Editorial

O carpinteiro do Natal

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Quando se comemora o nascimento do filho do carpinteiro, JVH, neto de carpinteiros, publica um excerto do evangelho do áudio escrito no séc. XX d.c.


A pior coisa que pode acontecer a um sistema de som é poluir o ambiente doméstico: visual e acusticamente. Se um mau sistema estéreo convencional incomoda muita gente, incluindo os vizinhos, um sistema AV incomoda cinco vezes mais.


Uma coluna de som muda, isto é, quando não está a tocar, é um peso morto. E ninguém quer ter um cadáver em casa, muito menos dois. Para que o impacte ambiental seja reduzido ao mínimo, depois de ultrapassado o maior obstáculo: a dona da casa, cujo fundamentalismo ambientalista vê com maus olhos aqueles monos estereofónicos, passe a contradição, ali plantados no meio da sala, a solução reside no “enquadramento” (há quem lhe chame equilíbrio estético) de tal forma que até a Quercus aceitaria a solução proposta.


Por outras palavras: como a maior parte do tempo as colunas de som não passam de mais um móvel, convém que se adapte bem os outros que já lá estão. Talvez assim, convença a sua amantíssima esposa a aceitar o primeiro parzinho de colunas na sala. A partir daqui, o caminho está aberto para o sistema AV dos seus sonhos. É um pouco como os filhos: o que custa mais é o primeiro casal de gémeos. Os outros vêm por acréscimo. Ela nem vai dar por isso...


Se ainda não chegou a uma solução de compromisso sobre o primeiro par de colunas, nunca se arrisque a aumentar a prole unilateralmente. Repare que um sistema AV precisa de um par à frente, um par atrás, mais uma coluna por cima ou por baixo do televisor a que se chama de central, que tem de ser blindada ou as cores no ecrã ficam todas esborratadas; e ainda o polémico “subwoofer”: o mais das vezes é um caixote preto e cúbico, um autêntico mamarracho.


Deste nem a sogra gosta. A central ainda vá que não vá, porque ajuda-a a compreender o que se passa no ecrã, ao reforçar certas frequências fundamentais que vão ficando menos audíveis com o passar dos anos. Agora, de um caixote horroroso que parece que não está ali a fazer nada, a não ser quando põe a casa toda a tremer (o que dirão os vizinhos!?...).


A miudagem gosta, claro. Tudo o que seja filme de acção ganha logo outro impacte ambiental: aquilo é porrada de criar bicho...


Mas, dizia eu, como “enquadrar” estes móveis sonoros sem poluir o ambiente visual? Muitos fabricantes, quase todos nórdicos, ou as cópias asiáticas dos ditos, que ainda são piores, apresentam propostas mais ou menos fantasistas: colunas de som que não se parecem com colunas, muito menos soam como tal, em que o brilho do metal, normalmente o alumínio, ofusca os olhos e a mente.


Eu acho que depois do primeiro impacte, em que a filosofia minimalista vai ganhar pontos, em especial junto da cara metade, as pessoas caem em si e concluem que de alumínio são os tachos, cuja percussão serve mais para protestar que para animar.


Uma orquestra de tachos (e não estou a falar de uma orquestra paga pelo Orçamento de Estado) soa inevitavelmente cacofónica. Porque iria soar diferente um sistema AV com colunas feitas do mesmo material? As colunas querem-se de madeira, como os caixões, que só são de chumbo quando a coisa começa a cheirar mal...


(Em homenagem aos meus avós materno e paterno, que também eram carpinteiros).


Nota: texto revisto e adaptado pelo autor do artigo publicado na revista Notícias Magazine em 26 de Novembro de 2002, porque ainda há quem acredite que foi com o Pai Natal que tudo isto começou...

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