2003

A Cereja No Bolo



Os formatos digitais de alta resolução (DVD-Audio e SACD) trouxeram de novo para a ribalta a polémica da necessidade de reproduzir sons alegadamente só audíveis por cães e morcegos e o interesse musical que isso possa despertar em nós, seres humanos.


O altifalante dualconcêntrico da Tannoy tem a vantagem da coerência temporal e de um melhor controlo da dispersão, logo da estabilidade da imagem estereofónica à custa de uma vaga sugestão de nasalidade por efeito de «mãos em concha» (melhora com o tempo e o uso intensivo: continua lá mas é negligenciável a partir das 100 horas de «queima»). O «supertweeter» entra aos 16kHz: na prática isso significa que não se «ouve» mas «sente-se».


A Tannoy Sensys DC2 teve tratamento VIP: prévio McIntosh C2200, amp Krell FPB400cx, cabos Nordost Valhalla, fonte Krell SACD Standard. Como termo de comparação, um par de Martin Logan Clarity. Mordomias excessivas para uma coluna de 775 euros, um preço a raiar o inacreditável face ao «tour de force» tecnológico.

As Sensys DC2 estão equipadas com bornes de boa qualidade para bi-cablagem e um borne de «terra» extra de uso opcional: ao ligar este «5º elemento» ao chassis do amplificador, elimina-se a possibilidade de captação de RF que pode afectar a prestação do supertweeter. Traz ainda bicos de aço para elevar e desacoplar a coluna do solo e dois cilindros de espuma para «domar» os baixos instintos do pórtico reflex se um dia tiver de as «encostar à parede».

O conjunto é leve, elegante e diferente, fácil de deslocar e o cuidado nos acabamentos permite retirar-lhes a «burka» (leia-se as grelhas): o altifalante dualconcêntrico é até bonito de se ver. A Sensys DC2 não é uma coluna «intrusiva»: os 17 quilos de peso são até abaixo da média para uma coluna de chão de 4-vias. Mas as colunas não se medem aos ...quilos.


O «supertweeter» molda o carácter acústico das Sensys DC2, com SACD e também CD, e deita por terra a ideia de que o seu papel é apenas reproduzir sons com frequências acima dos 16kHz. Aliás, com excepção de animais, crianças e algumas mulheres (não me atribuam juízos de valor...) são poucos os que conseguem «ouvir» sons acima desta frequência. Um homem maduro chega a pensar que estão a gozar com ele, e que aquela «coisa» não passa de mais um elemento decorativo.


O «supertweeter» é como o jogador a quem Gabriel Alves atribui a inefável capacidade de «jogar sem bola»: não joga mas ajuda os outros a atingir o golo. Quando é substituído, a equipa desmorona-se.

Faça a seguinte experiência: com a música a tocar peça a alguém para «tapar» o «supertweeter» de ambas as colunas (com duas caixas de CD por exemplo). Aparentemente, a haver diferença ela é subtil. Mas fixe-se agora mentalmente num ponto da imagem estereofónica e repita a experiência. A altura da imagem parece reduzir-se quando se tapa o «supertweeter»: o músico que estava em pé sentou-se (ou pelo menos tirou os sapatos), ficou sorumbático e a sua voz ou instrumento perdeu chama e espontaneidade. Se quer tornar o efeito óbvio para toda a gente utilize ruído rosa ou ruído branco: o «supertweeter» define, foca e paradoxalmente suaviza o som conferindo-lhe uma ilusão de continuidade. O ruído rosa (semelhante ao sopro de um rádio analógico desintonizado) abarca praticamente todas as frequências. Ora se o «supertweeter» altera o carácter acústico do ruído rosa, influencia também a componente harmónica dos outros altifalantes. De facto, os graves ganham outro ataque e definição. Porquê? A Tannoy alega que mesmo os sons graves têm harmónicos de alta frequência cuja correcta reprodução favorece o «recorte» fino das notas fundamentais. Por outro lado, ao estender a resposta por mais duas oitavas afasta as anomalias de fase da banda audível de que resulta a tal sensação de melhor focagem e estabilidade da imagem. As vantagens da «wide band» (banda larga) não são assim exclusivas na reprodução de SACD: com CD o efeito é praticamente o mesmo. Aliás, John Atkinson, editor da revista Stereophile, mediu a faixa «Money», dos Pink Floyd, na versão CD e SACD e as diferenças eram mínimas: apenas um pouco mais de presença de harmónicos nos pratos da bateria e na guitarra solo.


As Sensys DC2 parecem ter sido afinadas um terço de oitava acima das ML Clarity: as Clarity dão mais corpo às vozes, enquanto as DC2 introduzem uma suave ênfase na sibilância. Diz-se das colunas com «ar» nos agudos que são também mais «abertas». Não é o caso: sente-se a «caixa» nos médios das DC2 quando comparadas com as Clarity. O grave das DC2 é seco ao ponto de eu admitir que o «voicing» foi conseguido com um «subwoofer» em mente (a linha DC2 completa aposta claramente no AV). Se as encostar à parede, ou utilizar um amplificador menos autoritário (válvulas, por exemplo) poderá contrariar em parte esta característica. Por outro lado, (efeito do supertweeter?) a articulação, definição e recorte harmónico do grave (médio-grave?) tornam a linha de baixo fácil de seguir. A focagem e localização de todos os intervenientes em palco idem.

Convém relembrar que as Tannoy Sensys DC2 custam 775 euros, cinco vezes menos que as ML Clarity! E é essa diferença de preço que não cessa de me espantar. Quanto mais oiço menos acredito...


Distribuidor: Videoacústica