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B&W 800 Series Diamond D5 — Regresso a Worthing

B&W Factory Tour - Cover.jpg

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JVH ouviu as B&W 801 D5 em Viena. Pedro Henriques foi agora ouvi-las a Worthing, em Inglaterra, e ver como se fabricam ao vivo. Em Southwater, assistiu a uma audição comparativa entre as Series Diamond 805, 804, 803 e 801 D4 e D5 e viu/ouviu novos produtos top-secret da B&W. Saiba tudo aqui.

Em Viena, as Bowers & Wilkins 801 D5 convenceram finalmente JVH de que o enorme investimento tecnológico da marca na última década se traduziu numa melhoria sonora evidente. O que mudou?

Desta vez, coube-me a mim a missão de procurar a resposta em Worthing, na costa sul da Inglaterra, onde a Bowers & Wilkins continua a fabricar a 800 Series Diamond. Curiosamente, tudo começa com folhas muito finas de madeira prensadas a quente, como quem mete um delicioso bolo de mil-folhas no forno.

Atividade fabril nas fábrica das B&W, em Worthing - UK.

Atividade fabril nas fábrica das B&W, em Worthing - UK.

A fábrica, onde a Series 800 continua a ser produzida por engenheiros que trabalham lado a lado com artesãos, está intimamente ligada à história da empresa.

A gama completa da B&W Series 800 Diamond D5. À esquerda, Sir John Bowers, que, tendo ficado rico por herança, optou por continuar a produzir colunas de excelência e a criar postos de trabalho, no pós-guerra em Inglaterra.

A gama completa da B&W Series 800 Diamond D5. À esquerda, Sir John Bowers, que, tendo ficado rico por herança, optou por continuar a produzir colunas de excelência e a criar postos de trabalho, no pós-guerra em Inglaterra.

My name is Bowers, John Bowers

John Bowers, que serviu nos Serviços Secretos britânicos na 2ª Guerra Mundial, qual verdadeiro James Bond, e Roy Wilkins abriram, em Worthing, uma loja de rádio e televisão em 1946; a B&W Electronics nasceu em 1966, com o apoio da herança deixada a Bowers por Kathleen Knight, uma cantora de ópera, que ficou encantada ao ouvir a sua voz reproduzida por colunas desenhadas por ele.

Novo Centro de Desenvolvimento e Pesquisa de Southwater.

Novo Centro de Desenvolvimento e Pesquisa de Southwater.

Sessenta anos depois, a Série 800 continua a ser construída ali, enquanto a investigação e o desenvolvimento habitam agora o novo Southwater Research Establishment, sucessor do histórico centro de Steyning, que JVH, o meu pai, visitou várias vezes (ler ‘Dá Cá Mais Cinco!’

Uma coluna com curvas

A imagem exterior das 800 Series Diamond é-nos tão familiar que quase nos esquecemos da complexidade do processo de construção.

As finas folhas de madeira são cortadas e prensadas sob calor até assumirem a chamada curvatura inversa, conhecida como Reverse Wrap. Andy Kerr, que nos guiou durante a visita, já descreveu a gigantesca prensa industrial como ‘Dickensiana’.

Depois, entra em cena um robô CNC de cinco eixos, capaz de rodar e posicionar a caixa enquanto a máquina ‘dança’ com a precisão de uma bailarina clássica. Mas eu só o vi a trabalhar no vídeo oficial, que publico no final, porque o robô estava em manutenção.

A precisão de corte da madeira é de ±0,2 mm! E esta foi talvez a minha primeira surpresa em Worthing: apesar de toda a conversa sobre diamantes, Continuum, Aerofoil e simulações informáticas, fabricar umas 800 continua a ser, afinal, um exercício de tolerâncias mecânicas, colagem, lixagem, pintura, polimento e inspeção humana, como nos bons velhos tempos.

À máquina, o que é da máquina; ao homem, o que é do homem, sobretudo quando a sensibilidade e a experiência humana contam mais do que a ciência.
Colocando os 'orgãos' dentro da barriga de umas 804 D5

Colocando os 'orgãos' dentro da barriga de umas 804 D5

É também por isso que olhar para uma coluna desmontada é muito mais instrutivo do que olhar para uma coluna acabada. Por fora, as 801 D5 parecem umas 801 D4, levemente estilizadas (há até quem as confunda!). Por dentro, a história é outra: o grande desafio da geração D5 foi tornar a caixa ainda menos audível.

Da Matrix ao Space Frame

A conhecida estrutura Matrix recebeu na frente perfis espessos de alumínio em torno das aberturas dos altifalantes — aquilo a que a B&W chama Enhanced Matrix —, enquanto na traseira surgiu o novo Space Frame Bracing, constituído por calhas paralelas de alumínio, reforçadas longitudinal e transversalmente e aparafusadas diretamente à Matrix.

Não se trata, portanto, de mais uma invenção de marketing só para ficar bonita no catálogo. O objetivo é aumentar a rigidez e impedir que a energia produzida pelos altifalantes seja transformada em ‘música’ pela própria caixa — música que ninguém gravou e ninguém quer ouvir.

A placa superior de alumínio também foi substancialmente revista. A ligação ao corpo faz-se agora de forma ainda mais rígida, pois apresenta nervuras mais espessas, mais pontos de fixação e novos desacoplamentos da Turbine Head. O acabamento inclui couro Connolly e material de amortecimento herdado das D4 Signature.

E depois ainda há a base.

Nas 801 Series Diamond D5, cada pedestal utiliza simultaneamente constrained-layer damping e tuned-mass damping, se me permitem continuar a utilizar os termos técnicos originais para evitar perdas na tradução.

As massas sintonizadas são dimensionadas especificamente de acordo com as propriedades mecânicas de cada modelo. Este conceito mecânico inspira-se na engenharia civil de edifícios e estruturas: se algo vai vibrar previsivelmente numa determinada frequência, atribui-se-lhe uma massa calculada para contrariar essa vibração. Há colunas que se apoiam apenas sobre uma base inerte. A base das 801 D5 tem uma função acústica ativa.

Os diamantes são eternos

E aqui surge um daqueles números que ficam na memória: a cúpula do tweeter Diamond tem apenas cerca de 40 mícrons de espessura e pesa 88 miligramas. O diamante é produzido artificialmente antes de ser transformado na cúpula utilizada pela Series 800 Diamond.

 

As D5 utilizam a grelha protetora, com malha acusticamente mais transparente, desenvolvida para a 801 D4 Signature.

As D5 utilizam a grelha protetora, com malha acusticamente mais transparente, desenvolvida para a 801 D4 Signature.

O tweeter Diamond Dome continua a ter o conhecido diafragma de diamante de 25 mm, não tendo sido anunciada qualquer nova tecnologia para a cúpula na geração D5. O que mudou foi a grelha de proteção, que utiliza agora uma malha acusticamente mais transparente, desenvolvida originalmente para a 801 D4 Signature. Segundo a Bowers & Wilkins, esta alteração melhora tanto a resolução como a resposta fora do eixo.

Os altifalantes de médios Continuum e de graves Aerofoil também foram revistos, com novos sistemas magnéticos de menor distorção que utilizam componentes com especificação Signature. O objetivo é melhorar a resolução, a resposta aos transitórios e a dinâmica.

O mesmo aconteceu com os filtros divisores, que utilizam componentes de melhor qualidade, nova cablagem interna e melhores ligações aos terminais. O próprio crossover está agora montado sobre uma placa sólida de alumínio, rigidamente fixada à caixa e ao Space Frame por meio de parafusos M8 e M4.

Ou seja, ao fim de pouco tempo de visita, a filosofia D5 tornava-se clara. Desta vez, não há nenhum novo altifalante milagroso, nem um material revolucionário; há antes uma obsessão quase neurótica por corrigir as pequenas imperfeições mecânicas da Series 800 D4.

E isso ajuda a explicar por que razão as especificações da 801 D5 são tão semelhantes às da D4, enquanto o resultado sonoro é muito melhor, como JVH tão bem detetou.

Quem não passa no exame, chumba

Cada unidade e cada caixa são verificadas antes da montagem final. A produção utiliza sistemas de medição Klippel para controlar a resposta em frequência, a distorção e a impedância, com critérios objetivos de aprovação/reprovação.

Não se trata apenas de ouvir uma coluna no final e decidir que ‘parece soar bem’. Não basta parecer; é preciso eliminar qualquer coluna que não esteja dentro das tolerâncias.

Andy Kerr, que fez uma longa apresentação sobre todos os aspetos técnicos da B&W, resume a filosofia da marca numa palavra: precisão. Sempre com o objetivo da marca ser conhecida como uma performance brand, como a McLaren, e não uma luxury brand como a Rolls Royce.

A dança das colunas no complexo processo de audição de correu com eficiência técnica.

A dança das colunas no complexo processo de audição de correu com eficiência técnica.

Da fábrica para o auditório

A parte mais interessante da apresentação à imprensa aconteceu no novo centro de investigação envidraçado de Southwater, onde os convidados puderam comparar lado a lado vários modelos das gerações D4 e D5.

Nada de apelar à memória auditiva, que eu, aliás, não tinha, pois não ouvi as D5 em Viena. Aqui, as D4 tocaram sempre primeiro, as D5 depois: 805, 804, 803 e 801. Mesma sala, mesmo sistema, mesma música.

E que sala! Construída sobre uma base suspensa, como nas câmaras anecóicas, para eliminar qualquer ressonância ou vibração.

Todas as colunas foram bicabladas a partir de amplificadores estéreo em cada canal.

Todas as colunas foram bicabladas a partir de amplificadores estéreo em cada canal.

A eletrónica escolhida era composta por um velho transporte CD Denon DP-S1, DAC MSB Platinum Diamond com fonte separada, pré-amplificador Gryphon Commander e dois enormes Gryphon Apex Stereo Classe A em modo de bicablagem. Ah, e CDs de 16 bit! Ninguém achou necessário reproduzir ficheiros de 768 kHz para demonstrar umas colunas de 50 mil euros…

As 805 D4 (cor vermelha única e irrepetível nas D5) abriram as hostilidades.

As 805 D4 (cor vermelha única e irrepetível nas D5) abriram as hostilidades.

Não tenho a experiência auditiva do meu pai, mas já ia preparado com as suas notas da audição em Viena e, durante o comparativo, ouvi o mesmo padrão tanto nas D4 como D5: o caráter era inequivocamente B&W, mas achei que havia sempre maior transparência, limpeza, definição dinâmica e melhor construção do espaço com as D5.

Contudo, a diferença mais audível para mim foi ao comparar as B&W 803 D4 e D5. Com as 803 D5, a diferença foi ainda mais evidente. Mas, como sempre acontece, são os topos de gama que produzem os melhores resultados finais, embora eu estivesse sentado muito à direita da sweet spot.

Assim, destaco a capacidade das 801 D5 para revelarem a profundidade da mistura, fruto da maior tensão, extensão e intensidade do grave, e da total ausência de dureza, mesmo em níveis elevados, aspetos para os quais JVH já tinha chamado a atenção na audição de Viena, mesmo sem ter as D4 como termo de comparação, e a minha própria audição confirmou.

A lendária Nautilus exibe orgulhosamente as cores do Reino Unido. Ainda se fabricam 50 pares por ano!

A lendária Nautilus exibe orgulhosamente as cores do Reino Unido. Ainda se fabricam 50 pares por ano!

Menos coluna. Menos som. Mais música.

Andy Kerr deu talvez a melhor explicação para o que a D5 tenta fazer. Segundo ele, há três avanços fundamentais na Série D5: tonalidade mais equilibrada e agradável, mesmo com gravações menos-que-perfeitas; menos presença da caixa (vanishing act); e mais resolução, que resulta não de um aumento da informação, mas antes de uma diminuição do ruído que antes mascarava essa informação.

Na opinião de JVH, a ‘alta resolução’ das B&W topo de gama foi durante demasiado tempo sinónimo de mais brilho e de arestas mais vivas na mistura. Aqui seguiu-se o raciocínio oposto.

Se reduzirmos o ruído mecânico da caixa, a distorção dos motores, as interferências do crossover e as vibrações espúrias dos altifalantes, vamos ouvir mais música, embora talvez menos ‘som’.

O vosso humilde cronista com segurando na mão um dos moldes da secção de graves das Nautilus.

O vosso humilde cronista com segurando na mão um dos moldes da secção de graves das Nautilus.

Segundo Kerr, a 801 D5 aproxima-se da lendária Nautilus na capacidade de desaparecer acusticamente, acrescentando-lhe, porém, uma escala dinâmica e uma resolução que a Nautilus original não possui. Em Viena, o meu pai ficou com a ideia de que Laurence Dickie talvez até concordasse com esta afirmação. (ver Artigos Relacionados).

‘Top-Secret’

A Series 800 Diamond D5 é um claro avanço em relação à geração anterior. Infelizmente, não vamos poder confirmá-lo com uma audição comparativa em casa e controlada por nós. Mas não me importava nada de voltar a ouvi-las no Centro de Pesquisa de Southwater, desta vez sentado na sweet spot.

Também ouvi/vi novos produtos ‘top-secret’, que não posso revelar. Tal como em Las Vegas, o que acontece em Southwater vai ter de ficar em Southwater. Pelo menos, por enquanto…

Da Harman à Samsung

Depois de várias mudanças de proprietário, a Bowers & Wilkins pertence hoje à Harman, que por sua vez foi integrada no universo Samsung. E a pergunta inevitável é: a Série 800 vai continuar a ser produzida na Inglaterra, quando as séries mais acessíveis já são todas fabricadas na China?

Ninguém pode garantir o futuro, mas as décadas de experiência acumulada na fábrica de Worthing não são fáceis de transferir para o fim do mundo, pois há trabalhadores cuja experiência conjunta representa centenas de anos de conhecimento acumulado. E isso ninguém pode substituir.

Para já, não há sinais de cortes no investimento; pelo contrário, há novos projetos ‘secretos’ em desenvolvimento, como já referi.

Manter uma fábrica na Inglaterra na era da globalização não será, com certeza, a solução mais barata. Mas talvez seja a única que faz sentido hoje para uma marca lendária como a Bowers & Wilkins.

B&W VIDEO OFICIAL

Quando menos é mais

Um par 801 D5 custa cerca de 50.000 euros. Cada uma pesa 106,4 kg e continua a utilizar os mesmos altifalantes da D4: Diamond Dome de 25 mm, Continuum FST de 150 mm e dois Aerofoil de 250 mm e a arquitetura básica é também a mesma. Sendo assim, à primeira vista, nada parece ter mudado.

Mas, quando visitamos Worthing e vemos a madeira dobrada sob pressão e calor; o robô de cinco eixos, os reforços de alumínio escondidos dentro da caixa, os tweeters de diamante, o crossover aparafusado a uma estrutura metálica e a inspeção Klippel de cada unidade, percebemos que, afinal, muita coisa mudou. Só que, tal como o amor em Camões, ‘arde sem se ver’.

A melhor coluna de som não é a que acrescenta mais; é a que perde menos.

Sessenta anos depois, em Worthing, menos continua a ser mais.

Long Live the King!

Pedro Henriques

Nota: o Hificlube agradece o convite da B&W/Harman, de Alex Obrado, através da AEM Press, para visitar a fábrica de Worthing e o novo Centro de Pesquisa de Southwater.

B&W Factory Tour Cover

Atividade fabril nas fábrica das B&W, em Worthing - UK.

A gama completa da B&W Series 800 Diamond D5. À esquerda, Sir John Bowers, que, tendo ficado rico por herança, optou por continuar a produzir colunas de excelência e a criar postos de trabalho, no pós-guerra em Inglaterra.

Novo Centro de Desenvolvimento e Pesquisa de Southwater.

Colocando os 'orgãos' dentro da barriga de umas 804 D5

As D5 utilizam a grelha protetora, com malha acusticamente mais transparente, desenvolvida para a 801 D4 Signature.

A dança das colunas no complexo processo de audição de correu com eficiência técnica.

Todas as colunas foram bicabladas a partir de amplificadores estéreo em cada canal.

As 805 D4 (cor vermelha única e irrepetível nas D5) abriram as hostilidades.

A lendária Nautilus exibe orgulhosamente as cores do Reino Unido. Ainda se fabricam 50 pares por ano!

O vosso humilde cronista com segurando na mão um dos moldes da secção de graves das Nautilus.


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