamos com apenas os dois ouvidos que Deus nos deu abarcar toda a complexa realidade sonora da natureza que nos rodeia.


Distribuidor: Sintonia Fina, Av. Gago Coutinho, lt. 2 - cave, telf. 21 464 79 30

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