Reviews Testes

Oppo HA-1

Oppo HA-1: frente c/analisador de espectro activo (foto oficial da brochura online)

Esta devia ser a quarta e última parte do teste do Oppo PM-1, que tem vindo a ser publicado em fascículos no Hificlube. Mas acabei por concluir que o HA-1 merecia uma análise independente ainda que em conjunto com o PM-1.

Quando comecei a empreitada havia poucas “reviews” publicadas do HA-1. Agora já há muitas e como a minha não ia provavelmente acrescentar nada de novo, optei por trilhar o caminho da polémica jornalística para agitar a actual pasmaceira do áudio em Portugal.


Britain rules? I beg to differ...


A Hi-Fi News publica, na edição de Setembro, uma “review” do Oppo HA-1 da autoria de Keith Howard, com a habitual análise técnica de Paul Miller.


A revista tem uma reputação de qualidade no nosso meio audiófilo, por isso achei que seria interessante convidar-vos a ler a minha análise do HA-1, tendo como contraponto a “review” de Keith Howard/Paul Miller.


Até para provar que nem tudo o que “vem lá de fora” é que é bom, só porque está escrito em inglês. Aliás, neste caso, se eu fosse o Prof. Marcelo dava-lhes negativa!...


Oppo HA-1 na Hifi News


Howard abre com as “habilitações” do Oppo HA-1, com base na informação disponibilizada pela própria Oppo no seu site. É o que todos fazem, uns mais outros menos. Até as fotos são também da Oppo. Nada de novo, portanto.

Oppo HA-1: o miolo electrónico (foto da brochura online)

Oppo HA-1: o miolo electrónico (foto da brochura online)

A fonte de alimentação (PSU) é do tipo linear (toroidal potente), o circuito de conversão D/A é baseado no Sabre ESS 9018/32 bit, também utilizado no BDP 105, e o andar de saída do amplificador funciona em Classe A pura.


A conjugação de baixa impedância e elevada potência permite levar ao limite de pressão sonora de 130dB qualquer auscultador com impedância de 32 ohm (menos se a impedância for de 600 ohm, claro), sobretudo se for utilizada a saída balanceada, que não foi o meu caso, nem pelos vistos o dele.

Oppo HA-1: painel traseiro (foto da brochura online)

Oppo HA-1: painel traseiro (foto da brochura online)

Segue-se a lista das entradas e saídas: digitais (coaxial, AES-EBU, Toslink, USB assíncrona e outra para iPod, iPad e iPhone (na frente), incluindo Bluetooth Apt-X; e analógicas: RCA e XLR e, claro, jack ¼ e XLR para auscultadores.


Ficamos depois a saber o que a Oppo já nos tinha dito também: que o DAC do HA-1 suporta todas as frequências de amostragem conhecidas à face da Terra, com o limite de 192kHz/24 bit para as ligações digitais coaxial, AES/EBU e Toslink; no caso da ligação USB o céu é o limite,: 384kHz/32 bit e DSD 256 nativo!


DXD e DSD nativo

Oppo HA-1 reproduzindo um ficheiro áudio DXD (384kHz-32-bit)

Oppo HA-1 reproduzindo um ficheiro áudio DXD (384kHz-32-bit)

Não li no teste da Hifi News nenhuma referência à audição de ficheiros DXD e DSD nativo, daí talvez a informação errada de que o HA-1 só reproduz DSD64 e DSD128 via DoP (DSD over PCM). Não é verdade: DSD 64 e 128 pode ser reproduzido Nativo (ou via DoP também); DSD 256 é que só pode ser Nativo, o que é muito diferente.


Tal como Keith Howard, eu servi-me do Media Player J.River e não tive problema em reproduzir ficheiros DXD a 352.8 e 384kHz/32 bit (leu bem: 32-bit!) DSD 128 nativo (5.6448MHz/1-bit) com o HA-1 (como provam as fotos do visor luminoso) sem recurso a DoP.


Nota: não disponho – nem conheço - actualmente de nenhum ficheiro DSD 256.

Oppo HA-1 reproduzindo um ficheiro áudio DSD 128 nativo (5.6448MHz/1-bit)

Oppo HA-1 reproduzindo um ficheiro áudio DSD 128 nativo (5.6448MHz/1-bit)

As passagens de testemunho entre diferentes amostragens do HA-1 são as mais rápidas, suaves e silenciosas que já testei com qualquer DAC de mesa. O DAC do HA-1 justifica, por si só, o preço: o amplificador de auscultadores em Classe A é um extra. Juntos são uma proposta irrecusável, até porque as suas diferentes características acústicas de yin (suave, doce e requintado) e yang (potente, enérgico e quente) casam na perfeição.


A minha playlist é caótica e os ficheiros passam de 44,1 para 384 e de DXD para DSD sem aviso prévio. O HA-1 reproduz tudo numa sequência perfeita sem um clic sequer e o “audio format” aparece de imediato no enorme visor em Hertzs e 16-24 ou 32 bit (uma informação rara esta última).


Ao menu, acede-se por meio de um prático botão de pressão/rotação, no melhor estilo da Sony ES, ou com o controlo remoto.


O botão de maior diâmetro à direita regula o volume (ao qual se pode fazer bypass) com um potenciómetro analógico motorizado, e a posição ideal depende do modo High Gain ou Normal. No modo “Normal”, o som deixa transparecer melhor o “requinte” e a “finesse” da Classe A.


Foi Jorge Gaspar que me chamou a atenção para esta particularidade, e eu concordo em absoluto. Aliás, até devia ser designado por Low Gain, porque em certas circunstâncias consegui ir sem desconforto até ao fim do percurso, e mais houvesse...


A comutação de ganho tem uma função associada muito inteligente: a diferença de ganho é enorme, mas podemos passar directamente de Normal para High sem receio de ficar sem auscultadores e sem tímpanos, porque o HA-1 entra em Mute por instantes, enquanto o potenciómetro de volume faz o ajuste automático. Very clever and useful, indeed.

Video music: C1 - Bud Bets(feat. DaDa) by Union Jacques (upitup.com/dubpets)

O menu é composto por 3 janelas principais: Status, com informação sobre fonte, formato audio, ganho e volume; Source, com os ícones de todas as entradas possíveis; e um curioso Home Screen Selection que, além de “Status”, exibe para selecção posterior os modos Spectrum e VU Meter, este último a imitar as agulhas dançantes da McIntosh.


Keith Howard não gostou de toda esta informação dinâmica e está no seu direito, tendo achado também o modo Spectrum “rather crude”. E, de facto, é –  eu explico porquê.


As 18 barras do analisador de espectro do sinal funcionam como os repuxos da fonte luminosa do Hotel Bellagio de Las Vegas, e parecem ter a mesma função festiva: injectei um sinal puro de 1kHz e, além da barra respectiva também se elevaram os “degraus” correspondentes a duas oitavas acima e abaixo, quando só devia ter subido o “repuxo” central de 1kHz. Há, portanto, um claro objectivo de impacto visual, e não tanto de informação precisa.

Oppo HA-1 com os VU Meter activos (Munique 2014)

Oppo HA-1 com os VU Meter activos (Munique 2014)

O espectáculo de luz pode ser uma mais valia nas vendas, e eu até acho giro, sobretudo o VU Meter. Quem não gosta, pode apagar com o Dimmer. Para trabalhar, eu optei pela janela fixa de Status, embora as janelas dinâmicas disponibilizem também toda a informação.


USB ou S/PDIF?


Os críticos aúdio são como os comentadores de televisão: cada um tem os seus “ódios” de estimação. O Pacheco e a Ferreira Leite não gostam do Passos, a Moura Guedes não gosta do Sócrates, o Medina não gosta de ninguém e MST não gosta de campos de golfe e acha que as crianças deviam ser proibidas de entrar nos restaurantes para ele poder comer, beber e, parto do princípio, fumar descansado...


E assim entramos na parte mais polémica deste raro exercício de crítica comparada.


Nota: as citações em inglês foram copiadas directamente da review da Hifi News, com a devida vénia.


Keith Howard tem declarado a sua preferência pela ligação digital S/PDIF sobre a USB, embora admitindo que não sabe bem porquê: for reasons I can but guess at...


É um facto que o interface USB é mau para aplicações áudio, e só começou a ter aplicação universal para ligar o computador ao DAC, quando foi desenvolvido o protocolo de ligação assíncrona que permite controlar o fluxo de dados por meio do clock do próprio DAC.


Hoje o jitter das ligações USB é tão baixo que permite reproduzir os formatos audio DXD e DSD. No relatório técnico de Paul Miller, pode ler-se que o jitter da ligação USB do HA-1 (85 psec!) é mais baixo que com S/PDIF nas amostragens Red Book (44 e 48kHz). E, tomem nota para memória futura!, “most impressive” a partir de 96kHz:


Keith admite ter lido os resultados laboratoriais antes de opinar e, “presumivelmente” com base nisso, preferiu USB com ficheiros 44,1kHz:


'Firing 44.1kHz sources down S/PDIF to the HA-1 was, regrettably, less of a success, presumably because of the jitter issue'.


Mas já gostou mais de S/PDIF com 88,2 kHz, uma amostragem que convenientemente não está englobada, nem na “jitter issue at lower sampling rates” nem nas “most impressive” com USB (96 kHz/24-bit and upwards).


Portanto, 88,2 kHz parece ser “terra de ninguém” no DAC do HA-1, e Keith Howard ocupou-a para poder assim espetar a lança da sua tese da superioridade de S/PDIF sobre USB:


Via S/PDIF the situation is complicated by the high jitter at lower sampling rates [see PM’s Lab Report]. With this in mind I did my initial USB-S/PDIF comparisons using 88.2kHz files to side step this issue… And the result was, indeed, a preference for the S/PDIF input, which restored some missing colour.


Resumindo: segundo Paul Miller, a entrada USB do HA-1 soa melhor com amostragens de 44 e 48kHz, porque têm menos jitter que a S/PDIF, e Keith Howard relutantemente concorda, talvez porque não se devem contrariar “dados objectivos”; já com 88,2kHz, que Miller não refere, a ligação S/PDIF restabelece, segundo Keith, a ausência de “cor” perdida pela USB.


Terá sido porque, segundo Miller, o HA-1 só é “most impressive” com USB a partir de 96 kHz?...


Chama-se a isto: splitting hairs...


Keith não testou o circuito USB com ficheiros de “96kHz/24-bit upwards” (o único ficheiro a 176,4/24  foi convertido pelo Chord Qute HD DAC, sendo o HA-1 aqui utilizado apenas como amplificador de auscultadores). Deste modo  - e apenas com base na audição de ficheiros audio a 88,2kHz - acomodou a realidade ao preconceito de que a entrada S/PDIF do HA-1 é melhor que a USB:


“It’s a pity that the USB input isn’t as good, but that’s not uncommon. So, a not unprecedented victory here for the older digital interface technology (leia-se S/PDIF), and by a large margin”.


Larga margem? Então e o DXD (352, 8 e 384 kHz -32 bit) e DSD nativo via USB, a principal mais-valia do HA-1, que não entraram nesta avaliação? Não teriam por certo reduzido ou eliminado a 'larga margem'?


Conclusão de Keith Howard:


…on high sampling rate material delivered via S/PDIF you hear it at its considerable best (o sublinhado é meu).


Conclusão de Paul Miller:


Tested as an S/PDIF and USB DAC via its balanced outputs, the HA-1 proves most impressive with high sample rate media (96kHz/24-bit upwards) and via USB rather than S/PDIF (o sublinhado é meu).


Afinal, em que ficamos? É que estamos a falar do mesmo teste sobre o mesmo aparelho! O que é melhor com “high sample rate media”? S/PDIF, como defende Keith Howard, ou USB como atesta Paul Miller?...


Isto é tão absurdo que parece aquela conferência de imprensa recente, na qual a Ministra das Finanças e o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais se contrariam mutuamente em público, não sobre USB, que é um fait-divers nesta época de crise, mas, hélas, sobre IRS, que nos dói a todos, declarando no final que sempre estiveram de acordo.


Ou como cantou Lou Reed:


They say things are done for the majority
don't believe half of what you see and none of what you hear (read, acrescento eu)
It's like what my painter friend Donald said to me
'Stick a fork in their ass and turn them over, they're done'


Admito que S/PDIF pode (em certas circunstâncias) soar melhor que USB. O assincronismo só veio resolver o problema do jitter não eliminou a RF do PC (que se transmite pela “terra”e só é eliminado por via óptica). Ora a presença nefasta de RF não depende das frequências de amostragem, e sim da existência ou não de isolamento galvânico no circuito USB, como me explicou Robert Watts, quando lhe relatei as minhas experiências positivas com o HiFace e o Chord Hugo:


“Hmmm, José. I could imagine that using the optical SPDIF would definitely sound better than the USB, as this isolates the computer ground from Hugo, so less RF noise is transferred, and this makes it sound smoother and with better instrument separation and focus. Now the same will apply if the USB to SPDIF decoder has galvanic isolation internally for the SPDIF phono OP, so that the grounds from Hugo is isolated from the computer. This aspect of computer ground return and RF noise isolation and sound quality is something I am working on at the moment.”


Nota: Não é por acaso que é possível obter tão bons resultados com o adaptador USB/SPDIF HiFace da M2Tech (isola a RF do PC do DAC, o que não acontece com o S/PDIF coaxial utilizado por Keith Howard).


Eu podia ter optado por testar o HA-1 como um todo integrado ou por “secções”: prévio, headamp e DAC. Keith Howard gosta muito do HA-1 como amplificador de auscultadores, mas não como DAC, que acha 'difuso', sobretudo via USB.


Quem sabe se teria ficado com uma opinião diferente, se tivesse feito o trabalho de casa, explorado a opção DXD e DSD nativo, que é, aliás, rara a este nível de preço, eu diria mesmo única, no caso de DSD256, logo é também a principal mais-valia do HA-1.


Pela minha parte, preferi avaliar o Oppo HA-1 como um todo, e foi assim que ele se revelou como o “parceiro” ideal dos auscultadores PM-1: competente, bem construído, tecnologicamente dotado e fácil de usar.


Não tem lógica comprar um excelente dois-em-um para utilizar apenas a metade de que se gosta mais: o headamp.  


Nota: se é partidário da separação de poderes, opte pelo duo Auralic Vega/Taurus, também distribuido pela UAE, por exemplo.


Oppo PM1/HA-1: upa, upa Oppo! Parte 1: Introdução; Parte 2: Design; Parte 3: LCD-3 vs- PM-1


Distribuidor: Ultimate Audio Elite


Oppo PM-1: 1 399 euros


Oppo HA -1: 1 499 euros


 


 


 


 

Oppo HA 1: frente c/analisador de espectro activo (foto oficial da brochura online)

Oppo HA-1: o miolo electrónico (foto da brochura online)

Oppo HA-1: painel traseiro (foto da brochura online)

Oppo HA-1 reproduzindo um ficheiro áudio DXD (384kHz-32-bit)

Oppo HA-1 reproduzindo um ficheiro áudio DSD 128 nativo (5.6448MHz/1-bit)

Oppo HA-1 com os VU Meter activos (Munique 2014)