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Jadis JPL MkII/SE300B & DeVore Fidelity O/96 Tube Amp/Speaker System – análise crítica e laboratorial por Paul Miller

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Jadis JPL MkII/SE300B & DeVore Fidelity O/96 Tube Amp/Speaker System – análise crítica e laboratorial por Paul Miller 

Paul Miller*ouviu (e mediu!) um sistema composto por amplificação Jadis JPLII/SE300B e colunas Devore Orangutan O/96 para concluir que também no áudio menos por menos pode dar mais. Leia aqui na integra (e em Português) este exclusivo Hi-Fi News/Hificlube.net

*Paul é editor da revista Hi-Fi News, diretor e editor geral do grupo AVTech Media (inc. Sound & Vision e Stereophile nos EUA), Presidente da EISA e organizador do UK Hi-Fi Show Live, em Ascot.

Com base nos primeiros componentes hi-fi separados escolhidos a dedo para um catálogo ‘de artesão’, esta combinação de válvulas de baixa potência com colunas de elevada sensibilidade exibe uma energia – e um som - muito especial.

Combinar sistemas de som continua a ser uma arte, tanto quanto uma ciência. Há sempre o caminho mais fácil: optar por uma coleção de componentes de uma única marca, com a promessa de total compatibilidade técnica e a expectativa de uma ‘voz’ semelhante em toda a cadeia.

Já um pouco mais complicado é emparelhar componentes de marcas com filosofias de design coincidentes – uma via que leva muitas vezes a experiências musicais mais satisfatórias, mas que exige um conhecimento profundo, tanto da parte do entusiasta como de um revendedor solicito.

A terceira via – seleção aleatória de componentes no escuro com base na sorte -  não é prática que sigamos aqui.

Portanto, o recente anúncio (HFN Fev21) do distribuidor Absolute Sounds/Imacustica de que ia passar a ser curador de uma coleção de componentes individuais das marcas mais díspares, deixou-nos alerta. Este projeto de criação de sistemas de artesão, denominado ‘Ten’, arranca com duas marcas de conceitos semelhantes mas de lados opostos do Atlântico: Jadis, de França, e Devore Fidelity, baseada em Nova Iorque.

Então, e não têm nada em comum? Longe disso, a Jadis está há muito comprometida com os amplificadores single-ended de baixa potência, representados aqui pelos monoblocos SE300B (€14.400 par), em parceria com o novo pré-amplificador JPL MkII (€9.460), enquanto a Devore se especializou em colunas de som de elevada sensibilidade e fáceis de alimentar.

Os monoblocos da Jadis estão catalogados como tendo uns meros 10W de potência, a partir de um par de tríodos 300B por chassis, em modo single-ended e, portanto, funcionando em Classe A pura.

As Devore Orangutan O/96 (€14.500) de painel frontal largo têm uma especificação de 96dB de sensibilidade, e apresentam-se em folheado lacado de madeira de ébano, raiz de nogueira, cerejeira brava e ácer, com suportes de madeira lacada a condizer. Um casamento feito no céu? Chegou a altura de o descobrirmos…

Fachadas extravagantes

Com o chassis em aço cromado e os painéis dourados, os botões de controlo em latão também dourados, os interruptores basculantes e os enormes LED, o prévio e o amplificador Jadis conseguem o objetivo de se distinguirem como ‘produtos de uma época’ sem por isso parecerem ostentatórios.

Frente do monobloco Jadis SE300B, mostrando o transformador da fonte de alimentação, com tampa cromada; e na traseira as duas válvulas de retificação 5U4GB e os condensadores eletrolíticos azuis da fonte de alimentação.

Frente do monobloco Jadis SE300B, mostrando o transformador da fonte de alimentação, com tampa cromada; e na traseira as duas válvulas de retificação 5U4GB e os condensadores eletrolíticos azuis da fonte de alimentação.

Botões rotativos dourados, bem proeminentes na fachada dourada e cromada, regulam as entradas, equilíbrio entre canais e volume. Os basculantes comutam entre fonte/gravação e  muting (silêncio).

Botões rotativos dourados, bem proeminentes na fachada dourada e cromada, regulam as entradas, equilíbrio entre canais e volume. Os basculantes comutam entre fonte/gravação e muting (silêncio).

O prévio JPL MkII é a própria simplicidade, com apenas cinco entradas-de-linha, circuito de gravação e saída de prévio, todas RCAs. Não há controlo remoto, mas o comutador Mute é muito útil e tem o peso certo, e o controlo de volume de passos é uma verdadeira delícia na utilização.

Tal como se pode ler no meu ‘Lab Report’ (análise laboratorial), o JPL MkII é, de facto, um prévio dois-em-um: as quatro entradas de linha de ganho mais elevado utilizam um par de tríodos ECC83, enquanto a entrada CD utiliza uma única ECC82. Todas as válvulas são selecionadas e emparelhadas pela Jadis, incluindo as que são utilizadas na fonte de alimentação. E também os componentes passivos: condensadores, resistências, etc. são escolhidos depois de horas sem conta de audição. O ‘voicing’ (afinação da ‘voz’ característica da marca) é um princípio nuclear de todos os amplificadores Jadis.

A entrada CD tem muito menos ganho que as 4 entradas de linha, que se juntam aqui a gravação In/Out , Loop (circuito monitorização) e saída de prévio - todas RCA.

A entrada CD tem muito menos ganho que as 4 entradas de linha, que se juntam aqui a gravação In/Out , Loop (circuito monitorização) e saída de prévio - todas RCA.

O mesmo princípio aplica-se ao duo de monoblocos SE300B: as 300B são da Electro Harmonix e os tríodos 6SN7 de ganho de tensão, que funcionam aqui a 400V, vêm (creio eu) de um fornecedor russo. Todas as válvulas são protegidas por grelhas, que podem ser retiradas, isto claro se vive num ambiente doméstico sem crianças e animais de estimação e tem a certeza que nunca irá debruçar-se sobre elas com uma chávena na mão cheia de um líquido qualquer…

Na parte de trás do chassis, estão alojadas uma entrada RCA e um único par de bornes de 4mm para colunas de ‘4-8ohm’, embora o secundário do transformador possa ser reconfigurado para 4 Ohm, ou menos, por meio de ligações internas.

Você é um Crente?

E agora dirijo-me ao ‘elefante na sala’: 14.000 euros por um par estéreo de 10W? De certa forma, os amplificadores de tipo SET (Single-Ended Triode) pertencem a um nicho audiófilo (o nosso Ken Kessler chamar-lhe-ia culto) que acredita que um único tríodo 300B – neste caso, um par em paralelo – oferece um pureza de desempenho e uma simplicidade de circuito que não é possível alcançar com pêntodos, em configuração push-pull ou ultralinear.

Jadis SE300B visto por cima, da esq para a dir: transformador AC, um par de válvulas retificadoras 5U4GB e condensadores da fonte de alimentação, o transformador de saída embebido em resina, os tríodos 300B montados em paralelo e a válvula única 6SN7 do andar de ganho.

Jadis SE300B visto por cima, da esq para a dir: transformador AC, um par de válvulas retificadoras 5U4GB e condensadores da fonte de alimentação, o transformador de saída embebido em resina, os tríodos 300B montados em paralelo e a válvula única 6SN7 do andar de ganho.

Muito disto não passa de conversa da treta, claro, mas digo já que a própria Jadis não tenta converter prosélitos a partir deste púlpito em particular. Na prática, se é verdade que um circuito com uma única válvula e um transformador dá sempre aquele ar de solução elegante, depende muito para ter sucesso do projeto e do ‘jogo’ entre permeabilidade, indutância, corrente de fuga, saturação das baixas frequências e resposta nas altas frequências do transformador. A Jadis resolveu em pleno todas estas questões com transformadores próprios, feitos à mão, com controlo digital do enrolamento mecânico, antes de serem mergulhados numa resina anti-vibração.

O Gibão Excêntrico

Agora vamos ao parceiro da Jadis, neste delicioso pas-de-deux

A Devore Fidelity tem duas linhas de produtos: a mais acessível e menos volumosa Série Gibbons e as Orangutan, de que a O/96 foi a primeira de três modelos, originalmente lançada em 2012, e que ainda é a mais vendida da marca.

O projetista/proprietário John Devore não tem nenhuma ‘’fixação por primatas’, assegurou-me ele, ‘o hi-fi deve ser divertido, e os macacos são atrevidos e divertidos também. Além disso, a cor alaranjada das O/96 lembrou-me um orangotango’. Pronto, ainda bem que esta questão ficou esclarecida…

As caixas de madeira prensada das O/96 têm um painel frontal em bétula do Báltico de 1 polegada de espessura. A unidade médio-grave de 250mm tem um cone de papel azul Kurt Müller, a que se junta um tweeter de 28mm de cúpula de seda.

As caixas de madeira prensada das O/96 têm um painel frontal em bétula do Báltico de 1 polegada de espessura. A unidade médio-grave de 250mm tem um cone de papel azul Kurt Müller, a que se junta um tweeter de 28mm de cúpula de seda.

As caixas das O/96 são construídas, num parque industrial em Brooklyn, Nova Iorque, com base num misto de MDF (aglomerado de madeira de média densidade) para o painel traseiro, MDF e contraplacado (fundo) e HDF (alta densidade) para o topo e painéis laterais, enquanto o painel frontal (baffle) é fabricado em bétula do Báltico de origem americana, com uma polegada de espessura.

O acabamento padrão é em folheado de nogueira (ver foto), com dez demãos de verniz polido em todas as superfícies, exceto a base, que aloja os bornes de 4mm em cobre da Cardas, e as guias em madeira para encaixar as colunas nos suportes da Devore fabricados em ácer.

O suportes são lacados em negro-piano e não têm bicos ou pés de metal, portanto as colunas são ao mesmo tempo adaptadas aos suportes e desacopladas por meio de quatro bolinhas de borracha sintética maleável branca (do tipo Blu-Tack), uma em cada canto.

A propósito, o folheado padrão – já de si, lindo – é fabricado sob pressão em lotes de 100, mas os acabamentos personalizados são possíveis, como se pode ver na página do Facebook da Devore.

Os pórticos reflex de 75mm estendem o baixo até aos 40Hz. A coluna encaixa no pedestal por meio de guias de madeira montadas por baixo da caixa.

Os pórticos reflex de 75mm estendem o baixo até aos 40Hz. A coluna encaixa no pedestal por meio de guias de madeira montadas por baixo da caixa.

A Viagem da sua Vida

Os altifalantes são feitos por encomenda para a Devore pelo seu parceiro de longa data SEAS, e incluem um tweeter, de 28 mm e cúpula de seda, e uma unidade de médio-graves de cone de papel e longa excursão de 250mm e suspensão de borracha macia. A unidade de agudos trabalha numa câmara de amortecimento traseiro cheia de lã, está equipada com duplo imã, e apresenta um ligeiro reforço por meio de corneta, cujo efeito só se faz sentir abaixo dos 7Khz, ou por aí.

Os bornes de 4mm estão encastrados na base da coluna. Ver as guias de montagem no suporte.

Os bornes de 4mm estão encastrados na base da coluna. Ver as guias de montagem no suporte.

A unidade de médio-graves é qualquer coisa de especial e os leitores imersos em sabedoria audiófila devem reconhecer o clássico cone de papel azul de Müller, que usa uma polpa de papel semelhante à dos icónicos altifalantes concêntricos da Tannoy, aqui sem tratamento, exceto um reforço com laca junto à garganta do cone, que está colada a uma bobina de cobre de enrolamento múltiplo com formante de Kapton. Logo atrás, está um enorme imã de ferrite/cerâmica, portanto nada de materiais extravagantes de terras-raras (como o neodímio).

Já quanto ao filtro divisor das O/96, John Devore está mais relutante em revelar os detalhes, exceto que é um filtro de rede de reactância mínima, de pendente múltipla, que deriva do seu trabalho no protótipo da primeira coluna Gibbon não-comercializada.

Finalmente, se desejar esconder este farol de azul vivo - com o tempo e a radiação UV os cones ganham uma cor esverdeada mais escura – então a Devore também fornece uma grelha de fixação magnética. Tanto a moldura como o tecido áspero do tipo Tygan têm alguma consequência subjetiva no som, pelo que estas colunas devem ser apreciadas nuas – se é que me faço entender…

Enquanto não decide o que lhes vestir, deixe-me acrescentar que os amplificadores do tipo SET não se devem deixar muito tempo ligados sem música, porque toda a corrente de Classe A vai ser ‘absorvida’ pelas válvulas que, enquanto esperam pacientemente, amplificam o som do silêncio.

Há sempre um compromisso entre o tempo em que o amplificador está ligado, o tempo de audição e o tempo de vida das válvulas. Felizmente, as SE300B ‘aquecem’ depressa, sem dúvida. Isto também significa que você pode ficar rapidamente imerso no turbilhão de uma delicada teia de informação e de grave rico e bem rolante que esta incrível combinação Jadis/Devore consegue produzir. Mas eu estou a adiantar-me… 

A Arte copia a Vida 

Muito antes de eu ter as O/96 a cantar tão docemente, já elas me tinham lembrado de outras coluna de duas-vias e painel largo que eu utilizei durante todo o ano de 1990: as AN-E da Audio Note.

Muitos de vocês já terão visto e ouvido estas caixas de som, de aspeto desinteressante mas sofisticado, em hifishows, onde a sua capacidade para projetar imagens em estéreo muito plausíveis numa área de audição alargada as torna ideais para audição em grupo.

As O/96 vêm equipadas com  grelhas com moldura de madeira que se fixam magneticamente ao painel frontal. A maior parte dos ouvintes vai achar que as colunas soam melhor sem as grelhas.

As O/96 vêm equipadas com grelhas com moldura de madeira que se fixam magneticamente ao painel frontal. A maior parte dos ouvintes vai achar que as colunas soam melhor sem as grelhas.

As O/96 têm essa mesma capacidade, embora já não gostem tanto de serem colocadas num canto ou encostadas à parede, oferecendo um som mais aberto e transparente quando colocadas longe das paredes e apontadas para dentro na direção do ouvinte. Isto sugere que elas têm, digamos, um ponto-ideal-de-escuta, embora muito mais amplo do que é habitual com colunas de rosto ‘magro’ e focagem estreita.

Transparência é um termo que se emprega com demasiada facilidade nas críticas, mas as O/96 exibem verdadeiramente esta qualidade. Logo que se ouvem estas caixas em ação, as outras ‘caixas’ soam como se precisassem de um pontapé nos fueiros para começarem a andar. As O/96 pura e simplesmente não revelam que são elas as fontes do som: têm um ‘toque’ tão leve que até o mais suave dos sons parece surgir na sala sem constrangimentos.

Não consigo dizer se isto é fruto da sua elevada sensibilidade, ou apenas a feliz coincidência da indefinível sinergia com os amplificadores SET da Jadis. Mas, tal como um ponto fixo no espaço, é uma qualidade constante e fiável desta combinação.

Uma qualidade, aliás, que atinge um nível de fazer ‘cair-o-queixo’ com qualquer álbum favorito de conteúdo vocal maioritário. Se alguma vez quis comparar os estilos de expressão vocal de Kate Bush em 50 Words For Snow [Fish People FPCD007; 96kHz/24-bit] com Rebecca Pidgeon’s ‘Spanish Harlem’ [The Raven, Chesky;

96kHz/24-bit] e Jennifer Warnes em ‘Way Down Deep’ [The Hunter, Private Music 261974; 44.1kHz/16-bit], então este casamento de Jadis com DeVore vai fazer-lhe aparecer cada um destas intérpretes para uma inspeção pessoal bem íntima. Cada suspiro, cada sibilante subtil, cada molhar de lábios – de tal forma que o termo ‘vívido’ já não é suficiente para transmitir a presença espantosa e palpável destas vozes na sala.

Respire o Ar

A reprodução da ambiência e da atmosfera são também elas bem tangíveis. Fazer uma viagem pela memória de mais de 40 anos, e ouvir Mike Oldfield, em Return To Ommadawn [Mercury; 96kHz/24-bit], com a progressão de mais de 23 instrumentos e estilos associados – numa evolução do folclore Celta até ao pop progressivo – foi também uma exploração bem viva das capacidades musicais do sistema Jadis/Devore.

Há aqui uma requintada subtileza e delicados matizes de cores, num ambiente, não só imersivo, mas também pleno de imagens muito nítidas. E poder também, além daquela sensação real de definição e recorte, com as notas a subirem sem inércia e a decaírem sem pressa.

Por baixo do SE300B podem ver-se as ligações ponto-a-ponto, a fonte-de-alimentação à dir., o andar de potência SE (à esq.) e o seletor de impedância configurado para 4/8 Ohm ao centro.

Por baixo do SE300B podem ver-se as ligações ponto-a-ponto, a fonte-de-alimentação à dir., o andar de potência SE (à esq.) e o seletor de impedância configurado para 4/8 Ohm ao centro.

Foi uma experiência ao mesmo tempo lírica, envolvente e relaxante, embora não deixando dúvidas ao ouvinte de que os ‘golpes’ de percussão, ou um surto de cordas em cru e excitantes, podiam saltar de rompante a qualquer momento. Este poder latente aliado à atmosfera relaxante produzem uma combinação de cativante enfeitiçamento.  

E eis que, percorridos dois terços deste percurso de 21 minutos, a sala estremeceu com os tambores africanos. Sem que houvesse a sugestão sequer de que estes SETs de baixa potência tivessem perdido a garra ou o controlo sobre o impacto ressonante da percussão, sem perda de poder de ‘sopro’, do mesmo modo que não havia distorção por modulação entre a excitante acústica das cordas e o pano de fundo dos sintetizadores. Cada camada da mistura multi-pista era explícita e clara e completamente em harmonia com os outros ‘intérpretes’, embora tenham sido todas tocadas e sintetizadas por um único homem.

Fazendo o papel de advogado do diabo, se quisermos, é possível pôr estes componentes em dificuldades. Claro que há um limite para a expansividade do som, e as Devore O/96, por muito sensíveis que sejam, são capazes de absorver mais potência do que os SE300B são capazes de lhe fornecer.

Ponha a tocar ‘67000mph’ por Phronesis [Parallax, Edition Records; 88.2kHz/24-bit], abra-lhes as goelas e vai ouvir a entrada explosiva dos tambores de Anton Eger passar de tensa, poderosa e, com uma ambiência impressionante, para ‘é pá, já rebentei com uma pele…

Mantenha-as dentro dos seus limites –  o que é alto que chegue para os apartamentos de Nova Iorque – e o contraste, entre o baque dos tambores e o estalo das baquetas nos aros, é espantoso de separação e detalhe. E quando o que resta deste trio de jazz Anglo-Escandinavo se junta a, digamos, 67000 milhas à hora, o contrabaixo e o piano sobem e descem sem nunca colidir um com o outro.

Táticas Furtivas

Lá muito em baixo, sob-o-radar, o grave pode tornar-se invisível para os SE300B. Ao ataque não se segue o lodaçal do grave. Assim, quando ouvi a remasterização de 2012 de Massive Attack’s ‘Unfinished Sympathy’ [Blue Lines, Wild Bunch Records; 96kHz/24-bit], tive consciência de que a salva (de pedal de bateria) da abertura tinha perdido um pouco de ‘gravitas’ (autoridade) nos graves.

A batida e a profundidade estavam lá, assim como o já esperado ritmo firme e metronómico, mas as O/96 são capazes de ir mais fundo e de levantar mais peso. Eu sei porque: 1. Medi-as; e 2. Dei uma voltinha rápida com elas e com os monoblocos da Constellation Audio.

E, contudo, eu continuava desejoso de voltar para o par Jadis/Devore, pelo puro prazer de ouvir música reproduzida de uma forma que quase sempre despertava em mim uma ligação emocional. Sim, ambos têm as suas fraquezas, mas não tanto que tenha de restringir demasiado a sua escolha de música.

No interior do prévio JPL MkII, podem ver-se as válvulas EL84 e EF86 da fonte de alimentação (à esq.), o duplo tríodo ECC82 do andar de CD (ao centro) e as três ECC83 do andar de linha (à dir.)

No interior do prévio JPL MkII, podem ver-se as válvulas EL84 e EF86 da fonte de alimentação (à esq.), o duplo tríodo ECC82 do andar de CD (ao centro) e as três ECC83 do andar de linha (à dir.)

Por exemplo, estas colunas relativamente compactas são mais do que capazes de albergar um palco enorme, como o ilustrado pela versão ‘Sinfónica’ de Wish You Were Here dos Pink Floyd [London Orion Orchestra; Decca 4789517]. Passe por cima da intervenção vocal de Alice Cooper e vá logo para a introdução etérea e luminosa de ‘Shine On…’. Aqui são o xilofone, as cordas e os metais, da orquestra dirigida por Peter Scholes, que preparam a cena para o agora já icónico mantra de quatro notas dedilhado por guitarristas emprestados pelo ‘Australian Pink Floyd Show’.

Uma vez mais, é esta capacidade do conjunto Jadis/Devore para resolver a requintada fragilidade da percussão em pano de fundo, ao mesmo tempo que joga com o surto das cordas, a estridência da guitarra e a marca exclusiva de teclados com-vida-própria de Rick Wakeman, que é tão, digamos, excitante.

Abracadabra

Portanto, embora os resultados obtidos para a distorção harmónica sejam altos (ver Análise Laboratorial no final) - e peço aqui desculpa aos fãs dos amplificadores SET, mas há tanta distorção de 3ª como de 2ª harmónica - os timbres que se ouvem, a partir de instrumentos acústicos e eletrónicos tão díspares, são tão limpos como o do proverbial sino, ou sinos.

Garanto-vos que já ouvi muitos sistemas de som supostamente de baixa coloração com mais compressão dinâmica, menos coerência espacial e, sem dúvida, mais empastelado, do que esta combinação declaradamente de esquerda.

Não é magia, mas também não é possível explicar, só com a ciência atual e os conhecimentos de engenharia, a profunda atração, o envolvimento emocional e o som completamente viciante deste sistema.

Claro que tudo isto faz parte do pacote de divertimento e ‘mistério’ do hi-fi, e é por isso que nós, os audiófilos, gostamos tanto de misturar e casar componentes diferentes. E que assim seja, por longo tempo.

Veredicto da Hi-Fi News

Aspirando a ter uma performance bem acima do que a sua capacidade permite, este casamento de amplificação SET francesa com as colunas menos exigentes de Nova Iorque consegue mesmo assim cumprir essa promessa.

A todos os audiófilos casados com colunas enormes como estátuas e de elevada potência, eu digo apenas isto: em vez disso, arranjem um livre-trânsito e passem uma noite fora com esta dupla barroca. Têm garantida uma experiência (musical) que nunca mais esquecerão. PM

A Arte de Casar Sistemas

A Devore atingiu o Santo Graal com a Orangutan O/96, que afinal não passa de uma coluna convencional, isto é, sem carga por corneta, de apenas duas-vias com altifalantes de bobina móvel, ou seja: alta sensibilidade e carga fácil para os amplificadores. A impedância da O/96 (traço a vermelho no gráfico) é mais difícil no grave, onde a banda alargada dos 20Hz aos 200Hz coincide com a impedância de saída mais baixa do Jadis SE300B: 0,40-1,52 Ohm (traço azul).

 A impedância do SE300B sobe para 1,9 Ohm dos 400Hz aos 10kHz, exatamente onde a impedância média da O/96 é de 8 Ohm e  o ângulo de fase se mantém nos +19/-28º (traço verde).

Por outro lado, a impedância mínima das O/96 continua nuns seguros 7,15 Ohm aos 190Hz, associada a um ângulo de fase negligenciável de -9º. E onde os ângulos disparam para um máximo de +52º aos 53Hz e -63º aos 73Hz, a impedância mantém-se nuns facílimos 32 Ohm e 22 Ohm respetivamente.

Portanto, o SE300B, com os seus 2,3A de corrente máxima e 11W de potência, não sofre muito, alcançando os previstos 99dBA SPL a partir de um par de O/96, mesmo sem o reforço das paredes, quando ouvidas a 3 metros numa sala de audição comum.

Na prática, a impedância de fonte do SE300B (traço azul) e a resposta sem carga (traço cinza) combinam-se com a carga variável e a resposta em frequência da O/96 (ver gráfico) para obter a resposta geral do sistema aqui medida (traço preto no gráfico). PM

John Devore

A Devore Fidelity foi fundada no ano 2000, por John Devore, presidente e projetista-chefe (que se intitula a si próprio de ‘Top Banana’), logo, tal como muitas marcas de nicho, deve-se à paixão e visão de um único indivíduo.

‘Nos anos 90, com o crescente interesse em amplificadores de baixa potência com base em válvulas 845 e 300B, fabricados por marcas como a Cary Audio, Audio Note e Octave Audio, os entusiastas foram forçados a procurar colunas de corneta clássicas como as Klipsch, etc, para casarem com eles’, diz-nos John. ‘Não havia alternativas novas e a paisagem do mercado de colunas precisava de um abanão na moda das colunas altas, fininhas e com baixa sensibilidade.’

John Devore

John Devore

John sentiu-se assim inspirado para projetar uma coluna de estilo contemporâneo, alta sensibilidade e com uma impedância fácil de alimentar de 8 Ohm, ou mais. No início, apontando apenas ao mercado local ‘e adaptada aos apartamentos-tipo de Nova Iorque’.

O formato determinou-se por si próprio: ‘as colunas de 3-vias são muito mais difíceis de alimentar por amplificadores a válvulas de andar único (single-ended)’, observou John. Quanto à largura do baffle (painel frontal), foi para manter um volume interno razoável, apesar da relativa pouca profundidade da caixa.

E quanto a projetos futuros? Muito provavelmente um novo modelo da Orangutan ainda vai ver a luz do dia este ano, situando-se um pouco acima da O/96 e incorporando ideias do modelo de topo O/Reference, incluindo a estrutura em bronze e as cornetas para o tweeter e super-tweeter. ‘Vai ser assim como uma O/96 mais bonita’, diz-nos John, mas como coisas novas dentro da caixa’. E vai chamar-se O/Bronze. PM

Análise laboratorial

Jadis PBL MkII/Jadis SE300B

Não faz parte dos argumentos de venda, e não vai ler isto em mais nenhuma crítica, mas no JPL MkII a Jadis oferece-nos dois pré-amplificadores-em-um: tudo depende da escolha das entradas ‘CD’ ou ‘Aux/Line’.

Sem dúvida que há uma diferença esperada no ganho total (+6,5dB para a entrada ‘CD’ e +19dB para ‘Line’, nenhuma delas sequer perto da especificação de +25dB) e, enquanto as relações sinal/ruído, com filtro de ponderação A, são quase idênticas aos 90,5dB (ref. A 0dBV), o complemento de válvulas utilizado (entrada ‘CD’ com andar único e válvula ECC82; ou ‘Line’ com andar-duplo e válvulas ECC83) resulta em diferenças bem marcadas no padrão de THD (distorção harmónica total) vs. frequência e potência de saída.

Se optar pela entrada ‘CD’, vai ter a coloração típica das válvulas, com uma distorção de 0,35%; se optar por ‘Line’, vai ter uma linearidade de tipo estado-sólido de 0,00035/0,0035 (ref. 0dBV 20Hz-20kHz).

A impedância de saída de 950 Ohm é elevada, embora a impedância de entrada de 100kOhm torne isso irrelevante. Por outro lado, a resposta tem uma pendente mais rápida em ‘Line (entrada de linha): -0,1dB/20kHz e -2,4dB/100kHz.

Quanto à questão da ‘cor’, o par de monoblocos SE300B, que acompanhavam o prévio JPL MkII, pintaram os resultados dos testes com ‘cores bem vivas’.

A potência cumpre a especificação de 10W com 10,5W/11,5W a 8 e 4 Ohm com 1% THD, aumentando marginalmente para 14,5W/2% THD e 15,5W/3%; e, sob condições dinâmicas, para 13,5W, 15,5W, 9,0W e 5,1W, respetivamente com cargas de 8,4,2 e 1 Ohm (ver gráfico).

O ganho total é de +26dB e a relação sinal/ruído com ponderação tipo A é um pouco abaixo da média, pautando-se nos 82dB (ref. 0dBW), enquanto a distorção da gama média aumenta suavemente em função do nível de sinal, de 0,08%/100mW para 0,22%/1W e 0,52%/5W.

Na distorção em função da frequência, há uma subida rápida de THD abaixo dos 300Hz, com 4,5% aos 200Hz, 14,5% aos 100Hz e 35% aos 40Hz – isto com apenas 1W/8 Ohm (gráfico rosa).

Veja o impacto da resposta dos SE300B e impedância de saída nas Devore O/96 em ‘A arte de casar sistemas). PM

Potência dinâmica em função da distorção sobre cargas de coluna de 8 Ohm (negro), 4 Ohm (vermelho), 2 Ohm (azul) e 1 Ohm (verde). Corrente máxima: 2,3A.

Potência dinâmica em função da distorção sobre cargas de coluna de 8 Ohm (negro), 4 Ohm (vermelho), 2 Ohm (azul) e 1 Ohm (verde). Corrente máxima: 2,3A.

Distorção harmónica total em função da frequência do Jadis JPL MkII (CD a cinza; Linha a negro) e dos SE300B (1W/8 Ohm, rosa; 5W, vermelho).

Distorção harmónica total em função da frequência do Jadis JPL MkII (CD a cinza; Linha a negro) e dos SE300B (1W/8 Ohm, rosa; 5W, vermelho).

Potência contínua (<1% THD, 8/4ohm) 11.5W / 10.5W (4-8ohm tap)
Potência dinâmica (<3% THD, 8/4/2/1ohm) 13.5W / 15.5W / 9.0W / 5.1W
Impedância de saída. (20Hz–20kHz, pre/power) 950ohm / 0.40–1.88ohm
Resposta em frequência (20Hz–100kHz, pre/power) +0.0 to –2.4dB / +0.1 to –12.2dB
Sensibildiade de entrada (for 0dBV/0dBW) 112mV (pre) / 141mV (power)
Relação S/R c/ponderação A (re. 0dBV/0dBW) 90.5dB (pre) / 81.8dB (power)
Distorção (40Hz-20kHz, 1V/1W) 0.00035–0.0035%/0.21–35%
Consumo (repouso/operacional) 160W / 163W (28W, preamp)
Dimensões (LAP, Pre/Power) 430x175x345/203x229x531mm

Devore Orangutan O/96

A Devore classifica a sensibilidade das O/96 nuns elevados 96dB/1W/1m, mas com uma impedância nominal de 10 Ohm. Seguindo a norma mais comum de 2,83V/1m, isso aponta para uma especificação mais próxima dos 95dB, um valor quase atingido no teste de 93,8dB/1kHz, que baixa para uma média de 91,5dB entre os 500Hz-8kHz, que se reflete na forte depressão no médio-grave e já mais benigna na zona de presença e no médio-agudo (ver gráfico). O mais importante é que esta elevada sensibilidade não é obtida à custa de uma carga punitiva, garantindo-se aqui uma genuína impedância nominal de 8 Ohm (ver A Arte de Casar Sistemas).

A resposta ótima é obtida cerca de 15 cm acima do eixo do tweeter (mais ou menos a altura média da cabeça de um ouvinte sentado) com desvios moderados de +/- 4,8dB (200Hz-20kHz). A coincidência de resultados entre as colunas que compõem o par é excelente, com diferenças de apenas 0,4dB (com exceção de um soluço breve de 0,75 dB aos 4,2kHz), a que acresce a influência da grelha de fixação magnética forrada a tecido, incluindo o pico negativo de -3,6dB aos 4,2kHz e alguma perda adicional na zona de presença e no agudo (traço azul no gráfico).

No espetro da impedância/fase, foram detetadas ressonâncias mínimas aos 130-650Hz, e são ainda visíveis duas outras, ligadas ao cone de polpa de papel de médio-graves aos 1,7kHz e 2,4 kHz (filtro divisor), tanto na resposta em frequência como no CSD (Cumulative Spectral Delay), embora o THD nesta área crítica seja excecionalmente baixo: <0,1% (ref. 90dB SPL).

Pondo de parte o pico negativo de -3dB aos 450Hz, que é visível tanto na resposta de campo próximo como no distante, a resposta do altifalante de graves é plana e extensa, e reforçada ainda pelos dois pórticos traseiros sintonizados aos 43Hz para obter uma resposta de pendente rápida, mas ainda assim estendendo-se até aos 37Hz (-6dB ref. 200Hz). PM

Resposta cumulativa da unidade de graves+pórticos no campo próximo (verde); corrigida para campo aberto a 1m /2,83V (amarelo), ultrasónica (rosa). Canal esq., negro; dir. vermelho;  e com grelha, azul.

Resposta cumulativa da unidade de graves+pórticos no campo próximo (verde); corrigida para campo aberto a 1m /2,83V (amarelo), ultrasónica (rosa). Canal esq., negro; dir. vermelho; e com grelha, azul.

Modos de ressonância associados ao cone de médio-grave estão presentes a 1,7kHz e 2,4kHz, mas o agudo é muito limpo.

Modos de ressonância associados ao cone de médio-grave estão presentes a 1,7kHz e 2,4kHz, mas o agudo é muito limpo.

Sensibilidade (SPL/1m/2.83V – 1kHz/Mean/IEC) 93.8dB / 91.5dB / 89.3dB
Módulo de impedância: minimum & maximum (20Hz–20kHz) 7.15ohm @ 190Hz, 108ohm @ 20Hz
Impedância de fase: minimo & maximo (20Hz–20kHz) –63° @ 73Hz, +52° @ 53Hz
Correspondência de par/Resp. erro (200Hz–20kHz) 0.75dB/ ±4.9dB/±4.7dB
LF/HF extensão (–6dB ref 200Hz/10kHz) 37Hz / 19.3kHz/19.7kHz
THD 100Hz/1kHz/10kHz (for 90dB SPL/1m) 0.5% / 0.08% / 0.5%
Dimensões (ALP inc stand) / Peso (cada) 902x457x254mm / 25kg
Preço €14500

Nota: tradução a partir do original em inglês, com autorização expressa do autor, Paul Miller.

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Frente do monobloco Jadis SE300B, mostrando o transformador da fonte de alimentação, com tampa cromada; e na traseira as duas válvulas de retificação 5U4GB e os condensadores eletrolíticos azuis da fonte de alimentação.

Botões rotativos dourados, bem proeminentes na fachada dourada e cromada, regulam as entradas, equilíbrio entre canais e volume. Os basculantes comutam entre fonte/gravação e muting (silêncio).

A entrada CD tem muito menos ganho que as 4 entradas de linha, que se juntam aqui a gravação In/Out , Loop (circuito monitorização) e saída de prévio - todas RCA.

Jadis SE300B visto por cima, da esq para a dir: transformador AC, um par de válvulas retificadoras 5U4GB e condensadores da fonte de alimentação, o transformador de saída embebido em resina, os tríodos 300B montados em paralelo e a válvula única 6SN7 do andar de ganho.

As caixas de madeira prensada das O/96 têm um painel frontal em bétula do Báltico de 1 polegada de espessura. A unidade médio-grave de 250mm tem um cone de papel azul Kurt Müller, a que se junta um tweeter de 28mm de cúpula de seda.

Os pórticos reflex de 75mm estendem o baixo até aos 40Hz. A coluna encaixa no pedestal por meio de guias de madeira montadas por baixo da caixa.

Os bornes de 4mm estão encastrados na base da coluna. Ver as guias de montagem no suporte.

As O/96 vêm equipadas com grelhas com moldura de madeira que se fixam magneticamente ao painel frontal. A maior parte dos ouvintes vai achar que as colunas soam melhor sem as grelhas.

Por baixo do SE300B podem ver-se as ligações ponto-a-ponto, a fonte-de-alimentação à dir., o andar de potência SE (à esq.) e o seletor de impedância configurado para 4/8 Ohm ao centro.

No interior do prévio JPL MkII, podem ver-se as válvulas EL84 e EF86 da fonte de alimentação (à esq.), o duplo tríodo ECC82 do andar de CD (ao centro) e as três ECC83 do andar de linha (à dir.)

John Devore

Potência dinâmica em função da distorção sobre cargas de coluna de 8 Ohm (negro), 4 Ohm (vermelho), 2 Ohm (azul) e 1 Ohm (verde). Corrente máxima: 2,3A.

Distorção harmónica total em função da frequência do Jadis JPL MkII (CD a cinza; Linha a negro) e dos SE300B (1W/8 Ohm, rosa; 5W, vermelho).

Resposta cumulativa da unidade de graves+pórticos no campo próximo (verde); corrigida para campo aberto a 1m /2,83V (amarelo), ultrasónica (rosa). Canal esq., negro; dir. vermelho; e com grelha, azul.

Modos de ressonância associados ao cone de médio-grave estão presentes a 1,7kHz e 2,4kHz, mas o agudo é muito limpo.


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