Editorial

pena do pono

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Em Abril de 2014, Hificlube noticiou aqui o projecto Pono, de Neil Young, o Messias que anunciava a salvação da indústria discográfica e, sobretudo, da qualidade do som, tão mal tratado pelos sites de conteúdos por download e streaming como o iTunes e a Spotify, ao oferecer ficheiros comprimidos em AAC e MP3, que não passam de “fotocópias” de má qualidade do original, apenas porque ocupam pouco espaço no disco e demoram pouco tempo a descarregar ou transmitir.

Com o apoio de figuras mediáticas da indústria discográfica, que surgiram em videos declarando que nunca tinham ouvido nada de tão inovador e extraordinário, como se eles próprios não tivessem acesso aos masters em estúdio, e apoiado numa inteligente campanha kickstarter, Neil conseguiu angariar 6 milhões de dólares!, dez vezes mais do que o inicialmente previsto como necessário para lançar o produto.

Pono em versão de luxo personalizada

Pono em versão de luxo personalizada

Depois de muitas vicissitudes, incluindo um divórcio (o dinheiro é uma chatice...), Neil apresentou este ano em Las Vegas oficialmente o Pono, com a solenidade de quem descobriu a pedra filosofal. Com tanto sucesso, aliás, que a notícia foi tratada até na imprensa generalista, incluindo a nacional, Expresso e Observador, por exemplo.


Assim, ficámos a saber, entre outras coisas que, e cito do Observador: “o novo leitor debita música a 24 bit” (?), ou que: “ouvidos treinados não hesitaram em recomendar o Pono e a classificá-lo como “a melhor música digital que existe”(!!), ou ainda que a “nova experiência auditiva parece ser um argumento válido para convencer os consumidores a voltar a comprar música... em serviços de streaming como o Spotify” (?!).


A verdade é que, apesar do enorme sucesso mediático, o Pono não traz nada de novo, ou pelo menos nada que não esteja já disponível no mercado há anos, nomeadamente a oferta de downloads de ficheiros áudio de alta resolução a 24 bit a 88/96/192 kHz, como a HDTracks, de David Chesky, o primeiro visionário a insurgir-se contra o MP3, mas acabou por ser envolvido num escândalo, quando se descobriu que muitos dos master 24-96 e 192 eram upsamplados, inclusivé de ficheiros...MP3!!

Chord Hugo DAC a referência mundial em DAC portátil

Chord Hugo DAC a referência mundial em DAC portátil

Hoje é até possível descarregar ficheiros áudio a 384kHz-24 bit de sites como a 2L, ou mesmo em DSD128 (ou superior, também na Native DSD ou Acoustic Sounds/SuperHiRez), e reproduzi-los depois com 'portable headphone/DACs', como o Dragonfly , Explorer, Hugo, iFI Micro, de preço equivalente (o Hugo é um pouco mais caro), todos eles já testados no Hificlube (clique no respectivo nome).


Ora o Pono nem sequer é compatível com DSD, quando a Sony acaba de anunciar que vai lançar o streaming em DSD 5,6MHz! Leu bem: streaming e não downloading...


Um leitor mais informado poderia alegar com alguma pertinência que nenhum deste DACs portáteis tem uma memória interna extensível de 128GB como o Pono. Mas tem o Astell&Kern, por exemplo; e os novos “walkman” Hi-Rez da Sony, embora bastante mais caros, admito. Aliás, para ouvir música em alta resolução, incluindo DSD, só precisa mesmo de um iPhone ligado a um iFI Micro ou Nano DSD! Olhe, pegue no seu iPhone e telefone ao Alberto Silva da Smartaudio, que ele explica-lhe tudo...


Além de que 128GB não é nada quando se trata de ficheiros áudio de alta resolução. É só preciso fazer as contas ao tamanho médio de um único ficheiro (faixa). Se pensarmos na peregrina legislação da cópia privada e a taxa por byte de armazenamento prevista, o melhor mesmo é ficarmos pelo MP3 ou vamos andar a alimentar o vício da subsidiarite crónica:


FLAC 24BIT/192kHz – 338MB
DXD 24BIT/352.8KhZ – 1.0 GB
DSD128 5.6448Mbit – 581 MB


Nota: repare que um CD com 15 faixas tem cerca de 600MB. Ou seja, uma única faixa em DXD tem quase o dobro da informação de um CD inteiro!, o que inviabiliza o streaming e torna o downloading de um álbum completo exasperante. Não admira, pois, que tanto os fornecedores de conteúdos como os clientes tenham optado pelo MP3, que é uma espécie de hamburguer&french fries comparado com uma posta de carne mirandesa com batatinhas assadas no forno de lenha...

Aurender Flow: um terabyte de música na sua mão

Aurender Flow: um terabyte de música na sua mão

Na CES 2015, a Aurender apresentou o Flow, um leitor portátil de alta resolução, com memória interna de 1TB! E, no entanto, os jornais e televisões generalistas não se calavam: Pono para aqui Pono para ali, apenas porque tem por trás a figura mediática de Neil Young&Friends. Era assim também com a Irina, que só era conhecida por ser namorada do Ronaldo. Ah, mas o Pono é bom. Então, e a Irina não é?!...


O mais espantoso é que depois de Neil andar anos a dizer mal do CD, agora a maior parte das “2 million tracks” disponíveis na Pono Music Store é a 44,1kHz, pasme-se!, nem mais nem menos que a frequência de amostragem do...CD (todos os discos dos Led Zeppelin, por exemplo, that sounds like shit).


Mas honra seja feita a Neil Young: se entretanto ficar disponível uma versão com resolução mais alta de um disco que já tenha comprado antes, pode descarregá-la de novo sem ter de pagar mais por isso...


Embora o leitor seja compatível com WAV, AIFF e ALAC, todos os ficheiros disponíveis na Pono Store são exclusivamente FLAC, que podem ser reproduzidos por qualquer dos modelos de DACs acima referidos, portanto não precisa do toblerone da Pono. Ah, e o Pono não é (pelo menos por enquanto) compatível com DSD e DXD.


Ainda por cima, por ser de secção triangular, não cabe nos bolsos das jeans (c’mon Neal, no jeans?!), a não ser que pretenda exibir o “efeito Ronaldo” patente nos calções da estátua do Funchal...


Nota: o Pono Player identifica sempre com um led azul os ficheiros, que tenham sido descarregados directamente da Pono Store, mesmo em resolução CD (a maior parte, como já vimos). A cor do led não tem nada a ver com a resolução, como acontece com o iFI ou o Hugo, que acendem leds de cores diferentes para cada amostragem: 44, 88, 96, 192, 352, 384, DSD, DXD, etc.


A Pono Store cobra-lhe cerca de 20 dólares por cada álbum em alta resolução, sendo a maior parte reedições de décadas passadas, incluindo toda a discografia de Neil Young, claro. E Rolling Stones, Elton John, Simon&Garfunkel, a Janis Joplin a cantar o Bobby McGee, The Who, os Eagles, que continuam hospedados no Hotel California; e mais um centena de cotas como eu, uns vivos outros já defuntos, incluindo o inefável Miles Davis, com Kind Of Blue, que já foi editado em dez formatos diferentes.


Eh, pá, já não há pachorra! A maior parte destes discos vendem-se em cassete pirata e em LP e CD na feira da ladra...


Mas a Pono Music Store tem pelo menos uma coisa boa: o Pono Music World app é grátis (por um período limitado, creio) e não é outra coisa senão o famoso JPlayer 20 o meu music player software preferido, pelo qual paguei 50 dólares! Aproveite para experimentar de borla...


Eu admiro o esforço de Neil Young para oferecer (mais) uma alternativa ao MP3. Mas não creio que o download sobreviva ao streaming e, mesmo com ligações rápidas, não é viável fazer streaming de ficheiros tão pesados sem compressão. O Qobuz e a Tidal não vão além da resolução CD (Red Book).

O novo Meridian Explorer II é compatível com MQA

O novo Meridian Explorer II é compatível com MQA

A minha esperança é que a iTunes e a Spotify e afins apoiem o formato MQA (Master Quality Authenticated), da Meridian, que permite fazer streaming de música em alta resolução sem compressão em ficheiros tamanho-CD! Mais uma autêntica revolução do mago digital Bob Stuart (consta, que eu ainda não ouvi...).


Aliás, o Pono começou por ser desenvolvido em colaboração com Bob Stuart, e era para ser compatível com MQA, daí o slogan inicial de “best digital sound ever”. Topam?...


Mas quando Neil percebeu que as principais editoras não estavam interessadas em remasterizar tudo outra vez agora em MQA, passou a alinhar com a Ayre, um dos grandes especialistas americanos em tecnologia digital, por isso não admira que o Pono tenha um som de grande qualidade, sobretudo quando ligado a auscultadores com entrada balanceada.


Deste modo, o Pono ficou-se pelos masters digitais iguais aos que são disponibilizados pela concorrência há anos que, em alguns casos, nos vendem gato por lebre: é fácil fazer upsampling de 44 (ou mesmo MP3) para 96 ou 192, 384 ou até DSD. Olhe, basta utilizar o app da própria Pono. Eu, no momento em que escrevo, estou a ouvir jazz via Spotify em DSD512!!...(ver como no teste do iFI Micro DSD).


Nota:
No final de Fevereiro, espero poder testar o Meridian Explorer V2 (299 euros) com ficheiros MQA. E se o Pono aparecer pela lusitana praia, que venha por bem...

http://www.hificlube.net/media/214475/Foto nr1 Pono

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