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Chord Hugo HD DAC

Chord Hugo HD DAC (embalagem)

Chamarem-lhe Hugo, porque, em inglês, soa como “You Go”, e é um DAC portátil, não lembra ao diabo: daah!...


Se eu pertencesse ao departamento de marketing da Chord, teria optado por 4U2GO (for you to go), que soa muito mais hightech. Ou, então, eles podiam ter dito que se tinham inspirado no filme Hugo, de Scorsese, que se desenrola num universo mágico. Assim, teriam acertado na mouche: Hugo é um DAC mágico.

Hugo parece um DAC de brinquedo, mas é coisa séria e concorrente de outros bem maiores do que ele.

Hugo parece um DAC de brinquedo, mas é coisa séria e concorrente de outros bem maiores do que ele.

Ao contrário do delicioso Qute, o pequeno Hugo não deixa pedra digital de pé: não há ficheiro áudio, formato ou frequência de amostragem que o atrapalhe, incluindo DXD 384kHz e DSD nativo 64 e 128 and all the rest in between!


John Franks disse numa entrevista à AVShowrooms (ver video infra) que Hugo é o DAC tecnologicamente mais sofisticado que a Chord já criou. Se pensarmos que custa 1 490 euros, ou seja uma fracção do Red Reference, menos de um terço do excelente QBD76 HDSD; e apenas mais 200 euros que o Qute HD, que comparativamente é limitado na sua capacidade de processamento, interrogamo-nos se Franks não está a dar um tiro no próprio pé, ao fazer estas declarações bombásticas sobre Hugo!...

Da esquerda para a direita: Selector de fonte, selector 'crossfeed', USB standard, USB HD, comutador on/off, entrada corrente sector

Da esquerda para a direita: Selector de fonte, selector 'crossfeed', USB standard, USB HD, comutador on/off, entrada corrente sector

Em especial quando, além de ser um DAC HD (com saída fixa), que também funciona sem fios via A2DP aptx Bluetooth, Hugo é ainda um excelente amplificador de auscultadores (no plural, pois tem 2 (jack 3,5mm) +1 (jack 6,35 mm) saídas e um prévio digital (com saída variável) que pode funcionar até como, pasme-se, um pequeno amp (!!), pois debita quase 1W sobre 8 Ohms. Segundo Franks, eu não experimentei, pode ser ligado directamente a um par de colunas de elevada sensibilidade.


E só não testei estas duas últimas “habilidades” do Hugo, porque, entretanto, ele foi convocado de urgência pela Absolute Sounds & Video: vendem-se como pastéis de Belém, e este já era exemplar único em Portugal, pois a Chord não consegue satisfazer a procura.


Seria a este tipo de “pastéis de Belém” que o ministro Álvaro se referia como salvação para a economia nacional? Fazia mais sentido...

Mas bastou ouvi-lo durante uma semana para perceber que John Franks não estava só a tentar vender o seu peixe na apresentação em Las Vegas. Num mar digital cheio de tubarões, Hugo pode ser pequeno, mas é delicioso como sardinha vivinha da costa a pingar no pão do audiófilo!


A Chord deve ao génio de Robert Watts o facto de ter conseguido meter tanta tecnologia de ponta (filtro digital de 26 000 coeficientes, o dobro do Qute HD!) numa caixa pouco maior que uma lata de...eh... sardinhas, que funciona com uma bateria de lítio com carga para 12 horas, com 4 entradas e 4 saídas (ver especificações em inglês no final do texto), potenciómetro rotativo de volume luminoso (actua no domínio digital sem perda de bits), e um visor que se ilumina com todas as cores do arco-íris das diferentes amostragens (resoluções).

Robert Watts, numa foto histórica, em Londres, quando descobriu que era possível substituir os chips por um processador programável

Robert Watts, numa foto histórica, em Londres, quando descobriu que era possível substituir os chips por um processador programável

Conheço pessoalmente Robert Watts, desde os tempos da Deltec e da DPA, já lá vão mais de 20 anos. E esta foto histórica tirada no Penta Show, em Heathrow (lembras-te, Bob?), mostra Robert exibindo sorridente o processador Merlin que foi o ponto de viragem na tecnologia FPGA (Field Programmable Gate Array), que mais tarde veio a estar na base de todos os DACs da Chord, que não utilizam nos seus modelos chips pronto-a-vestir.


The chips are down!, era então o slogan utilizado por Watts.


A vantagem actual do Hugo é que utiliza o último chip Xilinx Spartan VI com uma capacidade de processamento 100 vezes superior à do DAC64 original (ler: 'Ao ritmo do coração') e com um gasto de energia tão baixo (0,7V) que permite até o recurso a uma bateria na fonte de alimentação.


Nota: embora Hugo receba sempre a energia da bateria, eu fiquei com a sensação de que o grave tinha mais impacto e poder ligado à corrente de sector.


O resto, que não é pouco, são algoritmos complexos e muita programação. Os críticos anglosaxónicos têm a vida facilitada, pois limitam-se a fazer copy paste dos press-releases e white papers da Chord. Assim, mesmo que não entendam nada do que lá está escrito, nunca se enganam...


Nós, além da tradução, temos que fazer o trabalho de casa e estudar as matérias para não meter água e tentar tornar apelativo e compreensível o que é denso e chato para o leitor.


Nota: Robert Watts concedeu há muitos anos uma entrevista exclusiva ao Hificlube que ajuda a decifrar a complexidade da tecnologia “FPGA” e o filtro WTA, Watts Transient Aligned que podem ler na integra nos Artigos Relacionados: Robert Watts no confessionário - Partes 1 e 2.


Por exemplo: a Chord faz grande gala no número de “taps” dos seus filtros. Um “chip” comercial tem cerca de 150 taps. O DAC 64 tinha mais de mil e o Hugo tem 26 000!


Porreiro, pá! Mas afinal o que são “taps”, torneiras?


São os coeficientes dos filtros digitais. Digamos que se o filtro fosse analógico corresponderia aos “andares” que determinam a pendente (1ª ordem/6dB oitava; 2ª ordem/12dB; 3ª ordem/18dB, etc). Nos filtros digitais, quanto mais coeficientes maior é a capacidade de filtrar o ruído que resulta da conversão (decimação) e de reconstruir a forma de onda original.


Há quem discorde, e considere que não há melhor filtro que filtro nenhum, mas em teoria um filtro digital será tanto melhor no domínio temporal quanto mais tender para o infinito em número de coeficientes de multiplicação (sobreamostragem). Segundo John Franks, tudo o que “tende para infinito” é sempre melhor: o amor, por exemplo, acrescento eu...


Mas tal como o pastel de Belém, de que apenas alguns conhecem a receita conventual original, não há nada como comê-los primeiro, quentinhos (Hugo soou melhor ao fim de 3 dias ligado) e com canela (ficheiros HD), e só pensar depois no colesterol (o preço).

Chord QBD76 HDSD e Qute HD

Chord QBD76 HDSD e Qute HD

Para testar Hugo via USB HD assíncrono segui o mesmo procedimento já utilizado com o QBD76 HDSD e o Qute HD, (clicar para ler testes) recorrendo a um PC com o J.River 18 instalado e um sortido variado de ficheiros áudio de alta resolução.


Com 10 x 13 cm de lado e apenas 2 cm de espessura, as fichas USB têm de ser em versão mini como as dos smartphones (cabo não incluído). Aliás, uma das entradas USB (48kHz-16 bit) é para ligação directa de telefones ou tablets (Apple/Android), sem necessidade de carregar o respectivo driver.


A entrada USB HD utiliza o mesmo tipo de cabo de ligação mas já exige a instalação prévia do driver (só para PC, o Mac dispensa-o), que descarreguei do site da Chord (o CD incluído deu sempre erro).


Na configuração do Media Player J.River, a Chord sugeria wasapi ou kernel streaming para o QBD7 HDSD e Qute HD.


Hugo suporta Asio, e foi assim que configurei o J.River. A reprodução DSD continua a ser via DoP (digital over PCM).


Experimentei ainda o Hugo via RCA (saída fixa) ligado a um prévio McIntosh C2200, que também tem entrada para auscultadores. Deste modo, pude comparar os respectivos andares de saída.


Hugo suporta todos os formatos de ficheiro áudio e frequências de amostragem conhecidas à face da Terra, atribuindo uma cor diferente a cada frequência específica, que se ilumina na janela circular mais pequena, seguindo as cores do arco-íris, do vermelho (menor resolução) ao azul-escuro (máxima resolução) até ao espectro total da luz branca (DSD).

Hugo e as cores do arco-íris: vermelho (44/16); verde (96/24); azul (192/24); branco (DSD), etc.(nove cores diferentes no total).

Hugo e as cores do arco-íris: vermelho (44/16); verde (96/24); azul (192/24); branco (DSD), etc.(nove cores diferentes no total).

Através do óculo da janela circular central, podem ver-se 3 pequenos leds que (de cima para baixo e seguindo a mesma lógica de código de cores) indicam: estado carga da bateria, entrada seleccionada (coaxial, optical, USB...) e modo do circuito “crossfeed filter network” (efeito de espacialidade na audição com auscultadores).


A comutação de fontes faz-se por um botão de pressão (caramba!, também não precisava de ser tão pequeno), assim como a função “crossfeed”, que eu dispensei, porque a do J.River é bem mais eficaz e, apesar disso, prefiro deixá-la em paz, com excepção da reprodução da banda sonora de filmes em Blu-Ray no meu computador.

O botão de volume muda de cor: vermelho indica um volume baixo, verde/médio, azul/elevado.Versão final actual.

O botão de volume muda de cor: vermelho indica um volume baixo, verde/médio, azul/elevado.Versão final actual.

O botão rotativo do controlo (digital) de volume (para utilização com auscultadores, ou quando Hugo assume a nobre função de prévio-DAC a atacar um amplificador estéreo via saída RCA variável) é mais original que prático, e segue o mesmo princípio das cores do arco-íris que vai do (infra)vermelho (min) ao (ultra)violeta (max), sendo o verde um volume moderado.


Quando se liga Hugo no mini comutador on/off, com a ponta da unha do polegar, como os carrinhos de brinquedo do meu neto, ao mesmo tempo que se pressiona o também mini comutador da função “crossfeed”, com a pontinha da unha do indicador, o controlo de volume entra em modo bypass para ligação a um prévio externo, receptor ou amplificador integrado via saídas analógicas RCA (fixas, neste caso).


Um americano com mãos grandes como Michael Jordan teria de utilizar o bico de uma caneta, porque os dedos não cabem lá! E algumas fichas RCA tipo WBT também não...


Atenção: em modo de volume activo não ligue o Hugo a um prévio externo ou amplificador integrado, pois a níveis elevados (luz violeta) induz clipping; e em modo bypass não o ligue aos auscultadores, ou lá se vão os drivers e os tímpanos! Compreende agora porque tornaram a comutação do modo bypass do volume tão complicada?...

Da esquerda para a direita: entrada mini jack nr.1 para auscultadores, saídas RCA analógicas esq/dt.o; entrada mini jack nr.2, entrada coaxial SPDIF, entrada Toslink

Da esquerda para a direita: entrada mini jack nr.1 para auscultadores, saídas RCA analógicas esq/dt.o; entrada mini jack nr.2, entrada coaxial SPDIF, entrada Toslink

Como DAC tout court Hugo cumpre tudo o que a Chord promete.


Criei propositadamente uma lista aleatória de ficheiros PCM, DXD e DSD com todas as frequências conhecidas: de 44 a 192 kHz, DSD128 a DXD 384kHz-32 bit, e a “passagem de testemunho” é perfeita e sem hiatos, tal como numa corrida olímpica de estafetas 4 x 400: não há clics, estalos, ruídos, amuos ou silêncios estranhos, apenas música.


O que é notável para lá da capacidade inata de converter DXD e DSD 128 (via Dop), é a qualidade que o Hugo tem de nos oferecer um som excelente e sem mácula, mesmo a partir de ficheiros convencionais Red Book (44,1kHz-16 bit), que quase só se distinguem da mesma matriz em DXD e DSD pelo nível do som (DXD soa sempre mais alto e DSD mais baixo com qualquer DAC).


E a entrada coaxial não se fica atrás (tem ainda menos jitter), desde que disponha de um transporte ou leitor que, além do sinal digital dos CD “deixe passar” também sinal até 192kHz-24bit, como o Oppo BDP 95, 103 ou 105.

Hugo é um excelente prévio-DAC portátil (400 gramas) para auscultadores

Hugo é um excelente prévio-DAC portátil (400 gramas) para auscultadores

Como amplificador de auscultadores, Hugo enfrenta qualquer desafio, mesmo as cargas mais difíceis, embora eu tenha preferido marginalmente o som do andar de headphones do C2200. Talvez mais por uma questão de gosto ou hábito (a doçura eufónica das válvulas), porque numa comparação intensiva concluí que o andar do Hugo tem mais resolução, recorte e articulação nos graves.


E tudo isto a partir de uma “lata de sardinhas” alimentada a baterias, comparada com um prévio com válvulas especiais McIntosh, que é um dragão de fogo de olhos azuis 10 x maior, e tem conta aberta com débito directo na EDP...

Chord Hugo e DAC64 original

Chord Hugo e DAC64 original

Do mesmo modo, sinto-me ainda preso ao sortilégio do som macio do DAC64 original (que ligo ao PC com um adaptador USB/SPDIF da M2Tech), embora admita que Hugo oferece muito mais claridade, transparência, vivacidade, riqueza de pormenor implícito e explícito e ritmo, além de que o DAC64 não tem entrada para auscultadores (muito menos entrada USB), e parece e pesa tanto como um tijolo de alumínio.


Se é o feliz proprietário de um QBD76 HDSD, está muito bem servido em termos de qualidade de som, e não precisa de ir a correr trocar pelo Hugo, a não ser que a portabilidade (e o Bluetooth) seja fundamental para si; ou então, o que eu não acredito, porque são raros, tem uma grande colecção de ficheiros nativos DSD 128 e DXD e quer ouvi-los à máxima resolução: 352,8 e 384 kHz, respectivamente.


Se comprou o Qute HD há pouco tempo, porque gostou daquele som encorpado e doce, quase dengoso, que faz  lembrar o DAC64 não precisa ficar arrependido. Aceite sem remorsos que a vida continua: Hugo é tecnologicamente mais evoluído e tem um som mais leve (vivo?), transparente e claro – e, admito, mais rápido! Para utilizar um termo já muito gasto: a “musicalidade” de ambos é muito diferente.


Hugo é o melhor DAC HD portátil do mercado que já testei para o Hificlube.


É também o mais caro. Audioquest (Dragonfly), Meridian (Explorer, Director) e Micromega (MyDAC) para referir apenas testes que pode ler no Hificlube têm ofertas a preços muito mais baixos ainda que com capacidades de processamento limitadas; e o também mais barato Astell&Kernell AK120 (que ainda não testei) junta a portabilidade e a compatibilidade DSD 64 a memórias SD de 200GB para ouvir a go go sem precisar de computador.


Hugo or not to go that is the question. I go without question…


Produto: Chord Hugo


Distribuidor: TopAudio/Absolute Sound&Video


Preço: 1 490 euros


Specifications:

Inputs
• Optical TOSLink 24-bit/192kHz-capable
• RCA coaxial input 24-bit/384kHz-capable
• Driverless USB input 16-bit/48kHz-capable (designed for tablets/phones)
• HD USB input 32-bit/384KHz and DSD128-capable (for computer/laptop playback; see driver details below)

Drivers
• On a PC (Vista, Win 7 or 8) Hugo will playback music up to 384KHz and support both DSD64 and DSD128, but for this you must install the supplied driver which comes in the box and is also available on this product page.

• On Apple Mac OS, iOS for iPhone/iPad and Android, no drivers are required and Hugo will work up to 384KHz and DSD64/128 if your playback software/app can support it.

Outputs
• 2x3.5mm headphone jacks
• 1x6.35mm (1/4 inch) headphone jack
• 1x (pair) stereo RCA phono output

Technical specs

• Advanced digital volume control
• Crossfeed filter network
• Battery powered for approximately 14 hours operation
• Input, sample rate and volume level indication by colour-change LEDs
• 26K tap-length filter (more than double when compared to the QuteHD DAC)
• Headphone output: 110dB SPL into a 300ohm headphone load
• Output power – 1KHz 1V sinewave both channels driven 0.1% distortion
• 600 ohms 35mW
• 300 ohms 70mW
• 56 ohms 320mW
• 32 ohms 600mW
• 8 ohms 720mW
• THD – 1KHz 3V output: 0.0005%
• Dynamic Range: 120dB
• Output impedance: 0.075 ohms
• Damping factor >100
• Weight: 0.4kg
• Dimensions: 100x20x132mm (WxHxD)

Chord Hugo HD DAC (embalagem)

Hugo parece um DAC de brinquedo, mas é coisa séria e concorrente de outros bem maiores do que ele.

Da esquerda para a direita: Selector de fonte, selector 'crossfeed', USB standard, USB HD, comutador on/off, entrada corrente sector

Robert Watts, numa foto histórica, em Londres, quando descobriu que era possível substituir os chips por um processador programável

Chord QBD76 HDSD e Qute HD

Hugo e as cores do arco-íris: vermelho (44/16); verde (96/24); azul (192/24); branco (DSD), etc.(nove cores diferentes no total).

O botão de volume muda de cor: vermelho indica um volume baixo, verde/médio, azul/elevado.Versão final actual.

Da esquerda para a direita: entrada mini jack nr.1 para auscultadores, saídas RCA analógicas esq/dt.o; entrada mini jack nr.2, entrada coaxial SPDIF, entrada Toslink

Hugo é um excelente prévio-DAC portátil (400 gramas) para auscultadores

Chord Hugo e DAC64 original