No High End 2026 - Viena, assistimos ao renascimento da célula Orthophase, uma tecnologia francesa desenvolvida no início da década de 1960, que havia desaparecido desde então.
Houve dezenas de produtos em Viena que referimos apenas pela rama ou simplesmente passámos ao lado, porque é impossível debruçarmo-nos sobre tudo.
Para evitar que a nossa reportagem se torne caótica, é preciso estabelecer um foco que normalmente recai sobre as marcas distribuídas pelos nossos patrocinadores e sobre outras que, pela sua qualidade, novidade, exclusividade e – por que não – extravagância, prendem a atenção de visitantes e leitores.
Hoje vamos falar das colunas Thierry & Wango, que utilizam uma rara tecnologia planar francesa dos anos 60, que renasceu em Hong Kong e foi apresentada ao mundo no HIGH END Vienna 2026.
Como sempre acontece nas nossas reportagens, as T&W foram mencionadas aqui, assim como muitas outras marcas, inclusive as que não têm representação em Portugal. Mas a exclusividade, a qualidade acústica e de construção das T&W merecem uma apresentação mais detalhada, na esperança de que algum importador nacional se interesse por elas.
Exposição dos diferentes elementos e fases de construção da célula Orthophase.
Vive la France!
A origem da Orthophase remonta aos estudos dos franceses Georges Gogny e Georges Poutot, responsáveis por uma abordagem ao altifalante plano que começou a ser apresentada publicamente no início dos anos 60. Registos históricos documentam, por exemplo, a demonstração da Orthophase OR6T120 no Salon International des Composants Électroniques de Paris, em 1962. Esse modelo empregava, então, seis células de membrana plana dispostas verticalmente.
Décadas mais tarde, o francês Thierry Cirot, cirurgião de profissão e audiófilo por vocação, interessou-se profundamente pela tecnologia, reuniu algumas unidades originais e iniciou um longo trabalho de estudo e reconstrução. Entre 2013 e 2017, a célula foi analisada, desmontada e, progressivamente, recriada.
Entretanto, em Hong Kong, Wango Lee, que, na sua juventude, ouvira um sistema Orthophase e nunca se esquecera dessa experiência, tomou conhecimento do trabalho de Cirot. O encontro entre ambos resultou na aquisição dos direitos técnicos necessários e na criação da Thierry & Wango Audio.
Não se trata, portanto, apenas de colocar um nome histórico numa coluna moderna. A T&W pretende recuperar o princípio original e adaptá-lo aos materiais, aos métodos de produção e às exigências atuais. Cada célula é montada manualmente em Hong Kong, incluindo a delicada colagem do condutor de alumínio à membrana de poliestireno expandido.
Estrutura metálica com os ímanes que geram um campo magnético push-pull.
O que é uma célula Orthophase?
Num altifalante convencional, uma bobina circular movimenta um cone a partir de uma zona relativamente pequena. Numa unidade ATB2G planar-magnética ou isodinâmica, o condutor distribui-se por uma área muito maior da membrana, permitindo que a força motriz seja aplicada de forma mais uniforme — daí o nome "isodinâmico", que significa força igual em toda a superfície.
A Orthophase acrescenta uma particularidade importante: em vez de uma película flexível muito fina, utiliza uma membrana plana e rígida de poliestireno expandido, extremamente leve, sobre a qual se aplica um condutor contínuo de alumínio, disposto num percurso sinuoso.
A membrana do diafragma é suspensa entre grelhas magnéticas, que cobrem toda a superfície atrás e à frente do diafragma, e vibra no campo gerado por elas.
Quando a corrente elétrica atravessa o condutor, a força magnética atua sobre praticamente toda a sua superfície. A intenção é que a membrana avance e recue como um pistão plano, reduzindo deformações localizadas, o armazenamento de energia e as diferenças de fase entre as diferentes zonas do diafragma.
As fotografias que fizemos das células expostas numa vitrina são particularmente esclarecedoras. Numa delas vemos a placa branca de poliestireno; noutra, o padrão formado pelas faixas condutoras; e, na última, a estrutura magnética com as suas barras paralelas.
A explicação que nos deram amavelmente foi uma autêntica aula prática de anatomia de um transdutor Orthophase.
As T&W V12.1, com doze células Orthophase; e as V3.1 de três células. O sistema utilizava eletrónica McIntosh e cablagem Ikigai Audio.
Full range
O conceito da T&W evita a combinação habitual de woofer, altifalante de médios e tweeter. Cada célula Orthophase é concebida para funcionar em banda larga. Várias células iguais são então ligadas entre si e alinhadas verticalmente.
Desta forma, não é necessário um crossover para dividir diferentes partes do espetro por altifalantes com massas, materiais e padrões de dispersão distintos. Desta forma, procura-se preservar a continuidade temporal e tímbrica através de uma superfície emissora homogénea. A Série V foi-nos apresentada como um sistema dipolar, de fonte linear e sem crossover.
Na mesma sala (ver foto), foram apresentados os dois modelos já disponíveis da série V: 3.1 e 12.1. Nós ouvimos apenas – e com muito gosto – as V12.1, o modelo topo de gama.
A V12.1 utiliza doze células montadas numa torre com aproximadamente 1,64 m de altura, 49 cm de largura e 21 cm de profundidade. Pesa cerca de 45,4 kg e suporta até 200 W.
A sensibilidade declarada mantém-se nos 90 dB e a impedância nominal nos 4 ohms. A resposta em frequência pareceu-nos um pouco otimista (5 Hz–40 kHz, ±3 dB), mas a verdade é que, na audição, tanto eu como o Pedro Henriques sentimos que estávamos a ouvir uma verdadeira coluna full-range, em fase perfeita.
Na V12.1, as doze células formam uma longa linha vertical. A geometria procura aproximar-se de uma frente de onda cilíndrica, reduzindo a perda de nível com a distância e proporcionando maior uniformidade entre as posições sentada e de pé.
A T&W afirma que a V12.1 distribui o som de forma consistente do chão ao teto. Esta será uma das características que mais gostaríamos de confirmar numa audição prolongada e numa sala conhecida.
Como qualquer dipolo, a T&W V12.1 irradia som para a frente e para trás, com forte cancelamento lateral. Isto pode reduzir certas reflexões nas paredes laterais, mas torna essencial a distância à parede situada atrás das colunas. Não são, portanto, colunas para ficar encostadas à parede ou escondidas entre móveis.
Assim termina o nosso primeiro postal de Viena para leitura de verão. Esperamos que gostem. Mantenham-se sintonizados para mais novidades, entre dois cocktails e um mergulho.
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